japu

O NINHO DO JAPU “FURA-BANANA NO UMBIGO DO CÉU

O NINHO DO JAPU “FURA-BANANA NO UMBIGO DO CÉU

Menino, nem te conto! Não vou mentir. Nunca te vi mais gordo, mas já simpatizo contigo. Te conheci há duas semanas, quando li a dissertação de mestrado do Joaquim da Silva Lopes sobre ninhos de aves da Amazônia, defendida no Programa de Pós-Graduação em Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). 

Por José Bessa Freire

Lá me deslumbrei com a foto do teu ninho, uma obra prima digna de figurar na Bienal de Veneza. Foi amor e leitura à primeira vista, o que me fez entrevistar o novo mestre sobre as aves e seus ninhos.

Aliás, uma dessas aves é o João-de-barba-grisalha, que conheço desde 2007. 

Da família do João-de-barro, ele constrói seus ninhos com “erva-de-passarinho” e esconde a entrada com gravetos para impedir que as cobras devorem os ovos e seus filhotes. O acesso é por um túnel. A arquitetura sofisticada lembra uma fogueira de São-João. Muito bonito, mas aqui pra nós, sem a exuberância do teu ninho. 

Eu disse pra ele: – João, o Japu é um artista. Sabe o que ele me respondeu?

– Quem é o Japu? Quem é esse tal de Joaquim? Não os conheço.

O BIÓGRAFO DO JAPU

Dei detalhes:

– Rapaz, deixa de comer mosquito. Tu conheces sim. O nome Baniwa do Joaquim é Malimaaka. Ele é filho do seu Antônio, do clã Waliperedakenai, e da dona Inésia, do clã Hohodeeni, lá da aldeia Koitysiali Inomanaa, na foz do igarapé Mutum, hoje Comunidade Canadá, no rio Ayari, em São Gabriel da Cachoeira (AM). Começou a estudar aos 12 anos e aprendeu a falar a língua portuguesa aos 15 anos. Na década de 1990 cursou Licenciatura Indígena na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Agora é mestre em Biologia.

Foi aí que caiu a ficha. O Barba-Grisalha, alisando com o bico os fios do queixo, reconheceu:

– Ah, já sei quem é.  Por que você não revelou logo, de saída, o nome original que o pai lhe deu e que costuma ser rejeitado pelo Cartório?  Lembro muito bem do Malimaaka.

Eu costumava fazer voos rasantes sobre sua aldeia. Ele tem cinco irmãos e três irmãs. Era o melhor aluno da Escola Bilíngue Eeno Hiepole, que significa Umbigo do Céu. Antes a prefeitura havia dado o nome de Escola Tiradentes, mas trocou de nome por pressão dos Baniwa. Agora sei quem é o Joaquim. Mas, e o Japu? Quem é esse tal de Japu?

– Se eu disser o nome dele em língua Baniwa, você vai saber quem é. O Japu é o Towiri.

– Quem? O Towiri? Qual deles? Existem várias espécies dessa ave do gênero Psarocolius. Todos são meus amigos, incluindo o Fura-banana, de grande porte, três vezes maior do que eu. Ele tem cor preta, bico alaranjado, olhos azuis e cauda amarela. Gosta de se exibir para as fêmeas, cantando e dançando, se inclinando para a frente, num movimento gracioso. O som do seu canto parece o de um piano – disse o Barba-Grisalha, confirmando o que me disse o Joaquim na entrevista via zapp.

O Barba-Grisalha despediu-se, então, de mim e saiu voando para a sua morada mais ao norte. Posto que mais vale um pássaro na mão do que dois voando, fico contigo, amigo Japu, para te apresentar aqui o resumo da dissertação “Uso de rizomorfos em ninhos de aves da Amazônia e conhecimento Indígena do povo Baniwa na bacia do rio Ayaridefendida em 28 de fevereiro, na qual você é o personagem principal.

AS PENAS DO JAPU 

Te digo que o Joaquim, teu biógrafo, estabeleceu um diálogo intercultural entre o conhecimento Baniwa e o saber da academia. Com ajuda da Noemia e da Camila, suas orientadoras, buscou autores nacionais e estrangeiros que te estudaram. 

