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Piripkura vence Festival de Cinema do Rio

Piripkura – 

Com um facão, um machado e uma tocha de fogo, Pakyî e Tamandua, dois dos três únicos sobreviventes do povo indígena Piripkura, vivem isolados da sociedade, caçando, coletando frutos e conversando em voz alta às margens do Rio Madeirinha, no noroeste de Mato Grosso, em uma região cercada por estradas, fazendeiros e madeireiros.

Traduzida em filme por Mariana Oliva (produtora), Renata Terra e Bruno Jorge, a história de Pakyî e Tamandua ganhou a 19ª edição do Festival de Cinema do Rio, na categoria melhor longa-metragem de documentário, no último dia 15 de outubro.

Conforme definição do júri do festival, ao anunciar a premiação de Piripkura, esse filme surge para “nos dar o privilégio de mostrar pela primeira vez o milagre do olhar inocente de dois homens livres, em um documentário que nos devolve uma imagem própria como um espelho e nos obriga a refletir sobre nossas próprias vidas”.

O documentário relata as expedições periódicas do indigenista Jair Condor, desde 1989 coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Madeirinha-Juruena da Funai, e de Rita, a terceira sobrevivente Piripkura que, casada com um Karipuna, vive em Rondônia, mas retorna ocasionalmente para acompanhar Jair na busca de vestígios que comprovem a presença dos parentes na região.

Segundo Mariana Oliva, foi Jair que, há cerca de quatro anos, em um encontro com as diretoras, quando documentavam um processo de capacitação da Funai para a formação de novos servidores para trabalhar nas Frentes de Proteção Etnoambientais na Amazônia, contou sua trajetória junto aos Piripkura e expressou sua vontade de que essa história viesse a ser documentada.

Entretanto, é Rita quem conta sobre Pakyî e Tamandua que, depois das ameaças e massacres que resultaram no extermínio de seu povo na década de 1980, optaram por resistir a qualquer forma de contato com a sociedade nacional. Os dois (tio e sobrinho) vivem hoje em uma pequena Terra Indígena interditada pela Funai em 2008. Entretanto, para que esse território continue protegido, a existência de Pakyî e Tamandua tem que ser comprovada a cada dois anos.

Durante a primeira das três expedições da equipe de filmagem com Jair em busca de Pakyî e Tamandua, sinais dos indígenas são encontrados, mas eles não. Somente meses depois, os indígenas apareceram no posto avançado da Funai, em busca de fogo, uma vez que a chama que mantinham acesa, desde 1998, havia se apagado. O registro deste encontro resulta em um dos momentos mais emocionantes do filme.

Produzido pela Zeza Filmes com produção associada da Maria Farinha Filmes e Grifa Filmes, para Mariana Oliva o documentário é um instrumento de reflexão e resistência – “conhecer a capacidade de sobrevivência e plenitude de Rita, Pakyî e Tamandua, apesar da tragédia que atravessa a história do seu povo, nos faz questionar aspectos profundos sobre nossa forma de estar no mundo”.

Piripkura segue agora em novembro para o Festival Internacional de Documentário de Amsterdã, para participar da mostra competitiva de novos talentos.

Eduardo Pereira

Produtor Cultural

Foto: s3.amazonaws.com


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revista 115

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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