O MOVIMENTO REDPILL E O AUMENTO DOS FEMINICÍDIOS NO BRASIL

O MOVIMENTO REDPILL E O AUMENTO DOS FEMINICÍDIOS

O MOVIMENTO REDPILL, O DISCURSO DE ÓDIO CONTRA AS MULHERES E O AUMENTO DOS FEMINICÍDIOS NO BRASIL

Os movimentos misóginos existentes hoje no Brasil contribuem diretamente para a naturalização da violência contra mulheres, resultando em uma sociedade adoecida, fato percebido no aumento do feminicídio, crime que foi reconhecido como autônomo em 2024, por meio da Lei nº 14.994/2024 (art. 121-A do Código Penal)

Por M. Letícia Marques

Um desses movimentos é o chamado Movimento Redpill. O nome, do inglês “redpills”, surgiu por volta de 2010 e alcança seu auge nos dias atuais. A ideia é baseada no filme “Matrix” (1999), onde há duas pílulas, a azul e a vermelha, e o personagem principal é convidado a tomar a pílula vermelha, para “acordar para a realidade”, enquanto a azul faria com que permanecesse do mesmo modo.

Para o Movimento Redpill, ao escolher o caminho da pílula vermelha, a pessoa acorda para uma realidade onde a masculinidade é exaltada ao extremo e o feminino é cerceado por padrões visuais e de comportamento, que é imposta por esse grupo de homens sobre as mulheres, sendo que as mulheres que não seguem o “padrão ideal” são vistas como descartáveis e não femininas.

AS RAMIFICAÇÕES DO PATRIARCADO E A NATURALIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA CONTRA MULHERES

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Foto: Jorm Sangeorn/ Getty Imagens

O Movimento Redpill foi parido pelo patriarcado, ou melhor, cuspido. Os homens redpills utilizam as redes sociais para se organizarem e propagarem discurso de ódio contra as mulheres, seguindo impunes, sem qualquer proibição ou regulamentação.

Além disso, a pseudofilosofia redpill pode ser considerada um dos problemas estruturantes do patriarcado no Brasil, somado a uma possível adolescência “incel”, reclusa e frustrada de muitos homens, impondo padrões de comportamento para as mulheres, estimulando a misoginia, a objetificação de mulheres e, ao disseminarem que os homens são vítimas de uma suposta dominação feminina e de que as feministas tramam uma tomada de poder, fazem um ataque direto ao feminismo.

Assim, o Movimento Redpill se apresenta com uma ideia “sofisticada” do que é ser um homem ou uma mulher de valor, ditando como uma mulher deve ser dentro e fora de uma relação amorosa. Casamento, ficadas, namoros, são umas das pautas mais frequentes dos homens redpills.

Thiago Schutz, mais conhecido como “Calvo do Campari”, um dos principais nomes no movimento, ficou famoso por suas falas misóginas. “A natureza da mulher é servir o homem”, disse durante o podcast “Fala Luiz”, disponível no Youtube. Em dezembro de 2025, o “influenciador” orgulhosamente autointitulado de redpill, foi preso em São Paulo por tentativa de estupro contra sua companheira. Em 2023, Thiago já havia sido denunciado por ameaçar duas mulheres.

FEMINISMO: O INIMIGO DECLARADO DOS REDPILLS

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Imagem: Rezendeluan/Sandor Bodogan/Getty Imagens

O feminismo é amplamente atacado pelos coachs redpills, que distorcem os princípios do movimento, sugerindo que mulheres feministas não são femininas e querem dominar os homens.

Uma das principais ideias de “acordar” para a realidade seria não ser “manipulado” por mulheres e não depender mais delas para serem escolhidos, e sim os homens fariam essa escolha amorosa baseado em uma série de exigências para mulheres, que muitas das vezes cedem para serem aceitas por homens que seguem essa lógica machista.

O sociólogo Emir Sader, em matéria publicada no site da Revista Xapuri, afirma:

A naturalização da violência contra as mulheres revela uma sociedade que ainda tolera o inaceitável e falha em garantir o direito básico à vida e à liberdade. É a maior monstruosidade que uma pessoa – não direi um ser humano – pode cometer e comete, em grande quantidade, como crimes cotidianos. Alegar que o casamento dá ao homem o direito de propriedade sobre o destino e a vida das mulheres é uma monstruosidade, que desemboca em grande quantidade de crimes diários, de assassinato das ex-mulheres. E, em muitos casos, o criminoso escapa sem sequer ter que pagar por seus crimes hediondos.

