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Presentes de aniversário que todos nós queremos

Presentes de aniversário

Por Christina Ramalho

Que todas as artes se rebelem contra a ditadura da ignorância e da falta de sensibilidade. Que professores e professoras sejam livres para viverem seus eventos e fazerem suas pesquisas.

Que religiosos abandonem falsos líderes e reinventem suas religiões a partir do amor. Que mulheres não sejam mortas todos os dias. Que militares se insurjam contra quem quer lhes fazer reféns de favorecimentos infames.

Que moradores e moradoras de rua recebam a solidariedade e o apoio de que necessitam para recuperar sua dignidade. Que, no Brasil, Justi$$a volte a ser escrita com Ç.

Que ministérios deixem de ser redutos de ignorância e incompetência. Que a futilidade perca de goleada para a fraternidade. Que não se queiram tantas coisas desnecessárias.

Que cada pessoa possa viver sua sexualidade em paz. Que crianças não sejam vítimas de pedófilos. Que a Igreja Católica expulse e submeta às leis dos homens padres que violentaram a infância.

Que policiais militares que matam por ódio deixem de ser policiais. Que pessoas que cometem crimes vivam na prisão uma experiência que lhes permita reescrever suas histórias como seres humanos.

Que tenhamos saúde e ensino públicos para os povos. Que o materialismo seja abandonado. Que os povos indígenas possam viver suas vidas em paz. Que a Natureza volte a ser a “Mãe-Terra”!

Que os ricos parem de enriquecer e percebam o significado da desigualdade. Que o nome de Jesus saia da boca de quem só conhece a lógica do demônio.

Que os relacionamentos afetivos se construam com entrega verdadeira, amizade, respeito e alegria. Que a cerveja Corona não amplie suas vendas.

Que a Economia e o Mercado deixem de ser o parâmetro de todas as coisas. Que quem abraçou a violência se arrependa. Que o preconceito seja desconstruído pela inteligência e pelo amor.

Que haja lealdade e respeito entre colegas de profissão. Que a ciência descubra a cura definitiva para tantas enfermidades, incluindo as da mente.

Que a moda se volte para a verdadeira criatividade. Que a cor de cada pele seja contemplada como signo de beleza. Que as mulheres e os homens se libertem da ditadura da eterna juventude.

Que envelhecer seja apenas mais uma bela etapa da vida e não uma antecipação da morte. Que o mau-gosto seja apenas um traço individual de personalidade que não prejudica ninguém e não um produto vendido para emburrecer as massas.

Que ninguém precise ter medo de andar pelas ruas do mundo. Que não haja mais armas. Que a palavra guerra seja acompanhada apenas por expressões como “de travesseiros” ou “de confetes”.

Que não precisemos de medalhas, competições e vaidades para nos sentirmos admiráveis. Que reconheçamos nossa ignorância e busquemos aprender todos os dias.

Que o continente africano possa reescrever sua história até que a infâmia do genocídio cometido em África pelas sociedades escravocratas seja apenas um registro de dor em um continente pleno de justiça, paz, igualdade e amor.

Que a mentalidade dos governos dos países ricos se renda à verdade histórica da exploração milenar da pobreza alheia e atue em prol das necessárias reparações e da luta por mais igualdade.

Que ninguém passe fome. Que a imprensa deixe de ser refém do mercado e pare de manipular a verdade para atender à lógica do sistema cruel que rege o mundo.

Que intelectuais parem de gozar com os registros de seu lattes e ponham as mãos na massa, usando seu conhecimento para melhorar, de fato, o mundo, a começar pelo seu próprio ambiente de trabalho.

Que os homens parem de usar seus pintos para medir o mundo. Que gente violenta, obtusa, manipuladora e cruel jamais chegue ao poder por meio dos votos de suas vítimas.

Que haja solidariedade entre os membros de cada família e que dividir o trabalho doméstico tenha o mesmo sentido da respiração.

Que tenhamos a coragem de enfrentar as injustiças. Que saibamos dizer não à exploração de nossas virtudes e das alheias.

Que não sejamos cúmplices por meio de nosso silêncio.

Que tenhamos a sabedoria de renunciar à tentação da futilidade em tempos de grande desigualdade.

Que possamos ser outros, já que o que chegamos a ser nos afastou da vida, porque nos converteu em moedas.

São os presentes de aniversário que peço. Com eles, eu me contentaria. Sem eles, chego aos 56 triste.

Christina (01/02/2020)

Fonte: Facebook

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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