Os variados fenótipos

Os variados fenótipos e a negação de nossa ancestralidade

Os variados fenótipos e a negação de nossa ancestralidade

SOU NEGRA, SIM SENHOR!

Marcia Elizabeth Bortone reacende a questão de nossa herança genética e do colorismo.  O ‘lado escuro do ser’, negro de alma branca’, e por aí vai. Quem é o povo preto do Brasil?

Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo.
Um povo mestiço na carne e no espírito,
já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado.
Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo.
Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si…
Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional,
a de brasileiros…
Darcy Ribeiro, em O Povo Brasileiro

O Brasil é um país que, entre tantos contrastes, possui negro que se diz moreno, branco com uma forte herança negra, mas cuja pele clara não deixa dúvidas de sua raça ariana.

Assim sou eu. Branca de cabelos muito crespos, trago, escondido a sete chaves -por minha família paterna- uma herança negra.

Quando, menina, perguntava a meus pais porque eu tinha cabelo tão crespo, fazia-se um silêncio sepulcral, um silêncio do preconceito que abafava as vozes da verdade em favor de
uma superioridade ariana.

Um dia, em tom confessional, mamãe me explicou:

– A avó de sua avó paterna era negra (filha de escravos libertos) e se casou com um francês, loiro de olhos azuis.
Entendi, então, porque eu e minhas irmãs somos tão clarinhas e de cabelo crespo!

Ter descendência negra era e, talvez ainda seja, um estigma muito profundo na superioridade dos “brancos” brasileiros. Tão brancos, de cabelo crespo, pele morena, narizes grossos, mas sempre escondendo essa herança “maldita”.

CONTINUA DEPOIS DO ANÚNCIO

O histórico de preconceito contra os negros é grande ainda hoje no Brasil e decorre principalmente de sua condição de escravos , o que moldou nossa construção cultural. O negro sempre esteve ligado a um papel inferior na escala social, tanto que quando ascende socialmente, fica “um pouco mais branco”.

Por mais que sejamos um país de mestiços, negamos nossa ancestralidade africana porque ainda há muito preconceito ligado ao status da pessoa na sociedade.

A avó de minha avó paterna era negra e isso é um incômodo segredo de família guardado e talvez intencionalmente esquecido.

Mesmo as pessoas mestiças na cor, como mulatos, pardos e cafuzos, muitos se autodeclaram morenos e muitas vezes quando se pergunta sobre as características de uma pessoa, recebe-se a seguinte caracterização: é um rapaz moreno, quando, na realidade, é um rapaz negro. Dizer negro (ou preto) ainda é ofensivo em nossa cultura, diz-se, então, moreno.

O discurso do eufemismo revela o preconceito. Dessa forma, preciso discordar de Darcy Ribeiro quando diz no excerto acima, “já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado” É pecado sim, e precisa ser escondido, negado e, sempre que possível, varrido para debaixo do tapete.

O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, resultado de muitas lutas. É ingênuo pensar que a escravidão foi abolida pela bondade da princesa Isabel, mas, ao contrário, já era um imperativo social, embora houvesse a resistência dos grandes proprietários escravocratas, o que fez com que o nosso processo de abolição demorasse tanto a acontecer.

Os senhores de engenhos assassinaram milhões de africanos e usaram desavergonhadamente o trabalho escravo para se manterem economicamente.

Assim, se construiu a história de nosso Brasil, pois, mesmo depois de abolida “A Casa Grande e a Senzala”, a elite brasileira manteve inabaláveis seus conceitos de raça superior e inferior, o que permitiu que a estrutura social no Brasil permanecesse praticamente intacta.

A elite continuou a maltratar e humilhar uma raça que tanto nos ofertou, como as amas de leite, que amamentavam e embalavam com amor os filhos do sinhô e da sinhá, cantando tristes lamentos. Essa é a nossa dolorosa herança e as metáforas revelam, ainda, esse discurso do preconceito: ‘o lado escuro do ser’, ‘negro de alma branca’, e por aí vai.

Dentre as inúmeras mudanças que farão do homem um ser humano melhor, com certeza está a aceitação, o respeito e convivência pacífica e harmoniosa de todas as raças. No caso brasileiro, sem dúvida, a aceitação de nossa negritude.

Marcia Elizabeth Bortone – Professora aposentada da UnB – Departamento Letras. Trabalha com a linha da Sociolinguística e é Membro Efetivo da Alaneg/RIDE – Academia de Letras e Artes do Nordeste Goiano. Reside atualmente em São Lourenço – MG

http://xapuri.info/quando-era-pequena-minha-mae-me-contava-historias/

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora