OS SETES DE SETEMBRO DO VELHO MACHADO
Não restam dúvidas de que Machado de Assis é o principal nome do cenário literário brasileiro. Sua trajetória ao longo da consolidação de nossa literatura fornece as engrenagens de um país que se inventava aos trancos. Poucos deixaram, como ele, uma obra que continua a exigir do leitor, e sobretudo da crítica, o gesto de voltar, reler, desconfiar e produzir análises inéditas.
Por Arthur Wentz e Silva
O Bruxo do Cosme Velho nunca foi de fugir de debates, nem mesmo dos temas mais espinhosos e das contradições mais obscuras de nossa formação histórica. É talvez aqui que reside uma das fontes inesgotáveis de seu talento temático.
Um desses temas ainda é (curiosamente, ou não) o olhar sobre os mitos fundacionais da Pátria: o fatídico grito do Ipiranga. Com sua perspicácia crítica sobre a identidade nacional, ele deu regência e tensão para as contradições que revestem a nossa data-emblema.
A primeira aparição temática ocorre ainda nos escritos do jovem fluminense, no auge de seus 17 anos. Os versos de predominância em decassílabos brancos de O grito do Ipiranga (1856) parecem apresentar, em primeira análise, um movimento romântico e ufanista da cena da independência. Nele, Machado exalta D. Pedro I de forma hiperbólica, associando-o a Napoleão Bonaparte (“o César de Marengo”) e descrevendo sua voz como a “lava do Vesúvio”, ao mesmo tempo em que recorre a aspectos da natureza tropical e à cor local como símbolos de afirmação nacionalista.
Já a segunda aparição parece estar no compasso machadiano que conhecemos com precisão: o tempo da ironia e da sátira. Na crônica de 1876 (publicada na revista Ilustração Brasileira, por meio da coluna História de Quinze Dias), ressurge esse tipo de construção estética sob o pseudônimo de Manassés. Isto é, distanciando-se do lirismo juvenil, Machado passa a explorar de forma cirúrgica as ambiguidades e os excessos retóricos do discurso nacionalista do século XIX.
No espaço da crônica, gênero propício para a elocução dos pensamentos imediatos e para a observação das miudezas cotidianas, o autor intervém com sátira em uma polêmica acalorada que ocupava a imprensa da época sobre a exatidão geográfica da Proclamação da Independência.
Diante da tese de que o brado ocorreu longe das margens do rio, o cronista escolhe o lado da intervenção poética sobre o fato real: ele defende que a lenda é preferível à história autêntica, pois, se os livros podem ser corrigidos em edições futuras, os versos dos poetas não se emendam com a mesma facilidade. Não significa que ele negue o fato histórico, mas que reivindica, com todas as letras, a superioridade estética e afetiva da lenda sobre ele.
Percebe algo? Não seria mesmo o nosso destino, desde os confins do romantismo, inventar um Brasil possível que tolere a aspereza de nossos caminhos formativos contraditórios? Há um vernáculo machadiano potente em toda essa construção estética que desnuda uma relação ambígua entre o brasileiro do século XIX e sua própria história forjada. Os dois setes de setembro de Machado, com vinte anos de diferença, propõem este diálogo implacável: complementam-se e tensionam-se na própria constituição dos nossos referenciais nacionais.
Arthur Wentz e Silva – Estudante de Letras: Língua Portuguesa e Respectiva Literatura na Universidade de Brasília (UnB) e revisor da Revista Xapuri. Este texto se apoia na crítica de Wilton José Marques, “O Grito do Ipiranga” e a persistência do tópos histórico (um poema inédito de Machado de Assis), publicada na Machado de Assis em Linha (v. 14, 2021).










