PATRIMÔNIO CIENTÍFICO ESCONDIDO NO OESTE DA BAHIA 

PATRIMÔNIO CIENTÍFICO ESCONDIDO NO OESTE DA BAHIA 

FABULOSO PATRIMÔNIO CIENTÍFICO ESCONDIDO NO OESTE DA BAHIA 

O grande oeste da Bahia, apesar de muito modificado, ainda guarda nas suas entranhas verdadeiras pérolas para o conhecimento de diversos campos científicos, desde os complexos processos da geologia, climatologia, geomorfologia, hidrografia, paleontologia, arqueologia, história, geografia e diversos modelos econômicos, modelos familiares, até modelos mais agressivos

Por Altair Sales Barbosa 

ASPECTOS GEOLÓGICOS 

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No que se refere à geologia, a porção ocidental do estado da Bahia é uma região cujo conhecimento geológico ainda se encontra em nível de reconhecimento regional, apesar da vasta bibliografia hoje disponível. Isso se constata porque os estudos realizados na região são em grande parte regionais ou restritos a determinadas unidades geológicas, além de vários outros referentes à geologia econômica.

A área está inserida no segmento ocidental do Cráton do São Francisco, cuja porção mais a Oeste acha-se recoberta por sedimentos mesozoicos. Na parte Norte, encontra-se uma zona pericratônica que faz limite com o sistema de dobramentos Rio Preto, enquanto a parte leste é limitada pelo sistema de dobramentos Espinhaço.

Os complexos Caraíba-Paramirim, Santa Isabel, Guanambi e Riacho de Santana representam as unidades arqueanas, sendo que este último possui características dos terrenos de baixo grau de metamorfismo, tipo greenstone belts.

Sobre esse embasamento Arqueano estável encontram-se as unidades proterozoicas e paleozoicas, cujos processos de sedimentação e vulcanismo tiveram início no Proterozoico Inferior. Essa fase é representada pelo Grupo Salgueiro-Cachoeirinha e pelo magmatismo do Complexo Angico dos Dias.

No Proterozoico Médio deu-se a sedimentação e o metamorfismo do Supergrupo Espinhaço, o vulcanismo básico intrusivo e o magmatismo granítico da suíte intrusiva Serra da Aldeia.

O Proterozoico Superior é retratado pelo Supergrupo São Francisco, tendo seu início na sedimentação dos grupos Rio Preto e Macaúbas. Após a deposição do pacote de conglomerados, atribuída a uma possível glaciação em escala continental, foi sedimentado, em ambiente marinho epicontinental, o Grupo Bambuí. No final dessa Era, implantou-se o sistema de dobramentos Rio Preto.

O Paleozoico é registrado pela sedimentação continental/marinha da bacia do Parnaíba, enquanto o Mesozoico se faz presente através da cobertura tabular da Formação Urucuia.

Essa bacia Mesozoica, também conhecida por alguns geólogos como bacia Sanfranciscana, é resultado da tectônica com ação intrusiva na fase crítica de formação do continente Gondwana; ação vulcânica nesse ambiente é notada no estado de Minas Gerais, formação Capacete. Porém, é possível que ocorram intertraps vulcânicos ao longo de todo o Graben “Urucuia”.

Durante o Cenozoico, atuaram ciclos erosivos que deram origem às unidades tercio-quaternárias, representadas pelas coberturas detrito-lateríticas, dunas e aluviões.

A metalogenia nessa área também é pouco conhecida, principalmente na sua porção setentrional. As principais mineralizações conhecidas referem-se a ferro, titânio, vanádio, fósforo, fluorita e manganês, além das sequências de calcários calcíticos e dolomíticos.

As unidades arqueanas estão relacionadas às mineralizações de ferro, titânio, vanádio, cobre, chumbo, bário e ouro. O fosfato representa o principal bem mineral do Proterozoico Inferior. 

