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Para Não Se Esquecer, Para Nunca Mais Se Repetir

Para Não Se Esquecer, Para Nunca Mais Se Repetir

Em 18 de março de 1976, durante a madrugada, em Buenos Aires, Argentina, o pianista brasileiro Tenório Júnior saiu do hotel onde estava hospedado para ir a uma farmácia e desapareceu. Essa situação desesperadora foi vivida intensamente pelos seus parceiros de turnê, Toquinho e Vinícius de Moraes, que nada puderam fazer e foram orientados a não continuarem buscando informações se não quisessem ter o mesmo destino.

Francisco Tenório Cerqueira Júnior nasceu em 4 de julho de 1940, no Rio de Janeiro/Rj, e iniciou sua carreira artística aos 15 anos, com acordeão e violão. Posteriormente, passou a se dedicar ao piano, instrumento com o qual fez fama. Compôs músicas, lançou discos, participou de vários festivais e realizou turnês no Brasil e no exterior, ao lado de nomes consagrados da música brasileira. Na década de 1970, era um dos mais requisitados artistas no Brasil. Tenório não exercia nenhuma atividade de militância política.

Soube-se depois que, naquela madrugada, ele foi detido em uma blitz na Avenida Corrientes, a uma quadra do seu hotel, e levado inicialmente para a delegacia da Polícia Federal Argentina, na rua Lavalle, centro da capital argentina, e em seguida para a Escuela de Mecanica de la Armada (ESMA), hoje transformada em museu e onde foram exterminadas mais de quatro mil pessoas.

Em 1986, um dos agentes da repressão argentina, Claudio Vallejos, admitiu à Revista Senhor (n. 270) que entre as dezenas de pessoas que matou pessoalmente estava Tenório Júnior.

Leia também:  Relembrando o 14 de março – Marielle, presente! Marighela, presente!

Tenório provavelmente foi colhido pela blitz argentina porque deve ter parecido suspeito aos olhos dos agentes: um homem relativamente jovem, barbudo, andando sozinho na madrugada em Buenos Aires, alegando ser músico e brasileiro. Um perfil como esse, na época, ou o contrário, um argentino nessas condições no Brasil, era tido como altamente suspeito e os agentes não pestanejavam em sequestrar, torturar e exterminar alguém assim.

É que no início de 1976, a famigerada Operação Condor estava em seu auge. Era uma espécie de “cooperação internacional” celebrada entre Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai pela qual esses países compartilhavam dados de inteligência e realizavam diretamente operações extraterritoriais de sequestro, tortura, execução e desaparecimento forçado de opositores políticos em seus países porventura escondidos em outro.

As graves violações de direitos humanos cometidas na Operação Condor foram objeto de condenações da Corte Interamericana de Direitos Humanos em sentenças de mérito em dois casos: Goiburú y otros vs. Paraguay, de 2006, e Gelman vs. Uruguay, de 2011. Nas duas ocasiões, a Corte Interamericana estabeleceu que os serviços de informações desses países do Cone Sul no continente americano formaram, durante a década de 1970, uma organização interestatal articulada com finalidades criminosas, cujo conteúdo continua sendo revelado ainda nos dias atuais. Essas decisões estabelecem paradigmas do Direito Internacional dos Direitos Humanos, mas seu cumprimento, no Brasil, ainda está distante.

Tenório Júnior completaria 80 anos este ano e ainda é reconhecido como um dos maiores pianistas brasileiros. Seu nome está inscrito no monumento do Parque da Memória, em Buenos Aires.

Leia também:  No dia de hoje, 12 de março – Povos Waimiri e Atroari, presentes! 

– Francisco Tenório Cerqueira Júnior, presente!

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Este texto faz parte da campanha de divulgação da II Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado e pela Democracia que foi suspensa e será substituída por atos realizados em meio virtual nos dias 31 e 1º de abril de 2020.

Responsável: Eugênia Augusta Gonzaga, procuradora regional da República, mestre em Direito Constitucional e coautora das primeiras ações judiciais contra agentes da ditadura.

Fonte: Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade, Volume III, páginas 1.822 a 1826

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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