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Racismo: Pretos também consomem

Racismo: Pretos também consomem

Racismo: Pretos também consomem. O texto a seguir é um desabafo e denúncia. Chega de humilhação ao povo preto. Quem nos traz a triste história é nossa convidada da live de amanhã, dia 02 de fevereiro. É muito triste ver que para o Mercado o tom de pele e a aparência ainda são os indicadores de quem pode ou não consumir nesse país.

Por Lucilene Kalunga
Sou cliente da operadora Vivo há mais dez anos. Na tarde de ontem (27) fui até uma loja no centro na capital Goiânia na intenção de adquirir um produto. Entrei na loja e enquanto olhava alguns produtos que estavam na exposição, infelizmente não fui atendida por nenhum vendedor. Estavam conversando entre eles e continuaram. Eu cheguei a perguntar como funcionava o atendimento ali, ninguém respondeu… então peguei o celular e resolvi fazer umas imagens do local.
É muito triste ver que para o Mercado o tom de pele e a aparência ainda são os indicadores de quem pode ou não consumir nesse país.
Nem sei se a questão é essa: talvez julguem que o dinheiro do negro vale menos, talvez não queiram vender pra um negro. Não sei.
Ah! nas imagens dá pra ver que a loja está vazia não estava cheia de clientes!
Lojistas, incluam o racismo na pauta de discussão e treinamento de sua empresa.
E lembrem-se: Pretos também consomem.
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Lucilene Kalunga

Lucilene dos Santos Rosa, quilombola Kalunga, mulher negra, mãe, graduada em turismo e pós-graduada em história da cultura afro-brasileira. Integrante do Fórum Goiano de Mulheres; integrante do Grupo de Mulheres Negras Malunga; Conselheira do Conselho Estadual da Mulher; representante civil na Comissão Especial de Promoção da Igualdade Racial do IFG, ex Conselheira do Conselho Estadual de Igualdade Racial. Esteve Gerente de Comunidades Tradicionais e Projetos Intersetoriais no governo do Estado Goiás. Foi assessora da Comissão de Direitos Humanos e Coordenadora do Programa Parlamento Jovem na Câmara e Municipal de Goiânia.

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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