POTES E PANELAS: A OCUPAÇÃO DO CERRADO POR HORTICULTORES QUE VIVIAM EM ALDEIAS

POTES E PANELAS DE HORTICULTORES QUE VIVIAM EM ALDEIAS

POTES E PANELAS: A OCUPAÇÃO DO CERRADO POR HORTICULTORES QUE VIVIAM EM ALDEIAS

O território brasileiro tem sido o palco no qual as populações indígenas desenvolveram culturas diferentes, em conformidade com suas origens, seu tempo histórico e suas possibilidades tecnológicas.

Por Altair Sales Barbosa e Sandro Dutra e Silva

As condições ambientais encontradas pelos agricultores indígenas não parece terem sido muito diferentes das conhecidas pelos primeiros colonizadores de origem europeia, mas foram exploradas de modo diferente.

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O território já era ocupado, desde antes de 12.000 anos Antes do Presente (A.P.), por uma população humana composta de caçadores e coletores. As etapas mais antigas da evolução desses homens pré-cerâmicos são mais conhecidas que as mais recentes, nas quais se transformariam em cultivadores e ceramistas. 

Nos locais em que se encontram depósitos estratificados em abrigos, como em Serranópolis, Goiás, há descontinuidade entre as camadas do homem sem cerâmica e a do ceramista; as próprias datas indicam um hiato muito marcante entre ambas as ocupações.

Nas áreas onde as aldeias de ceramistas se levantaram ao ar livre, ainda não foram encontrados sítios pré-cerâmicos que pudessem apoiar estudos de tradição tecnológica ou cultural. 

Dessa maneira, sem transição aparente, aparecem grupos ceramistas, cultivadores de plantas, que os arqueólogos separam em tradições tecnológicas, fases e subfases. 

Essas classificações ainda são altamente hipotéticas e será necessário um longo trabalho de análise e comparação, não apenas dos elementos cerâmicos e líticos, mas de todos os outros dados, para se obter conhecimentos fidedignos sobre as populações, sua vida e sua história. 

Mesmo cronologicamente, as informações se apresentam escassas, apoiando-se em um pequeníssimo número de datas de C-14, que não marcam nem o começo nem o transcurso completo da ocupação. 

O apoio na etno-história proporciona algumas hipóteses, ainda não testadas, com relação à continuidade desses cultivadores pré-históricos no período colonial.

TRADIÇÕES E FASES GEOLÓGICAS DO CENTRO, SUDESTE E NORDESTE DO BRASIL

No Centro, Sudeste e Nordeste do Brasil (Aratu, Sapucaí, Una), ocorrem no Rio de Janeiro, em Minas Gerais, Goiás e áreas vizinhas. 

No Centro, Sudeste e Nordeste do Brasil, o material está classificado como pertencente às seguintes tradições tecnológicas definidas:

TRADIÇÃO FASES
Tradição Aratu Mossâmedes e Tejuaçu
Tradição Uru Uru, Jaupaci, Uruaçu, Itapirapuã e Aruanã 
Tradição Sapucaí  Itaberaí, Itaci, Jaraguá, Paraopeba, Ibiraci e Sapucaí
Tradição Uma Jataí, Palma, Jaborandi, Piumhi
Tradição Tupi-guarani  Iporá e São Domingos 
Tradição não definida Fase Pindorama 

TRADIÇÃO CERAMISTA ARATU

A Tradição Aratu abrange um conjunto de sítios arqueológicos de grupos horticultores. É representada por sítios cerâmicos a céu aberto, cuja distribuição geográfica abrange o leste do Brasil, o Nordeste e os domínios do Planalto Central.

A cerâmica é predominantemente simples, produzida com antiplástico mineral e tem formas grandes, esféricas ou ovoides. 

Na região, essa tradição engloba as fases Mossâmedes e Tejuaçu.