Passou um pente fino em publicações ligadas ao tema editadas em diferentes línguas, inclusive em Nheengatu e em diversos países: Argentina, Paraguai, Costa Rica, Colômbia, Venezuela, Malásia, Tailândia e na Europa, que indicam o uso de vegetais e de fungos na construção de ninhos.

Um desses autores, o zoólogo suíço Emílio Goeldi (1859-1917), que foi diretor do Museu Paraense, estudou as aves da Amazônia e anunciou para o mundo da ciência, em 1897, que o teu ninho, amigo Japu, era construído com uma substância peluda preta, muito parecida com as crinas de cavalo”, conhecida como cordão micelial e denominada pelos micólogos de rizomorfo, que é uma formação semelhante a uma raiz. Confere?

O outro é o botânico Jacques Huber (1867-1914), também suíço, que no Museu Paraense estudou as plantas da Amazônia e identificou, em 1902, um dos rizomorfos com o qual a família Japu fabrica o seu ninho – o rizomorfo de Marasmius – uma espécie de fungo marrom-avermelhado que produz pequenos cogumelos. Efetivamente, essas macroestruturas pretas ou marrom-escuras semelhantes a fios de cabelos são produzidas por alguns macrofungos.

Foi aí que o Joaquim Malimaaka e sua orientadora encontraram num pé de angelim no terreno do Museu da Amazônia (MUSA), em Manaus, um ninho cheio de rizomorfos. Observaram que havia uma interrelação entre aves e fungos, que revelava a interdependência das espécies. Ele decidiu procurar ninhos dos teus parentes em duas localidades de Manaus e em São Gabriel da Cachoeira.

O ESTRANHO NO NINHO 

Como é que ele fez seu trabalho de campo? O pesquisador acadêmico Joaquim da Silva Lopes vestiu-se com a pintura corporal do Baniwa Malimaaka, acostumado desde sua infância a observar o voo do Japu no entorno de sua aldeia. 

Ele já conhecia sua plumagem linda e chamativa, seus cantos maviosos e seus ninhos pendulares. Mas, em junho de 2024, acompanhado de seu pai, foi até o igarapé Miriti e lá os dois encontraram 19 ninhos caídos nas folhas de uma bacabeira de sete metros, ao lado de um ninho de vespas.

O danado do Joaquim Malimaaka voltou em janeiro de 2025 para uma segunda coleta e viu uma colônia nova de japuguaçu, no momento em que as fêmeas tricotavam com amor seus ninhos enormes em formato de bolso. 

Era um espetáculo belíssimo: a árvore altíssima estava toda ocupada por ninhos do japu e as bolsas longas de 1 metro de comprimento balançavam ao vento. Os filhotes só ali, na moleza, embalados como numa rede de dormir. Na tardinha, outro show: o bando, chefiado por um guia, voou para o seu dormitório. Diante daquilo, até o agnóstico mais empedernido se ajoelharia.

É uma pena – diz Malimaaka – que o desmatamento e as queimadas estraguem esse espetáculo. Observou na área urbana de Manaus material artificial usado nos ninhos como os fios de pipa. E sobre o tema, trocou ideias com colegas indígenas de mestrado: Yuri Kuikuro, Diogo Cinta Larga, Alírio Afaba, Alexandre Tyson.

O estudo do Joaquim conquistou pesquisadores indígenas e não indígenas que, em um puxirum científico, chegaram na espécie do rizomorpho. O DNA de um pedacinho foi examinado e descobriram que a espécie é Marasmius neocrisequi.

O BARULHO DA VIDA 

No trabalho de campo, seu Antônio, o pai de Joaquim Malimaaka, foi semeando pelo caminho narrativas, que caíram em terreno fértil e foram registradas no 1º capítulo da dissertação. Na cosmologia e na história oral do povo Baniwa, ele destacou a importância simbólica e espiritual do Japu, cuja origem está ligada às narrativas de transformação e à relação entre humanos, espíritos e natureza.