Ao Proterozoico Médio são atribuídas ocorrências de níquel, amianto, manganês e cristal de rocha, enquanto as coberturas no sistema de plataformas e o sistema de dobramento Rio Preto são portadores de mineralizações de fluorita, chumbo, zinco, manganês, grafita e ouro, além das sequências carbonáticas.

Através do enriquecimento supérgeno formaram-se na área depósitos manganíferos, associados à cobertura Cretácea.

DESCRIÇÃO DAS UNIDADES COMPLEXO RIACHO DE SANTANA

O complexo Riacho de Santana está representado cartograficamente por uma faixa alongada N-S, a noroeste da cidade de Riacho de Santana na região denominada Chapada Grande, município de Bom Jesus da Lapa.

FORMAÇÃO URUCUIA 

Figura 6 Mapa de delimitacao espacial preliminar dos subtipos de aqueiferos do Sistema
Mapa: Sistema Aquífero Urucuia /Divulgação. Fonte : https://www.researchgate.net/

A Formação Urucuia é a unidade de maior representação cartográfica dentro dos limites da região abrangida, no oeste da Bahia. Seus sedimentos expõem-se numa larga faixa, cobrindo todo o extremo oeste da área em questão e constituindo os denominados “Chapadões dos Gerais”.

Essa representação estende-se na parte central da área, em direção Leste, se acunhando nos limites de Santa Maria da Vitória, Brejolândia, Vanderlei, Barreiras.

Por toda a sua extensão, a Formação Urucuia encontra-se recobrindo rochas pré-cambrianas, estando capeada por sedimentos quaternários ao longo das drenagens.

Nos moldes da parte Norte, ressaltam-se vastos Chapadões com escarpas abruptas, o que permite a configuração de dois patamares perfeitamente distintos e bem ressaltados nas imagens de radar e satélite. 

O primeiro patamar, resultado de ininterrupta erosão regressiva nos sedimentos que compõem as partes mais basais da Formação Urucuia, exibe uma superfície destituída de ressaltos topográficos e uma cobertura composta de sedimentos eluvionares arenosos, remobilizados localmente. 

Essa cobertura tem espessuras que se adelgaçam gradativamente para Leste, permitindo, assim, o afloramento de unidades como os grupos Rio Preto e Bambuí. 

Para o topo da escarpa, no segundo patamar, preservam-se os mais representativos pacotes dos sedimentos desta unidade, constituindo os Chapadões propriamente ditos.

As maiores espessuras da Formação Urucuia, aludidas na literatura geológica, são registradas desde o norte de São Desidério até Riachão das Neves. 

A diminuição de espessura dos sedimentos para Leste é fato constatado em toda a sua extensão, sendo comum o registro de áreas onde se observam apenas blocos rolados, geralmente silicificados, associados a solos arenosos.

Em termos litológicos, essa unidade é caracterizada por constituir-se invariavelmente de arenitos finos a médios, róseos, com níveis de conglomerados. A tendência desses sedimentos se tornarem mais argilosos em direção à base é fato notório.

A Formação Urucuia é constituída basicamente por sedimentos continentais, de origens fluviais e eólicas. A cor primária vermelha nos sedimentos diagnostica condições ambientais tipicamente continentais.

A disposição do sistema dos rios em padrão praticamente paralelo, que drenam predominantemente no sentido SO-NE até o rio São Francisco é resultado de reativação, após o Cretáceo, de antigas falhas e fraturas.

COBERTURAS DETRÍTICAS 

As coberturas detríticas dispõem-se sobre quase todas as unidades litoestratigráficas cartografadas na área.

Significativa representação geográfica, é visualizada ao longo das margens do Rio São Francisco, por toda a sua extensão dentro da área no estado da Bahia, com rota média oscilando em torno de 500 metros. 

Tais exposições também se estendem para as regiões de Palmas de Monte Alto, Santa Maria da Vitória, Bom Jesus da Lapa, Paratinga, Brejolândia e Ibotirama.

