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Paulos

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Final de ano e a confraternização com minhas amigas ocorreu na casa de I, estávamos em oito, as mais próximas, e cada uma de nós levou um prato e uma boa garrafa de vinho para comemorarmos o ano que havia passado…

Por Giselle Mathias

Conversamos sobre tudo que havia nos angustiado, nossas vitórias e derrotas e depois de algumas taças entramos naquele assunto que mais nos diverte, o quanto os homens que passaram em nossas vidas possuem um ego tão grande que sequer conseguem perceber o real significado deles para nós. Alguns nos apaixonamos, outros gostamos e tem aqueles que são só para passar o tempo ou apenas um encontro, mas todos se veem como se fossem o grande amor, a paixão que nos marcou.

No bate papo que fluía, A falou sobre como o nome pode influenciar na personalidade de uma pessoa e o quanto acreditava nisso, pois em sua listinha alguns nomes se repetiam e o comportamento também era muito similar; a risada tomou conta do ambiente e decidimos avaliar se seria mesmo assim. Cada uma fez sua lista e verificamos qual nome aparecia para todas e com mais frequência. Talvez pela nossa idade, o nome que mais apareceu foi Paulo e começamos a contar nossas histórias para confirmar a crença de A e observamos que ela tinha alguma razão, havia muitas coisas em comum, mas também algumas peculiaridades.

Resolvemos listar as principais características dos Paulos que passaram em nossas vidas, primeiro falamos sobre as particularidades de cada um e esse foi um momento divertidíssimo; retornamos a nossa adolescência e fizemos aquela famosa listinha em que nós, as mulheres, éramos classificadas, mas dessa vez eles foram valorados por nós.

Vamos a nossa listinha!

Chegamos à conclusão de que, apesar do que há em comum, existem vários Paulos:

Há o Paulo que ao ver uma mulher já se empina, basta usar uma saia. Se aproxima ereto e reto nas suas posturas, mas cheio de empáfia, com uma conversa meio vazia e cheio de elogios, crente que é o garanhão e todas as mulheres em algum momento vão ceder a sua bela postura. Se enganam com uma facilidade, porque jamais percebem o quanto são cansativos no bate papo, sempre arrumam uma desculpa quando não desejamos sua companhia, mesmo que seja para apenas uma conversa.

Tem aquele Paulo que se posiciona a esquerda, relativamente educado, porque não é tão grosso, nem tão mal-educado, é meio baixo, mas como todos se empinam, acham que são culturalmente, intelectualmente e politicamente superiores, por isso creem que as mulheres os idolatram, porque conseguem sustentar um bom papo, mas nem percebem o quanto deixam a desejar, porque acham que só eles podem conduzir o assunto e mal nos deixam falar, reduzindo o prazer que poderia ser proporcionado em um encontro a dois.

E tem aquele Paulo que está à direita, é alto, grande, fino e elegante, mas engana bem o olhar, porque o papo é curto e rápido e suas piadas têm pouca graça, que nem conseguimos dar aquelas prazerosas gargalhadas.

Não nos esquecemos do Paulo que é centrado, mas é curto e grosso, o diálogo é difícil, encontrar uma questão que seja comum para que o encontro seja agradável requer muito jogo de cintura de nós mulheres. Afinal, sempre buscamos tirar o melhor proveito dos encontros que de início desejamos.

Agora tem o Paulo que além da boa postura, é firme, tem uma boa altura, é aquele considerado mediano, não é alto demais, nem baixinho, também não é mal-educado, muito menos grosso ou agressivo, e não possui aquela fineza que até soa como prepotência, a conversa é gostosa, mas sua principal característica é o nariz empinado, nada arrogante, apenas o suficiente para um gracejo no ponto, o encaixe certeiro para um bom beijo.

Depois de listarmos as peculiaridades F disse:

As particularidades de cada Paulo podem agradar ou não dependendo do público! Também temos nossas preferências, o que mais gostamos, aquele que se encaixa melhor no nosso jeito, mas o que há de comum neles é o que mais me incomoda.

A crença, eu diria até uma fé, de que eles são tudo o que uma mulher deseja e que apenas eles sabem conduzir e serem os maestros da orquestra, por isso entendem que todas nós nos apaixonamos, gostamos mais, sofremos e não conseguimos esquecê-los, são os verdadeiros troféus que até podem ser divididos com mais de uma, caso assim o desejem, porque o NÃO, ainda não é uma opção para os deuses.

Concordamos todas! E G concluiu:

Não devemos esquecer que em alguma medida colaboramos com essa crença. Afinal, fomos muito bem treinadas e educadas para demonstrar satisfação, mesmo quando não nos agradam.

Acho que por isso sempre fizeram a diferença entre as que são para casar e as que são para a diversão, pois precisam continuar professando e acarinhando o seu ego, mesmo que seja apenas uma ilusão. E enquanto buscamos parcerias e encontros, eles buscam dominação e satisfação própria. Sim, há exceções, pelo menos aqueles que tem espelhos e enxergam o outro. Mas, convenhamos, é uma agulha no palheiro.

Rimos muito de toda a nossa conversa e percebemos que também precisamos mudar nossas atitudes, mas que os Paulos, os Márcios, os Matheus, os Ricardos, os Januários, os Amadeus, os … também precisam repensar essa fita métrica de afetos a partir da qual eles se pautam, pois os centímetros deles estão sendo muito auto-supervalorizados.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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