– As narrativas sobre a origem das aves são conhecidas de acordo com os clãs. Sou do clã Waliperedakenai (Constelação de Sete Estrelas) e sigo as histórias de acordo com minha linhagem ancestral. É possível que outros clãs Baniwa tenham versões diferentes – escreve Joaquim Malimaaka, para quem o japu é mensageiro e intermediário entre o mundo físico e o espiritual, além de fornecer penas amarelas para as cangataras (cocares) e outros adornos.

Ele explica que ninguém mata o japu, que não é comestível, além de ser muito respeitado pelos Baniwa. Suas penas são coletadas de forma natural, algumas vezes caídas do céu e das árvores, outras retiradas para uso ritual daquelas aves criadas em cativeiro. Isso é feito de forma cuidadosa, amorosa, por meio de técnicas que não machucam o japu domesticado. 

Nos rituais de benzimento, o espírito de aves de bom comportamento é invocado para abençoar crianças em sua passagem para a maturidade. O benzedor transmite às crianças valores como independência e capacidade de produzir seus próprios bens, preparando-as para se tornarem futuras lideranças. Esse ritual serve para afastar pensamentos egoístas, promovendo exemplos de autossuficiência e colaboraçãoconclui Joaquim.

Com essa pesquisa, Joaquim Malimaaka obteve o diploma de mestre. Mas todo mundo ganhou com esse momento histórico, no qual indígenas se tornam agentes sociais que refletem, questionam e produzem conhecimentos”, como sinaliza Ana Carla Bruno, antropóloga do INPA, instituição cujo diretor, o ecólogo Henrique Pereira, reconhece a importância da aproximação da academia ocidental com as ciências indígenas amazônicas e a relevância da política de inclusão e de diversidade social”.

Consciente de que o formato dos editais ao mestrado dificultava o ingresso de indígenas, Noemia Kazue Ishikawa, então coordenadora do PPG-Eco, propôs a substituição da prova de língua inglesa para a de língua portuguesa, que é a segunda língua para muitos indígenas: Joaquim, o primeiro a defender sua dissertação, “trouxe uma imensurável bagagem de conhecimentos biológicos e ecológicos de sua vivência cotidiana – disse Noemia.

Trouxe também poesia. Noemia poetizou em parceria com seu orientando sobre a vida na floresta tecida pelo japu, que ocupa lugar especial na narrativa oral Baniwa. O agora merecidamente mestre em Biologia sabe que o Japu é o Japu de tantas histórias e de tantas penas bonitas. Por isso, registrou o lugar dessa ave nas tradições do seu povo, consciente de que “a oralidade é o barulho da vida que temos dentro de nós”, como nos ensina o pajé guarani Wherá Tupã.

P.S. Na quinta-feira, 13 de março, foi inaugurada no Campus do INPA a Sala de Intercâmbio Científico e Cultural Indígena, espaço dedicado à promoção da troca de conhecimentos e experiências entre diferentes culturas e áreas do saber científico. Esperamos que a vida faça muito barulho lá dentro.

Joaquim da Silva Lopes: Uso de rizomorfos em ninhos de aves da Amazônia e conhecimento Indígena do povo Baniwa na bacia do rio Ayari. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Ecologia. Manaus. INPA. 2025. Banca: Noemia Kazue Ishikawa. (orientadora), Camila Cherem Ribas (coorientadora), Henrique Pereira dos Santos (ecólogo), Mario Cohn-Haft (Ornitólogo) e Rogério Hanada (Micólogo).

José R. Bessa Freire. Resiste, João. Carta ao João-de-Barba-Grisalha. Taquiprati. 04 de novembro de 2007. Manaus. Diário do Amazonas.  

 

<

p style=”text-align: justify;”>José Bessa Freire Indigenista. Professor Universitário. Cronista e Escritor. Conselheiro da Revista Xapuri, em https://taquiprati.com.br/cronica/1765–o-ninho-do-japu-%E2%80%9Cfurabanana%E2%80%9D-no-umbigo-do-ceu-.

GOSTOU DESTA MATÉRIA? ENTÃO, POR FAVOR, PASSA PRA FRENTE. COMPARTILHE EM TODAS AS SUAS REDES. NÃO CUSTA NADA, É SÓ CLICAR!

Deixe seu comentário

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

© 2025 Revista Xapuri — Jornalismo Independente, Popular e de Resistência.