HIDROGRAFIA

O Rio São Francisco assenta-se sobre uma estrutura de grande antiguidade, denominada Cráton do São Francisco. Os crátons foram as primeiras terras que emergiram do mar primordial que cobria a superfície da terra, tendo ocorrido em data entre 4 bilhões e 600 milhões de anos.

Posteriormente, movimentos tectônicos e vulcanismos alteraram, dobraram e desgastaram essa área, dando-lhe a forma e estrutura que apresenta na atualidade.

Nos últimos 60 milhões de anos, durante o Período Cenozoico, tem estado sob processos erosivos, sendo, provavelmente, desta época, a estruturação de sua rede hidrográfica, fundamentalmente os de sua margem esquerda, no oeste baiano.

Os rios que drenam a área apresentam todos características de senilidade. Estruturados provavelmente em fraturas originadas do tectonismo de cisão do Continente de Gondwana, há 60 milhões de anos, em uma área extensamente aplainada, com cobertura arenosa proveniente da Formação Urucuia, são rios encaixados, com nível praticamente constante, vazão estabilizada, não apresentando sinais de retirada ou deposição de sedimentos.

Tal fato demonstra estabilidade de seu nível de base, com equilíbrio entre vazão e estrutura de seu leito. Sua perenidade é mantida, via de regra, por lagoas nas nascentes, formadas e mantidas pelos aquíferos Bambuí e, principalmente, Urucuia, assentados em níveis diferenciados na c, divisor político entre os estados de Goiás, Tocantins e Bahia.

A partir da década de 1980, a região tem sido ocupada intensivamente pela monocultura de soja, dentre outros cultivos; para tanto, também intensivamente, tem sido utilizada a irrigação, com implantação de inúmeros pivôs, mantidos pela água de poços artesianos e, também, da sua rede de drenagem.

A retirada da vegetação nativa indiscriminadamente, em uma área como essa, expondo um solo desnudado e promovendo aumento do escoamento superficial, tende a levar aos cursos d’água sedimentos daí retirados, iniciando, desta forma, alterações no nível de base destes, por deposição e consequente assoreamento. 

Nas lagoas de nascentes, então, esse processo tem o efeito de soterrá-las, alterando o volume de suas águas, fator fundamental da velocidade de vazão desses rios.

Associados às lagoas, as veredas que compõem o cenário da região são, na verdade, originárias de pequenos olhos d’água, provenientes do mesmo lençol que abastece os pivôs, fazendo com que sequem.

Os rios senis são estruturas hidrográficas extremamente sensíveis, uma vez que sua estabilidade é decorrente de um frágil equilíbrio entre as estruturas que os compõem. Via de regra, dependendo da magnitude da intervenção no meio, eles tendem a um processo de grandes modificações, cujas consequências trarão alterações contundentes a toda a bacia.

Alterações no nível de base desses rios fazem com que sejam alterados sua velocidade e seu volume de escoamento. Tal fato irá provocar um novo processo de escavação e/ou deposição, alterando, de toda maneira, o traçado de seus leitos. Esse processo ocorre como um “efeito dominó”, principalmente se a intervenção provocar uma maior velocidade de escoamento.

ASPECTOS DA FLORA E DA FAUNA 

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A região do oeste baiano apresenta um quadro florístico peculiar em relação às demais áreas de cerrado encontradas no Planalto Central brasileiro. A diversidade de ambientes que caracteriza a área demonstra ser o componente principal para o desenvolvimento de uma biodiversidade florística e faunística bem mais característica que nos demais domínios da América do Sul. 

Apesar de apresentar um quadro com formação vegetal que possui características de homogeneidade, o que originou a denominação popular de “Gerais”, a região possui ambientes campestres, cerrado stricto sensu, cerradão, mata ciliar ripária, veredas e ambientes alagadiços. Na forma de enclaves, as Matas Ripárias, Veredas e Alagadiços, em geral, formam longas faixas, com larguras variadas. 

