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Poucas e boas para você não votar em mim

Tive uma péssima noite, preenchida por pesadelos ufanistas, recorrentes, intrigantes. Saltei da cama. Caminhei até a cozinha. Ataquei a geladeira na expectativa de comer feijão gelado, mas, quando abri a porta, havia uma lareira com o fogo crispando dentro dela. Surreal demais para ser verdade. Despertei pela enésima vez na noite, matando aos poucos a metade dos meus neurônios; a outra metade tinha se locupletado de sonhos e fugido da realidade.

Movimentei o corpo. Ainda permanecia ali, vivo. Eu andava que era só a capa do Batman, só que sem o mesmo glamour. Mon amour tinha desaparecido. Sean Connery tinha morrido. Meu time do coração tinha caído para a Série B. Só um milagre me salvaria da insônia. Busquei no colchão uma posição menos desconfortável. Apesar do mais completo breu, notei que, no teto, uma lagartixa albina de olhos fosforescentes, igualmente desperta, mascava uma aranha, enquanto me observava com baixíssimo grau de misericórdia. Ela tinha mais fome do que compaixão. Posso imaginar os dilemas sub-reptícios que se passam na cabeça de um réptil: “Quisera ter mandíbulas grande e fortes o suficiente para mastigar um ser humano”.

Sermos mais humanos. É exatamente isso o que anda nos faltando. Bala. Boi. Bíblia. Se eleito fosse, comporia com outros literatos a Bancada da Lira. Ninguém nunca viu um senador da república com literatura de cordel escondida na cueca. A ideia é passar a boiada por cima dos discursos de ódio, enquanto a imprensa se ocupa com a pandemia de notícias falsas. “Jesus está voltando, com livros nos sovacos.” Quero ver quem é que vai aguentar tanto Mario Quintana sendo declamado do alto da tribuna.

Fico lisonjeado de você não me atirar, de confiar tanto assim nas minhas metáforas eleitoreiras. Imagino o que se passará na sua cabecinha, mesmo não sendo tão assaz quanto uma lagartixa albina, comedora de aracnídeos. Em primeiro lugar, se você não mora na minha aldeia, estará impedido de depositar o voto na urna em prol de minha pessoa, nem que amasse poesia, nem que eu fosse a nova versão encarnada de Fernando Pessoa. Votar em mim, nesse caso, seria uma enorme fraude e, morando num país como o nosso, já estamos com corrupção até o pescoço. Se eleito fosse, seria por amor ou por engano.

Fonte:  Revista Bula

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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