FASE MOSSÂMEDES

As datas conseguidas para o material da fase Mossâmedes variam entre 1.140 anos A.P. e 960 anos A.P.

Os sítios estão localizados em uma extensa área que abrange, de modo geral, o Centro-Sul de Goiás, corresponde à borda das serras do Caiapó, de Dourados e dos Pireneus, englobando, entre outros, os seguintes municípios: Edeia, Ipameri, Orizona, Goiatuba, Trindade, Anicuns, Taquaral, Itaguaru, Heitoraí, Mossâmedes, Jaupaci, Diorama, Montes Claros, Caiapônia, Goiânia e outros.

A cerâmica é caracterizada por vasilhames grandes, sendo a maior parte sem decoração, contorno simples e infletido, formando corpo ovoide, esferoide e elipsoide. As bordas não têm reforço, as bases são arredondadas e levemente aplainadas e a espessura da parede oscila entre 0,5 e 3,0 cm. 

O antiplástico característico é a fibra vegetal. Outros materiais de cerâmica diagnósticos são as rodas de fuso, que se apresentam com formas variadas. 

Entre o material lítico, aparecem lâminas de machado polidas, com garganta e semilunar, tembetás de quartzo, mãos de pilão, panelas rasas e pilões trabalhados em pedra sabão, lascas e percutores. 

Embora a datação absoluta mais antiga conseguida para a Fase Mossâmedes até o momento seja 1.140 anos A.P., Schmitz (1982), com base em estudos quantitativos, afirma que essa fase deve ter compreendido um período que vai desde aproximadamente 2.000 anos A.P. até o século XVIII da nossa Era.

Os assentamentos são caracterizados por grandes aldeias circulares.

FASE TEJUAÇU

A Fase Tejuaçu foi estudada e definida ao longo do Vale do rio Paranã, no nordeste de Goiás. A cerâmica tem a mesma característica da Fase Mossâmedes. 

TRADIÇÃO URU

A Tradição Uru foi definida em 1974 por Schmitz, Wust, Barbosa e Basile Becker. Caracteriza uma tradição ceramista de grupos horticultores das bacias do Tocantins e Araguaia. No Sistema dos Cerrados, engloba as fases: Aruanã, Itapirapuã, Jaupaci, Uru e Uruaçu.

FASE ARUANÃ

Os sítios cerâmicos da Fase Aruanã estão localizados na bacia do Rio Vermelho, a partir do curso médio deste, ocupando as margens dos lagos que se prolongam até o rio Araguaia. 

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Até o presente, foram conseguidas duas datas para essa fase: uma para o século XII e outra para o século XIII da nossa Era, mas os estudos parecem indicar que essa fase vem até época bem mais recente. 

Os assentamentos são representados por fileiras de casas concentradas ao longo de lagos, banhados, ou mesmo de um rio.

A cerâmica é caracterizada por formas rasas, onde sobressaem tigelas e assadores, ao lado de formas restringidas (vasilhames cerâmicos com abertura superior mais fechada); o contorno é simples e infletido, o corpo se distribui nas formas ovoides, esferoides, elipsoides e cônicas. 

Há certa ocorrência de decoração, representada por apliques e apêndices em forma de asas; o antiplástico é caracterizado essencialmente por fibra vegetal. No instrumental lítico predominam as lâminas de machado polidas e com garganta. 

 

FASE ITAPIRAPUÃ

Os sítios cerâmicos da Fase Itapirapuã estão localizados no curso do alto da bacia do Rio Vermelho, abrangendo os municípios de Itapirapuã e Jussara, em Goiás. Não se tem nenhuma datação absoluta, mas os estudos efetuados parecem indicar que esta fase seja cronologicamente anterior à Fase Aruană. Os sítios estão assentados nas proximidades de córregos menores. As formas cerâmicas muito se assemelham às da Fase Aruană, o contorno é simples e infletido; o corpo é predominantemente elipsoide, mas aparecem também as formas ovoides e cônicas. Há uma presença constante da decoração, em que se sobressaem as asas, às vezes sob a forma de orelhas, ou onduladas, ou em forma de bastão. Predomina o antiplástico vegetal. O material lítico é caracterizado por lâminas de machado polidas, percutores, quebra-coquinhos e pratos em pedra-sabão.

