QUANDO O CÉU PESA SOBRE A FLORESTA: OS NAWA E A CRISE CLIMÁTICA NO EXTREMO DO ACRE

OS NAWA E A CRISE CLIMÁTICA NO EXTREMO DO ACRE

QUANDO O CÉU PESA SOBRE A FLORESTA: OS NAWA E A CRISE CLIMÁTICA NO EXTREMO DO ACRE

Documentário encerra a trilogia “Guardiões sob Ameaças” e revela como a crise climática transforma o território, o cotidiano e o horizonte de futuro dos Nawa, um povo que, até o começo dos anos 2000, era tido como extinto

Por Jornal Varadouro

Foto: Sérgio Vale/Secom-AC

No extremo oeste do Brasil, no município de Mâncio Lima (AC), a 670 quilômetros de Rio Branco, o povo Nawa enfrenta as consequências de um pacto milenar rompido pelo desequilíbrio do planeta. 

A água dos igarapés, antes fonte de vida e abundância, tornou-se tão quente que, segundo os moradores, “parece que passou por fogo”, provocando a mortandade em massa de peixes. E o fogo, a cada período de seca, destrói a tentativa de recomeço da vida.

Estes são apenas alguns dos cenários narrados no terceiro documentário da trilogia “Guardiões sob ameaças”, iniciativa do jornal Varadouro em parceria com o Coletivo Tetepawa, formado por mais de 20 jovens de 13 povos diferentes. 

Intitulado “Os Nawa e o Desequilíbrio da Terra”, o filme expõe uma realidade dura: as mudanças climáticas aparecem no relato das lideranças como um “inimigo transparente”, invisível e constante, que redesenha a vida na floresta.

O ciclo de extremos coloca, de um lado, incêndios florestais, que destroem roçados de macaxeira e plantas medicinais; de outro, cheias repentinas arrastam casas e plantações. 

A situação dos Nawa é agravada pela insegurança jurídica: seu território se sobrepõe ao Parque Nacional (Parna) da Serra do Divisor e não possui demarcação integral, o que impõe regras rígidas de preservação e dificulta a gestão autônoma dos recursos naturais.

“A gente vê a floresta sofrendo, os rios e igarapés mudando, a roça diferente e isso dói porque faz parte da nossa vida e da nossa cultura. 

Ao mesmo tempo, foi importante poder falar da nossa vivência, mostrar nossa voz e nosso conhecimento. Não é só um estudo, é a nossa vida”, afirma a jovem Niara Nukini, uma das bolsistas responsáveis pelo documentário.

Vizinhos, Nawa e Nukini têm suas terras e aldeias separadas apenas pelo rio Moa, mas compartilham dos mesmos impactos ocasionados pela crise do clima.

À diferença dos Nawa, os Nukini já estão com o território demarcado, enquanto os Nawa estão há quase trinta anos à espera da conclusão do processo de demarcação. Em 2021, cansados de esperar pelo governo, eles fizeram a autodemarcação Nawa.

Até o início dos anos 2000, o povo Nawa era tido como extinto. Acreditava-se que todos eles tinham sido extintos por conta dos impactos ocasionados pela exploração da atividade seringueiras na primeira metade do século passado. 

Porém, muitos de seus descendentes ocupavam a margem direita do Moa, além do igarapé Novo Recreio.

Quando da criação do Parna da Serra do Divisor, eles se viram no risco de perder suas terras. A partir de então, passaram a não somente se identificar como os Nawa, mas também a exigir o direito de permanecer no território ocupado pelos antepassados.

No início de seu terceiro mandato, em abril de 2023, o presidente Lula sinalizou para avançar a terra do povo Nawa, com a criação de um Grupo de Trabalho (GT) pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) – o processo ainda se arrasta.

O DIREITO DE CONTINUAR SONHANDO

O impacto não se limita às perdas materiais. Ele atinge a dimensão espiritual e o horizonte das novas gerações. “O desequilíbrio do planeta coloca a gente numa situação em que deixa de sonhar”, diz Tarissom Nawa, uma das vozes do documentário, ao falar da incerteza sobre a garantia de direitos e a continuidade da cultura de seu povo.

Ao citar o líder Yanomami Davi Kopenawa, a obra reafirma o papel central dos povos indígenas na tarefa de “sustentar o céu”, para que a vida siga existindo — para indígenas e não indígenas. Nesse contexto, a comunicação surge como ferramenta essencial para que essas histórias atravessem fronteiras, alcancem o mundo urbano e tensionem o olhar do chamado “mundo ocidental”.

FORTALECIMENTO INSTITUCIONAL E VOZ PRÓPRIA

Executado com recursos do Fundo Casa Socioambiental, a iniciativa utilizou a comunicação comunitária como ferramenta estratégica para denunciar como eventos climáticos extremos e projetos de infraestrutura ameaçam a soberania alimentar e a ancestralidade dos povos originários na Amazônia.

“Participar do projeto foi uma experiência muito importante pra mim e também um grande aprendizado. Poder estar ali ouvindo os parentes falando como a mudança climática afeta nossos territórios é muito triste porque é a nossa realidade que está mudando”, afirma Niara Nukini. “Foi um momento de troca, de resistência e de fortalecer ainda mais o compromisso de cuidar do nosso território e continuar lutando”, completa.

Responsável pela produção final, a jornalista Steffanie Schmidt, do Varadouro, destaca que o projeto representou também uma oportunidade de fortalecer a comunicação nos territórios e aprofundar vínculos com as comunidades: “Entendemos que fortalecer a comunicação nos territórios significa garantir que as próprias comunidades tenham meios para narrar suas histórias, denunciar violações e afirmar seus modos de existir a partir de seus próprios saberes.”

Além da produção da trilogia, o projeto promoveu oficinas de capacitação em redes sociais, fotografia e vídeo, realizadas em Cruzeiro do Sul, preparando jovens comunicadores indígenas para se tornarem porta-vozes de suas próprias lutas e histórias.

Uma das idealizadoras do projeto, Veriana Ribeiro, que integrou a equipe do Varadouro até 2024, lembrou dos desafios para a execução das oficinas, prevendo o transporte e alimentação para os cerca de 20 participantes, vindos de várias comunidades e municípios diferentes. A escolha de Cruzeiro do Sul ocorreu para facilitar a convergência de vários territórios.

“Participar deste projeto, junto com o Coletivo Tetepawa, foi um momento de aprendizado e troca junto aos jovens comunicadores indígenas. 

Para nós, o Varadouro não é um espaço que dá voz para os povos da floresta, porque eles já possuem voz e agência própria, o importante sempre foi comunicar junto com os povos da floresta, em parceria, e acredito que conseguimos fazer esse trabalho durante este projeto”, afirma.

Ficha Técnica: Os Nawa e o desequilíbrio da Terra

Filmagem e Direção: Niara Nukini

Filmagem: Kegila Costa Nawa

Produção Executiva: Veriana Ribeiro

Montagem, Trilha, Edição de Vídeo e Finalização: Régis Fonseca

Pós-produção, Checagem e Edição Executiva: Steffanie Schmidt

Editor Executivo (Varadouro): Fábio Pontes

NOTA DA REDAÇÃO XAPURI: O documentário “Os Nawa e o desequilíbrio da Terra” encontra-se disponível em https://ovaradouro.com.br/terra-em-desequilibrio/, como parte do conteúdo original desta matéria.  

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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