O LEGADO DE CHICO MENDES NA COP 30: VOZES DA FLORESTA NO DEBATE GLOBAL

O LEGADO DE CHICO MENDES NA COP 30: VOZES DA FLORESTA NO DEBATE GLOBAL

O LEGADO DE CHICO MENDES NA COP 30: VOZES DA FLORESTA NO DEBATE GLOBAL 

A COP 30, realizada em Belém, trouxe ao coração da Amazônia representantes de mais de 90 países para discutir o futuro climático do planeta. Em meio ao fervor dos debates, Elenira Mendes – filha do líder seringueiro Chico Mendes – destacou a atualidade do legado de seu pai e a urgência de um compromisso real com os povos da floresta. 

Entrevista com Elenira Mendes por Marcos Jorge Dias

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Foto: Marcos Jorge Dias.

Ela recorda que, nos anos 1980, seringueiros partiram de Xapuri rumo a Brasília para propor uma reforma agrária voltada aos extrativistas. Dessa mobilização nasceu o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e, posteriormente, a Aliança dos Povos da Floresta. “Sem alfabetização formal, eles compreendiam profundamente o que é viver em equilíbrio com o meio ambiente”, ressalta.

SABER ANCESTRAL E CIÊNCIA CONTEMPORÂNEA

Para Elenira, conceitos como bioeconomia e transição energética justa não são novidades: “Os seringueiros sempre defenderam que é possível conciliar progresso com preservação ambiental. Eles viviam isso na prática, muito antes de a ciência começar a teorizar sobre o tema”.

Ela lembra ainda que Chico Mendes levou denúncias ao Banco Mundial e ao BID sobre o uso de recursos que promoviam destruição e expulsão de comunidades.

 “Foi um ato de coragem e visão. Hoje, os países se reúnem para criar fundos de apoio à Amazônia, mas meu pai já alertava sobre isso há mais de 37 anos. Não dá para falar de futuro sem ouvir a Amazônia.”

COP 30: ESPERANÇA OU ESPETÁCULO? 

Elenira viu a COP 30 como oportunidade, mas também como risco de se tornar apenas mais um grande evento:

“Muitas vezes parece um espetáculo onde se apresentam metas sem obrigação de cumprimento. Enquanto isso, os verdadeiros guardiões da floresta continuam privados do mínimo necessário para viver com dignidade.”

Elenira é cética quanto ao cumprimento das metas até 2030: “Desde a ECO-92, muito se fala e pouco se faz. Os países continuam presos ao petróleo, às guerras, aos interesses econômicos. E, enquanto isso, as comunidades da Amazônia seguem sem acesso ao básico – água, saúde, educação”.

TRAJETÓRIA PESSOAL E PROFISSIONAL 

Elenira conta que sua entrada no movimento social foi motivada por uma mensagem deixada por Chico Mendes no verso de uma foto sua. “Aquilo me tocou profundamente. A partir daí, comecei a militar e criamos o Instituto Chico Mendes.”

Ela relembra também uma conversa marcante: “Meu pai me perguntava: ‘Nira, se o papai morrer, o que você vai fazer?’ Eu respondia: ‘Vou chorar.’ E ele dizia: ‘Não, você não vai chorar! Você vai se tornar advogada e vai ajudar o movimento.’”

Formada em Administração com especialização em Gestão de Recursos Ambientais, Elenira decidiu cursar Direito e hoje atua como advogada. “Quando defendo os interesses de pessoas desassistidas, sinto que estou realizando o sonho dele: ajudar quem precisa, ser uma força para quem está fraco.”

ATUAÇÃO SOCIAL E CONTINUAÇÃO DO LEGADO

Seu trabalho não se limita ao movimento dos seringueiros. Ela auxilia associações, ONGs e instituições na formalização e defesa jurídica. “Minha vida está totalmente voltada à causa – seja ela ambiental, jurídica ou social.”

Para Elenira, sua trajetória é uma reconstrução e também a continuidade da missão de Chico Mendes: “Ele era a voz dos invisibilizados da floresta. Nunca disse ‘sou eu’, mas ‘somos nós’. Hoje, quando encontro alguém que precisa de força, eu me coloco à frente. Essa é minha missão.”

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Foto: Marcos Jorge Dias.

Quarenta anos após a criação do CNS, o legado de Chico Mendes ecoa na COP 30 como chamado à escuta da floresta e de seus povos. A luta iniciada por seringueiros e comunidades tradicionais permanece viva, lembrando ao mundo que não basta preservar a floresta: é preciso garantir dignidade e qualidade de vida para quem nela habita.

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p style=”text-align: justify;”>MARCOS JORGE DIASMarcos Jorge Dias – Jornalista. Repórter especial da Revista Xapuri na COP 30.  Capa: Marcos Jorge Dias.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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