FASE URU

Os sítios cerâmicos da Fase Uru estão localizados no alto curso do Rio Uru, dentro dos terrenos pertencentes à antiga microrregião homogênea conhecida como Mato Grosso de Goiás, abrangendo os municípios de Itaberaí, Heitoraí, Uruana e Carmo do Rio Verde.

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As datas mais antigas se situam em torno do século XIII de nossa Era. Nenhum dos sítios desta fase está ligado diretamente ligadas ao rio, mas a córregos menores. A cerâmica é caracterizada por por vasilhames fundos e vasilhames rasos (tigelas, pratos e assadores). 

Os contornos são simples e infletidos. No antiplástico ocorre fibra vegetal e areia. Outros elementos de cerâmica são característicos desta fase: carimbos cilíndricos, base perfurada e rodelas de fuso. 

O instrumental lítico característico é representado por lâminas de machado polidas e lâminas de machado polidas em forma de meia-lua.

FASE JAUPACI

Os sítios cerâmicos que compõem a Fase Jaupaci estão situados no curso médio do Rio Claro, afluente do Araguaia, abrangendo os municípios de Jaupaci, Fazenda Nova e Montes Claros de Goiás. 

Essa fase parece ser paralela e contemporânea da Fase Uru, da qual se distingue por poucos elementos. 

As formas dos vasilhames cerâmicos são predominantemente ovoides, esferoides e elipsoides, com contornos simples e infletidos. A única decoração existente é a ocorrência de apêndices (asas) em pequena quantidade. 

O antiplástico é caracterizado por fibras vegetais (cariapé) e areia. O instrumental lítico é representado por lascas com retoques, pilão de pedra-sabão e lâminas de machado polidas.

FASE URUAÇU

Os sítios cerâmicos que constituem a Fase Uruaçu estão localizados principalmente à margem esquerda do Rio das Almas, bacia do Tocantins, abrangendo os municípios de Hidrolina e Itapaci. Não se tem datações absolutas para esses sítios, mas estudos quantitativos demonstram sua contemporaneidade com as fases Uru e Jaupaci.

A cerâmica é caracterizada por formas ovoides, esferoides e cônicas, com contornos simples e infletidos. Ocorre uma decoração de superfície, representada por um banho alaranjado. 

O antiplástico é caracterizado por fibra vegetal e areia. No instrumental lítico sobressaem lâminas de machado polidas e quebra-coquinhos.

TRADIÇÃO SAPUCAÍ

A Tradição Sapucaí denomina uma tradição cerâmica de grupos horticultores do centro e nordeste do Brasil e mantém uma série de afinidades com a Tradição Aratu, da qual, em muitos casos, é difícil estabelecer uma separação. 

Por isso, problemas referentes à sua definição foram discutidos posteriormente (Schmitz, Barbosa & Ribeiro, ed., 1981), sem, todavia, chegar-se a um consenso quanto à sua posição taxionômica.

FASE ITABERAÍ

Localizada sobre as cabeceiras do rio Uru, no divisor de águas entre as bacias do Tocantins e Paranaíba, e sobre o rio Corumbá, na bacia do Paranaíba.

Nenhum sítio foi datado de forma absoluta, mas, pelos conhecimentos acumulados até o momento, e com base nas possíveis relações desta com a Fase Mossâmedes, tudo parece indicar que a posição cronológica da Fase Itaberaí coincide com a parte final da Fase Mossâmedes.

A cerâmica é caracterizada por formas menores que as formas da Fase Mossâmedes, com corpo ovoide e esferoide, contorno simples e infletido. Com relação à decoração, predominam as formas simples, mas ocorre banho laranja na superfície e decoração corrugada.

