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Peixe-Mocinha-Onça recém-descoberto em Brasília

Inspirador Peixe-Mocinha-Onça recém-descoberto em Brasília

O Brasil é o país com maior diversidade de peixes no mundo, com mais de 5,8 mil espécies de habitam os nossos rios, lagos, brejos, igarapés, veredas e arroios, além de mares, estuários e manguezais, ilhas e regiões oceânicas. Com tanta riqueza, é natural que muitas dessas espécies ainda não sejam devidamente estudadas e ainda sejam desconhecidas para a ciência

Por Marcelo Roberto Souto de Melo

Ao contrário do que muitos pensam, não é apenas nas expedições às áreas remotas da Amazônia ou nas profundidades do oceano que são descobertas novas espécies. Em um estudo realizado por pesquisadores do Instituto Oceanográfico da USP (Prof. Dr. Marcelo Melo), da Reserva Ecológica do IBGE (Dr. Mauro Ribeiro) e do Museu de Zoologia da UNICAMP (Dr. Flávio Lima), uma nova espécie foi descoberta no coração da Capital Federal, em Brasília!

O gênero Characidium é composto por pequenos peixes, de 3 a 15 cm de comprimento, popularmente conhecidos como peixes-mocinhas ou peixes-charutinhos. Atualmente, são conhecidas cerca de 80 espécies, distribuídas em praticamente toda a América do Sul e em parte da América Central.

Esses peixinhos são típicos habitantes de riachos e córregos de águas cristalinas, tendo preferência por locais com cachoeiras, cascatas e corredeiras. Por não serem pescados, são pouco conhecidos pela maioria da população, mas é só olhar com atenção em um local de cachoeira que lá estão eles, bem próximos às pedras, em busca de pequenos invertebrados aquáticos que lhes servem de alimentação.

INSPIRADOR PEIXE-MOCINHA-ONÇA

O Distrito Federal encontra-se em uma área privilegiada com muitos córregos, rios de médio porte, lagoas naturais, lagos artificiais e veredas, que drenam para as principais bacias da América do Sul: no norte, para o rio Maranhão, bacia do rio Tocantins; no leste, para o rio Preto, bacia do rio São Francisco; e nas áreas central, sul e oeste, para a bacia do alto rio Paraná. Esse cenário faz com que o Distrito Federal tenha uma incrível diversidade de peixes, com mais 350 de espécies nativas, inclusive de peixes-mocinhas!

A descoberta dessa nova espécie é resultado de um trabalho de monitoramento da fauna e flora realizado desde a década de 1980 e que se estende até os dias de hoje. Com os exemplares coletados no Distrito Federal e entorno e preservados para estudos científicos, foi montada uma coleção de referência que serve de base para diversos tipos de pesquisas sobre biodiversidade e conservação do Cerrado.

A partir de um projeto de pesquisa financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foi realizado um estudo focado nas espécies de peixes-mocinhas de Brasília. A descoberta foi publicada em janeiro de 2021, na revista científica Neotropical Ichthyology, da Sociedade Brasileira de Ictiologia.

Duas coisas nos chamaram muita atenção nesse peixinho. A primeira foi o colorido dourado intenso e com pequenos pontos pretos, que nos remeteu ao maior felino das Américas, a onça-pintada, que foi descrita pelo famoso naturalista Carl Linnaeus em 1758 como Panthera onca. Então, batizamos essa espécie, em homenagem ao felino, como Characidium onca, ou peixe-mocinha-onça. A segunda, foi o fato de o peixe-mocinha-onça ser encontrado apenas nos tributários do córrego Taquara, localizado dentro da Reserva Ecológica do IBGE.

Apesar deste riacho ser localizado dentro de uma área de preservação, a espécie é muito vulnerável aos impactos antropogênicos de uma área urbana, tais como a presença de espécies de peixes não nativas na bacia (tilápia, carpa, bagre-africano); a pressão imobiliária no entorno do Jardim Botânico, Reserva Ecológica do IBGE e Estação Florestal Experimental da UNB; o aquecimento global que, em Brasília, substituiu aquelas madrugadas e manhãs frias por um calorão com temperaturas acima de 30º C; e o aumento da captação de água dos córregos e represas além do lençol freático, que resulta numa crise hídrica que já se estende por alguns anos e se acentua nos meses de seca, de maio a setembro.

Dessa forma, o belo peixe-mocinha-onça acaba de ser descoberto, mas já sofre risco de desaparecer em breve, sendo, portanto, considerado Criticamente Ameaçado de Extinção. Chama a atenção que as ameaças que afetam a existência dessa espécie são as mesmas que afetam a qualidade de vida de todos os brasilienses. Ou seja, o peixe-mocinha-onça funciona como um bioindicador do que está acontecendo com a gente e serve como um alerta sobre a importância de se preservar o Cerrado nativo e os corpos d’água.

A descoberta de uma nova espécie tão ameaçada não deve ser vista com tristeza, mas como uma fonte inspiração: para que brasilienses passem a admirar não apenas a beleza arquitetônica projetada por Lucio Costa e Oscar Niemeyer, mas também a riqueza natural das cachoeiras e do Cerrado; para que essa espécie se torne mais um dos símbolos para a preservação ambiental; e para a formação de novas gerações de brasilienses biólogos, geógrafos, químicos, físicos, oceanógrafos e, claro, professores de ciência.

melomarMarcelo Roberto Souto de Melo – Biólogo. Para saber mais: Melo, M.R.S.; Ribeiro, M.C.L.B. & Lima, F.C.T 2021 A new, narrowly distributed, and critically endangered species of Characidium (Characiformes: Crenuchidae) from the Distrito Federal, Central Brazil. Neotropical Ichthyology, 19(1): e200061. https://doi.org/10.1590/1982-0224-2020-0061

 

 
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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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