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Ouça o álbum póstumo de Elza Soares lançado no aniversário de 93 anos da cantora

Ouça o álbum póstumo de Elza Soares lançado no aniversário de 93 anos da cantora

‘No Tempo da Intolerância' foi finalizado cinco dias antes de sua morte e chega com um toque a mais de emoção, sem ver o sair das garras de Bolsonaro

Por Cezar Xavier/Portal Vermelho

Ontem, sexta-feira (23), foi dia de celebrar Elza Soares em grande estilo. Seu novo álbum “No Tempo da Intolerância” foi lançado na data em que se comemorava seu aniversário. Para ouvir, basta entrar nos aplicativos de áudio.

Poucos estavam preparados para um disco inédito desta que foi eleita melhor intérprete pelo Prêmio da Música Brasileira no mesmo ano em que celebrou-se seus 70 anos de carreira. Com 91 anos, Elza ainda gravava mais uma obra urgente, até pouco antes de sua partida, em janeiro de 2022. Retrata o legado sombrio do bolsonarismo no poder.

“Quero dar voz às mulheres,” esse foi o pedido que Elza Soares fez ao iniciar a produção do álbum só com canções compostas por mulheres. Elza Soares interpretou 10 músicas inéditas, todas escolhidas por ela. Além dela, o disco traz co-autoras de renome em suas canções. São elas: Rita Lee (Rainha Africana), Pitty (Feminelza), Dona Ivone Lara (No compasso da vida), Josyara (Mulher para Mulher) e Isabela Moraes (Quem disse?).

A contundência das letras diretas e sem sutilezas poéticas são embaladas por ritmos dançantes e festivos, para além do lirismo e dramaticidade da voz opulenta. Samba, bolero, funk e soul, afrobeat, latinidade e r&b, rock e pop preenchem o conjunto e tornam obrigatório passam uns meses ouvindo (e dançando) sem parar.

Elza é daquelas que farão muita falta pela capacidade que tinha de falar de seu país com urgência e contemporaneidade. Sempre atual e ousada, transitava por todos os estilos, sem medo de falar das feridas mais dolorosas do seu país desigual, da negritude e das mulheres. Elza não foge à luta, mesmo depois de partir, após quase um século de vida.

Ouça o álbum completo

Fonte: Portal Vermelho Capa: Reprodução


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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