São ecologicamente muito importantes, pois na época da estação seca constituem verdadeiros oásis para certos animais que neles vão buscar água, alimentos e locais para procriação. Geralmente as aves migratórias buscam esses ambientes em determinadas épocas do ano para fazerem seus ninhos e chocarem os ovos.

Os animais de maior frequência em veredas e alagadiços, possuem habilidades para se locomoverem com facilidade nessas áreas, utilizando-se, inclusive, desses recursos para afugentar-se com rapidez em casos de ataque.

Não são muitas as espécies que convivem constantemente nesse habitat. Isso talvez se explique por estarem as veredas e os alagadiços nos vales, entre os demais subsistemas de cerrado. Essas características fazem com que se tornem ambientes de transição para a fauna em geral.

Durante a estação seca, existe maior concentração de animais herbívoros nas bordas desse subsistema, época correspondente à maior escassez de alimentos nos demais ambientes de cerrado, principalmente gramíneas que, ao contrário, nas veredas e alagadiços estão verdes, abundantes e limpas nesse período, graças à diminuição do nível de precipitação das águas e dos respingos de solo e areia nas folhas. 

Por essas qualidades ambientais, as matas ripárias, veredas e alagadiços desempenham uma importante função ecológica dentro do domínio do Cerrado.

Outro aspecto importante verificado no cerrado do oeste baiano refere-se à oferta de alimentos, à maturação dos frutos e à rebrota das gramíneas, fonte principal de alimento de um grande contingente da fauna, pois não ocorrem de forma homogênea em todas as áreas. 

A grande frutificação acontece durante os meses de outubro, novembro, dezembro, janeiro e fevereiro, época que coincide com o auge da estação chuvosa. Depois, a concentração desses recursos diminui, acompanhando o fim do período chuvoso. 

Entretanto, com exceção dos meses de maio e junho, considerados críticos no que se refere à oferta de alimentos, os demais meses que correspondem à época seca, mesmo em menor quantidade, apresentam alguns recursos, entre estes, flores, raízes resinas e alguns frutos.

Os mamíferos dessa região podem ser observados durante todo o ano, principalmente os que vivem em áreas abertas. Todavia, a maior concentração dessas espécies em seus nichos alimentares se dá nos meses de setembro, outubro, novembro, dezembro e janeiro. 

Essa época coincide com a rebrota das gramíneas e a maturação dos frutos. No mesmo período acontece a revoada de insetos (mariposas e tanajuras), o que torna fartos os recursos para os mamíferos insetívoros. Grande parte desses animais estão se acasalando durante os meses correspondentes à estação seca, o que significa que no período chuvoso vão estar com filhotes.

Essa dinâmica da natureza revela a estreita relação entre a flora e a fauna do Cerrado.

Alguns mamíferos carnívoros vão estar mais concentrados entre os meses de setembro a janeiro, acompanhando a concentração dos mamíferos de hábitos frugíveros, herbívoros e insetívoros.

Os mamíferos que têm seus habitats registrados em ambientes próximos à água estarão mais concentrados durante os meses da estação seca.

A maior parte das têm o período de postura durante a estação seca, principalmente entre os meses de junho, julho e agosto.

Portanto, a eclosão dos ovos se inicia no começo das chuvas, quando as aves que vivem em formações vegetais abertas vão estar mais reunidas.

Os répteis de áreas campestres têm sua maior atividade registrada durante o período chuvoso. As espécies maiores, que vivem em ambientes de mata ripária, veredas e alagadiços, são facilmente visualizados durante a estação seca, época em que os répteis aquáticos põem seus ovos. Estas mesmas espécies podem ser encontradas em ambientes secos durante a estação chuvosa, principalmente a espécie Eunectes murinus (sucuri) à procura de alimentos.

Em linhas gerais, os aspectos ambientais da região do oeste baiano desempenham uma grande importância ecológica, pois funcionam como berçário para multiplicação e preservação da vida animal e vegetal da região do Cerrado.

