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Os meninos que ninguém vê

Os meninos que ninguém vê  (Só o lampião)
 
Por Marcelo Abreu
 
Eles moram nas redondezas do Centro Histórico, ali nos muitos cortiços. Brincam de se jogar na maré, quando ela explode nos paredões, espirrando sal para salgar a vida.
 
Os pequenos que ninguém vê pescam com anzóis artesanais, feitos em casa.
Tudo que conseguem pescar levam para casa. Será o jantar da noite.
 
São as únicas diversões a que têm direito. Até ir às praias, atravessar a ponte é muito difícil pra eles. A praia do outro lado, a mais próxima, a da Ponta d’Areia, virou elitista demais. Há uma área onde sequer lhes é permitido sentar ou passear. Serão vistos com desconfiança.
 
Algum segurança, da mesma cor deles, às vezes da mesma área, lhes mandará sair. Vazar.
 
Os pequenos que ninguém vê entenderam tudo. E ja nem passam por esse território das falsas e retocadas vidas da ilha de Caras.
 
Minha Mamadi mora nessa praia. Esse lugar muito sofisticado, que surgiu exatamente agora na pandemia, com bares, restaurantes e café com a cara pro mar, tempo em que não vou à ilha, nunca me verá.
 
Já disse isso aos meus amigos. Vamos marcar do outro lado da Ponte. É que estão os “meus” lampiões e as histórias que gosto de ouvir.
 
Desse lugar, só o Espigão e o mar, com os pés encharcados de sal, me importam.
 
Eu prefiro a vida real dos pequenos que ninguém vê.
 
*** Foto de um cara chamado Alan Rodrigues, que assina no Instagram como caosinfinito.
Valeu, André. Esse moço tem sensibilidade muito aguçada.
 
Pode ser uma imagem de 4 pessoas, criança, pessoas pescando, pessoas em pé e corpo d'água
 
Marcelo Abreu – Jornalista. Escreve sobre as lindezas da vida humana.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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