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O Príncipe Africano Que Abdicou Do Trono Para Se Casar Com Uma Britânica

O Príncipe Africano Que Abdicou Do Trono Para Se Casar Com Uma Britânica

RACISMO NA CORTE E PROTESTOS: O PRÍNCIPE AFRICANO QUE ABDICOU DO TRONO PARA SE CASAR COM BRITÂNICA

A história de amor entre Seretse Khama, futuro rei da tribo Bamangwato, e Ruth Williams enfrentou obstáculos

VANESSA CENTAMORI 

Em junho de 1947, a britânica Ruth Williams acompanhava sua irmã mais nova, Muriel, em uma noite de celebrações missionárias, na Nutford House, da Universidade de Londres. Lá foi apresentada a um rapaz, estudante de direito em Oxford. O universitário logo chamou a atenção da garota.

“Vi um africano alto, bem construído e sorridente, com dentes maravilhosos, ombros largos e maneiras perfeitas”, relatou Williams, mais tarde, segundo o The Telegraph. A britânica rapidamente percebeu que compartilhava com o belo moço um interesse comum no jazz. Foi amor à primeira vista.

Mas mal ela sabia que aquele era Seretse Khama, o futuro rei da tribo Bamangwato, do  protetorado britânico de Bechuanalândia, no sul da África. O príncipe estava predestinado a um futuro grandioso como rei.

Depois de completar o curso de direito, ele deveria voltar para o reino africano e casar-se com alguém da sua etnia para ser coroado líder. Ficou claro a partir daí que tratava-se de uma paixão quase impossível.

Mas Seretse não deixou de se animar e correspondeu aos sentimentos da moça branca. “Eu conheci uma garota e acho que você deveria conhecê-la! Alguém que eu gostaria para ser minha esposa”, afirmou o príncipe, para seu amigo Charles Njonjo, logo após conhecer a britânica.

Racismo 

Três meses após a reunião missionária em Londres, Seretse resolveu tomar coragem e convidou Ruth para sair. Ligou para ela, que aceitou prontamente o convite. Eles saíram juntos então diversas vezes.

Porém, o namoro inter-racial, em plena década de 1940, enfrentou alguns obstáculos. Ruth passou a ser chamada de “azeda” por ser branca e estar saindo com um homem negro. Os amigos dos pais dela até atravessavam a rua para evitar conhecê-la.

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Casal é representado no filme Um Reino Unido (2016), da diretora Amma Asante

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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