Outro aspecto importante se refere aos corredores de fauna, que no passado tiveram uma maior representatividade, servindo como refúgio para a fauna na forma de corredores naturais de migração, durante o intercâmbio faunístico entre representantes da fauna Amazônica e da Mata Atlântica. 

Apesar da ocupação humana ter se intensificado nos últimos anos na região, as nascentes, veredas e cursos d´água continuam servindo como caminhos para a migração de animais nessa região.

O ciclo vegetativo das plantas do Cerrado ocorre sob influência de fenômenos climáticos naturais. Durante o período da seca, época que corresponde ao inverno, são registradas as menores taxas de umidade no ar e as maiores intensidades de ventos. Isso acontece justamente no período em que as espécies vegetais que possuem sementes aladas estão abrindo seus frutos, para que o vento seja o elemento dispersor dessas espécies (anemocoria).

Quando termina a fase das sementes aladas, começam as chuvas e a maturação dos frutos, que vão servir de alimento a uma fauna bem variada. 

Ao consumir os frutos, os animais se tornam responsáveis pela dispersão das sementes, principalmente através das fezes (zoocoria). Esses mecanismos de dispersão são confirmados pela grande quantidade de vestígios encontrados durante o período de maturação dos frutos.

Toda essa dinâmica ambiental verificada no cerrado da região do oeste baiano, demonstra a sua importância na preservação da biodiversidade do domínio do Cerrado.

Estive recentemente na região e pude constatar que, mesmo em áreas com o mínimo de preservação, estes fenômenos, mesmo raros, ainda ocorrem na área.

POVOAMENTO HUMANO

A área do oeste da Bahia, desde as nascentes dos alimentadores do São Francisco situados nos altos chapadões, denominada regionalmente de “campina”, até os diversos afloramentos calcáreos do vale dos rios da região e do vale do rio São Francisco veio sendo ocupada sistematicamente por populações precursoras dos povos indígenas atuais, desde aproximadamente 11.000 anos Antes do Presente, até praticamente o início do século XX.

O conjunto de sítios arqueológicos pode ser agrupado em três

categorias:

  • Sítios de exploração de matéria-prima lítica;
  • Sítios cerâmicos de agricultores; e, 
  • Sítios em abrigos naturais.

SÍTIOS DE EXPLORAÇÃO DE MATÉRIA-PRIMA LÍTICA

Estes sítios arqueológicos existem em abundância ao longo de quase todos os rios tributários do São Francisco pela margem esquerda, desde o rio Carinhanha até o rio Grande, sempre onde ocorre o arenito Urucuia silicificado.

Nesses locais os ancestrais dos povos indígenas, utilizando-se desses recursos, fabricavam inúmeros instrumentos que utilizavam na labuta diária.

Pela tecnologia de lascamento e pela morfologia dos instrumentos, pode afirmar que essas áreas foram visitadas e ocupadas desde os primórdios da ocupação humana no centro e no interior do Brasil, pois são encontrados instrumentos que se enquadram nas tradições bem antigas e em tradições modernas.

SÍTIOS CERÂMICOS DE AGRILCULTORES

Estes sítios arqueológicos são encontrados em manchas de solo de boa fertilidade natural, quase sempre ao longo dos cursos d’água e sempre próximos às ocupações atuais.

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Aparecem aí materiais cerâmicos que pertencem a dois grandes grupos ou tradições tecnológicas: a Tradição Una, que corresponde a povos de língua Jê, e a Tradição Tupiguarani, que corresponde a povos de língua Tupi.

Próximo a esses locais é comum encontrar, de forma intacta, urnas funerárias com esqueletos humanos de diversas idades e muitos tipos de adornos, como colares feitos de conchas de moluscos tão polidas que mais se parecem peças de madrepérolas. Há também diversos adornos trabalhados em ossos e colares feitos com sementes nativas.

SÍTIOS EM ABRIGOS NATURAIS

Estes sítios arqueológicos estão situados em abrigos ou grutas de calcáreo situados nos cursos inferiores dos vários rios da região. São sítios com pacotes estratigráficos que demonstram períodos ocupacionais duradouros.