O Brasil historicamente registra altas taxas de violência contra mulheres, especialmente no contexto doméstico e familiar, com a maioria dos casos de feminicídio ocorrendo dentro de casa por parceiros ou ex-parceiros.

Os casos de feminicídio aumentaram drasticamente nos últimos quatro anos, especificamente em 2024 e 2025. Dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero do 1º semestre de 2025 registram 718 feminicídios em todo o país entre janeiro e junho – uma média de cerca de 4 mulheres mortas por dia por razões de gênero. Foram contabilizados 33.999 estupros contra mulheres no mesmo período, o que dá uma média de aproximadamente 187 casos por dia.

Dados preliminares, coletados pelo Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB), referentes ao período de janeiro a outubro de 2025, identificou 5.582 feminicídios consumados e tentados no país, resultando em uma taxa anualizada de 5,12 feminicídios por 100 mil mulheres. Além dos casos subnotificados que afetam as pesquisas, para a professora Silvana Mariano, coordenadora do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem), os dados alertam para a urgente necessidade de que o país adote medidas assertivas e eficazes para monitoramento e combate à violência contra mulheres.

A tendência de alta em tantos estados revela que o feminicídio continua sendo um problema estrutural no Brasil. A subnotificação nos dados oficiais reforça a importância de iniciativas independentes como o Monitor de Feminicídios no Brasil”, explica em nota à Universidade Estadual de Londrina.

MITOS E LENDAS O COMBATE AO FEMINICÍDIO E AO DISCURSO MISÓGINO CONTRA MULHERES

É importante ressaltar que, apesar de parecer que são apenas pseudoideias abstratas, o movimento redpill é extremamente perigoso e ganhou proporções alarmantes no Brasil, principalmente com o advento das redes sociais e a popularização de conteúdos conservadores, obtendo seu auge entre 2021 e 2025, período que também marca o alarmante aumento de feminicídios.

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) propôs não apenas a criminalização do movimento “redpill”, mas um projeto de lei que visa proibir a monetização e a publicidade de conteúdos misóginos e discriminatórios ligados a essa ideologia.

O que estamos enfrentando é uma engrenagem perversa que transforma o ódio em produto, o assédio em audiência e a violência contra mulheres em carreira digital. A liberdade de expressão não pode servir de escudo para um modelo de negócios que lucra com a desumanização das mulheres. Lucratividade não é um direito constitucional”, afirma a deputada.

A misoginia tem matado mulheres diariamente e, enquanto a maioria dos criminosos seguem impunes, o movimento movido pelo ódio e pela dominação contra mulheres vem aumentando e lucrando com isso.

LEVANTE DE MULHERES: TODAS E TODOS CONTRA O FEMINICÍDIO

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Fonte: NetLab/UFRJ.

Durante a mobilização contra o feminicídio, chamada “Levante de Mulheres”, ocorrida na Avenida Paulista, no dia 7 de dezembro, em São Paulo, as e os participantes levavam cartazes exigindo justiça e leis severas contra o feminicídio, além do combate ao discurso de ódio.

“Existe uma cultura de opressão às mulheres, uma cultura milenar. E tem muita mulher morrendo por causa disso, morrendo aos poucos com terrorismo psicológico, morrendo por falta de espaço na sociedade, dentro de casa, no trabalho. E a gente precisa muito falar disso”, afirmou a comerciante Lilian Lupino, 47 anos, à Agência Brasil. “Os homens se sentem protegidos por falta de leis severas de punição”, completou.

A escassez de leis mais severas que garantam a punibilidade de criminosos, a ampla disseminação de discursos de ódio nas redes sociais, a fragilidade do sistema judiciário para registro e qualificação das violências contra mulheres e a proteção eficaz das vítimas são os principais fatores que corroboram o aumento dos feminicídios.

Um sistema judiciário omisso abre espaço para que crimes hediondos e discursos de ódio continuem impunes na sociedade.

A gente percebe que é um machismo estrutural, e precisamos acabar com isso, temos que quebrar com o patriarcado. O ato foi uma chamada das mulheres, feita em menos de 10 dias, nacionalmente, em todos os estados. Estou aqui em São Paulo, mas teve ato em Pernambuco, na Bahia, em Minas, em vários estados”, destacou Maria das Graças Xavier, 58 anos, em nota à Agência Brasil, durante a manifestação.

Maria Letícia Marques MenezesMaria Letícia Marques – Redatora da Revista Xapuri.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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