O antiplástico é caracterizado por uma mistura de caco moído, areia e fibra vegetal. O material lítico é caracterizado por lâminas de machado polidas, percutores, tembetás e quebra-cocos.

FASE IBIRACI

A Fase Ibiraci está representada por sítios arqueológicos distribuídos ao longo do vale do rio Sapucaí. A cerâmica é temperada com arenito cozido, cujas arestas formam uma parede grosseira, sem nenhum alisamento.

FASE SAPUCAÍ

Os sítios estão distribuídos na região onde atualmente se construiu a represa de Furnas, no Rio Grande. A cerâmica é temperada com hematita rolada ou areia. Há o registro de duas datas de C-14 para esta fase: A.D. 1.065 ± 90 e A.D. 1.095 ± 70.

FASE PARAOPEBA

Os sítios estão mais concentrados na região de Sete Lagoas. A cerâmica, também temperada com hematita, apresenta forte semelhança com a da Fase Sapucaí.

FASE JARAGUÁ

A Fase Jaraguá foi classificada por Prous. Os sítios se distribuem pelo centro-norte de Minas Gerais. A cerâmica muito se assemelha à da Fase Sapucaí, mas uma particularidade relativa ao assentamento (habitação semissubterrânea) a diferencia das demais fases da Tradição Sapucaí.

Há o registro de uma data de C-14 para esta fase: A.D. 1.095 ±70.

TRADIÇÃO UNA

A Tradição Una caracteriza um complexo lito-ceramista de grupos que já exerciam certo domínio sobre plantas cultivadas, como amendoim, milho, cucurbitáceas, algodão etc. Na região, essa tradição engloba as principais fases: Jataí, Palma, Jaborandi e Piumhi.

FASE JATAÍ

Os sítios que compõem a Fase Jataí estão situados no vale do Rio Verdinho, bacia do Paranaíba, no sudoeste do estado de Goiás. A maior parte desses sítios foi localizada em abrigos sob rochas. 

Trata-se de uma fase lito-cerâmica em que a cerâmica é caracterizada por vasilhames pequenos de contorno infletido, de superfície alisada, e na maioria dos casos apresenta engobo vermelho. Há ainda leve ocorrência da decoração incisa e ponteada, e o antiplástico é caracterizado por fibra vegetal e areia.

O instrumental lítico muito abundante é caracterizado por instrumentos trabalhados sobre lascas grandes, com lançamentos e retoques bifaciais, sobressaindo-se as lâminas de machado lascadas, facas e raspadores, todos trabalhados em arenito fritado.

Associados a esta fase, encontram-se restos de alimentos animais, como mamíferos, répteis e aves, e alimentos vegetais, entre os quais alguns cultivos, como milho, cucurbitaceae, amendoim e certos tipos de cereais não identificados.

As datações conseguidas situam a Fase Jataí ao redor de 1.000 anos Antes do Presente

FASE PALMA 

Localizada em abrigos sob rocha ao longo do Rio Palma, bacia do Paranã, no nordeste de Goiás. A cerâmica reúne as mesmas características da cerâmica descrita para a Fase Jataí. 

As formas e técnicas são muito semelhantes ao instrumental da Fase Jataí, embora a matéria-prima do instrumental lítico seja, no conjunto, diferente. Também associados a esta fase se encontram restos de alimentos animais e vegetais.

As datas mais antigas estão ao redor de 1.500 anos Antes do Presente.

FASE JABORANDI

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Os sítios que compõem a Fase Jaborandi estão localizados na vertente do rio Corrente, bacia do São Francisco, no oeste do estado da Bahia, e situam-se em abrigos sob rocha e em áreas abertas. 