Nesses pacotes estratigráficos, é possível encontrar algumas preciosidades que demonstram a riqueza da região, para inclusive ilustrar o conhecimento que os povos indígenas primordiais tinham de plantas que já eram cultivadas – e algumas domesticadas – localmente. 

São encontrados vestígios ainda com palhas e sementes do milho primitivo, sementes do algodão primitivo, sementes de feijão e outras sementes de cereais ainda não identificadas.

Nas paredes dessas grutas e abrigos explode uma variedade de galerias artísticas, com diversos motivos de arte rupestre, explicitada na forma de animais, figuras geométricas, sempre numa combinação de cores, cujas tintas ou grafites eram dos próprios locais.

Esse tipo de ocupação, cuja herança desemboca nos povos indígenas atuais, desenvolveu na região um sistema harmônico de interação com o meio ambiente, por quase 550 gerações, ou mais, sem alterar significativamente os aspectos ambientais.

A partir do século XVIII, colonos de origem europeia associados a africanos escravizados chegam à região do baixo e médio curso dos rios, com intuito de explorar o ouro. 

Findo o ciclo da mineração, pequenas fazendas são estruturadas, dentro de um modelo sui generis de irrigação e paulatinamente vão se transformando em modelos organizados de agricultura familiar com orientação de sustentabilidade.

Em meados da década de 1970, outro modelo de organização territorial é implantado na região.

PALEONTOLOGIA 

Peter Schouten

Em termos da riqueza paleontológica, o oeste da Bahia se nos apresenta como um laboratório de informações importantíssimo para a compreensão da história da vida no planeta Terra. São incontáveis os jazimentos de turfas, que aparecem desde o curso superior do rio Pratudão, num local denominado Mato Grosso do Pratudão, até diversas áreas de brejos nos vários rios da região.

A turfa é um conglomerado formado pela decomposição de matéria orgânica, sob condições especiais e que guarda entre os elementos que a compõem uma grande quantidade de pólens, estudados pela Palinologia, que é um ramo da Micropaleontologia. 

Dependendo da camada onde é encontrado, o pólen pode ser datado, e é possível determinar o tipo de vegetação que caracterizava um espaço geográfico, em determinado período da história do Planeta. Além disso, o tipo de vegetação é um indicador climático.

Outro elemento que merece destaque é a quantidade de fósseis vegetais, alguns já datados em 50 milhões de anos, que guardam semelhanças com a flora do Cerrado.

 Esse tipo de material é encontrado de forma abundante ao longo do rio Arrojado e aflora de forma bem visível, num local denominado Lapinha, entre Correntina e Jaborandi.

Além do mais, sem mencionar todos os elementos, é importante destacar a grande quantidade, talvez a maior do Brasil, de ossos fossilizados, encontrados nas inúmeras cavernas da região, principalmente ao longo do vale do rio Formoso e ao longo do vale do rio Corrente.

A maior parte desses ossos está associada aos animais de grande porte que caracterizaram a megafauna da América do Sul e que na região do oeste da Bahia sobreviveram até 10 mil anos Antes do Presente.

Entre os principais animais, encontram-se Eremotherium, tipo de preguiça gigante; Gliptodontes, tipo de tatus gigantescos; vários tipos de elefantes, sendo o principal o Haplomastodonte, além de várias outras espécies, incluindo o famoso Smilodon populator, conhecido popularmente como Tigre Dente de Sabre.

E assim, dentro desta rápida pincelada, o leitor pode perceber o grande patrimônio científico, ainda em grande parte escondido no oeste da Bahia, e que deve ser estudado e preservado, porque além de constituir parte importante da história do planeta Terra, constitui também uma página irrepetível da história do povoamento indígena do Brasil e da América do Sul.

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altair salesAltair Sales Barbosa – Pesquisador do CNPq. Sócio Emérito do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Professor convidado da UNIEVANGÉLICA. Membro do Corpo Editorial da Revista Xapuri.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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