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Quem são os tatus?

Quem são os tatus?

Quem olha para o Brasil de hoje não consegue entender como chegamos ao que vivemos atualmente. Nove de dez ou dez de dez pessoas que expressam minimamente suas ideias, que representam gente na sociedade, criticam, de forma mais ou menos dura, o presidente que o Brasil tem hoje. As pesquisas escondem que entre os formadores de opinião a imagem do atual presidente do Brasil é péssima, rejeitada por quase todo mundo.

Por Emir Sader

Quem apoia o presidente e seu governo não costuma expressar as razões. Há os que elogiam sua política econômica – razão pela qual o empresariado e boa parte da mídia apoiam o governo -, mas não conseguem articular essa posição com sua visão mais geral do governo.

Não conseguem dizer como um presidente que xinga seus adversários, que trata a mídia como adversária desqualificada, que exibe a pior imagem do Brasil no mundo, que defende os piores valores, que briga com aqueles que o apoiam, que fere toda forma de decoro que seu cargo minimamente exige – como esse personagem pode ser responsável por uma política econômica que eles consideram favorável ao Brasil.

Como uma pessoa que vários órgãos da mídia – senão todos – afirmam em seus editoriais que não tem condição de ser presidente faz uma política econômica que eles consideram correta, a melhor para o Brasil?

 

Enquanto um professor universitário, com tantos atributos que eles considerariam mais favoráveis para exercer o cargo, não foi apoiado por eles, que preferiram essa pessoa monstruosa? Porque aquela pessoa pregava outra política econômica para o Brasil.

Porque seu governo representaria a prioridade das políticas sociais, para diminuir as desigualdades no país mais desigual do continente, porque representaria garantir e estender os direitos da massa da população. Em suma, na linguagem corrente, representaria a volta de um governo do PT.

A razão fundamental pela qual tanta gente votou no atual presidente foi a hostilidade ao PT e a rejeição a um governo petista, com essas características. Preferiram entregar o país a um aventureiro do que conviver com um governo de desenvolvimento econômico com distribuição de renda.

Entre o atual presidente e Haddad, preferiram aquele, na hora de decidir os destinos do Brasil, sabendo quem era ele. Agora muitos dizem que se arrependem. Mas não dizem como puderam fazer aquela escolha. Como puderam colocar o tatu lá em cima, já que tatu não sobe lá sozinho?

Votariam em quem, se as eleições fossem hoje? De novo em qualquer um, menos no PT? Querem o caso inexistente de alguém que defenda sua política econômica neoliberal, mas sem votos, sem apoio popular? Ou voltariam a preferir quem detém votos pelos apelos ao que de pior tem as pessoas: as discriminações, os ódios de classe, as ofensas no lugar do debate, as exclusões no lugar da convivência na diversidade?

Esse alguém não existe hoje no Brasil. Existiu com FHC, que dilapidou a possibilidade de políticas de direita com apoio popular, fazendo com que os candidatos do seu partido fossem em seguida sucessivamente derrotados por quatro vezes. E que, nas eleições de 2018, não superavam os 5% de votos.

Só restou à direita, que tem no neoliberalismo sua essência, um líder como esse, que eles rejeitam no estilo de governar, mas toleram na política econômica. A forma e o conteúdo coincidem: só mesmo um tipo desqualificado como esse pode obter apoio suficiente para se eleger, mediante tramoias e ilegalidades. Só um tipo assim conseguiu, dessa forma, impedir o governo do PT.

Quem quer restabelecer um governo democrático, legítimo, com decoro, com respeito internacional, com apoio popular, só pode encontrar essa alternativa nos governos que promoveram o crescimento econômico com democratização social, que o fizeram dentro da democracia, do respeito às diferenças, governando para todos.

Os tatus são os que só atentam para seus mesquinhos interesses econômicos, os que se orientam por valores sectários, fanáticos, de ódio e de exclusão do outro. Eles, com os que agora se dizem arrependidos, colocaram o tatu lá em cima. Fizeram a escolha antidemocrática, a favor dos seus interesses econômicos estreitos e dos preconceitos contra o povo e contra o PT.

Só a democracia pode tirar o tatu lá de cima e substituí-lo por quem representa o povo, os direitos sociais, os interesses da grande maioria, o respeito pela diversidade e a imagem de um Brasil justo e soberano.

Emir Sader – Sociólogo, um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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