O material é representado por cerâmica, instrumental lítico, restos de alimentos vegetais e animais e fibras utilizadas na tecelagem. A cerâmica guarda as mesmas características gerais da Fase Jataí, diferindo no antiplástico. 

O complexo instrumental lítico e os restos de alimentação também muito se assemelham ao material da Fase Jataí.

As datas mais antigas estão ao redor de 1.000 anos Antes do Presente.

FASE PIUMHI

Os sítios que compõem a Fase Piumhi estão distribuídos no centro-oeste de Minas Gerais. Trata-se do material cerâmico mais antigo encontrado em Minas Gerais e apresenta grandes semelhanças com o material que caracteriza a Fase Jataí, em Goiás. Há uma data de C-14 que acusa a idade de A.D. 110 ± 90.

TRADIÇÃO TUPIGUARANI

Na região, os sítios arqueológicos da Tradição Tupi-guarani ocorrem principalmente em Goiás e estão localizados na bacia do rio Claro, afluente do Araguaia, ao longo dos rios Verde (Verdinho) e Claro, afluentes do Paranaíba, abrangendo os municípios de Jaupaci, Montes Claros de Goiás, Caçu e Jataí.

Mais para o nordeste de Goiás, também aparecem vestígios dessa tradição nas proximidades dos municípios de São Domingos e Monte Alegre de Goiás. Também é registrada sua ocorrência no oeste da Bahia, no município de Santa Maria da Vitória.

Até o momento, foram definidas duas fases para a região: Fase Iporá e Fase São Domingos.

FASE IPORÁ

Abrange as áreas da bacia do Rio Claro, afluente do Araguaia, e Rio Claro, da bacia do Paranaíba. A cerâmica é caracterizada por formas rasas, grandes, e há predomínio do contorno infletido, havendo cerâmica simples e com decoração.

As formas decoradas são caracterizadas por uma pintura vermelha sobre engobo branco e, em menor proporção, ocorre decoração corrugada e ungulada. O antiplástico é predominantemente caco moído. 

As datas mais antigas situam-se ao redor de 600 anos Antes do Presente.

FASE SÃO DOMINGOS

Abrange áreas da Serra Geral de Goiás, na vertente rio Parană, e áreas do oeste da Bahia, vertente do rio Francisco. 

A cerâmica é caracterizada por vasilhames sem decoração e decorados. Os decorados salientam a pintura vermelha e/ou vinho sobre engobo branco. 

O antiplástico é caco moído, em sua maioria. Não se pode precisar ainda uma cronologia para a Fase São Domingos.

TRADIÇÃO NÃO DEFINIDA

FASE PINDORAMA

A Fase Pindorama abrange um conjunto de sítios arqueológicos representado por três sítios em ambiente aberto e um sítio em abrigo, localizados ao longo do curso médio do rio Tocantins, no estado do Tocantins. No abrigo, o material cerâmico está associado a uma indústria lítica trabalhada sobre seixos.

Na cerâmica, predomina a ocorrência de antiplástico mineral e fibra vegetal cariapé, com predominância do primeiro. A grande maioria dos fragmentos indica uma cerâmica simples. 

Os sinais de decoração são de maneira muito reduzida e representam um banho vermelho. A Fase Pindorama, definida por Barbosa e Schmitz em 1982, parece representar uma fronteira entre as Tradições do Centro e do Nordeste do Brasil e as Tradições amazônicas.

As datações conseguidas indicam uma cerâmica antiga e, com toda segurança, pelo menos há 410 anos A.C. a área já era ocupada por grupos ceramistas.

altair salesAltair Sales Barbosa – Arqueólogo, (completar a qualificação tradicional), em 650 Gerações – A história do povoamento do Brasil antes dos europeus, 2023. 

 

 

Sandro DutraSandro Dutra e Silva – Doutor em História Ambiental. Vice-reitor de pesquisa da Uni-Evangélica, em 650 Gerações – A história do povoamento do Brasil antes dos europeus, 2023. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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