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Quem você traria de volta ao mundo dos vivos?

Quem você traria de volta ao mundo dos vivos?

No bate-papo da mesa do restaurante com amigos, um querido e habitual conviva dos nossos almoços de sexta-feira lança uma pergunta para todos. Um desafio:

— Se você tivesse o poder de trazer de volta uma ou um grande artista do Brasil, compositor ou cantor etc, já falecido, qual deles seria?

Um amigo,  sentando à minha direita, explicou antes de dizer o nome de quem ressuscitaria e por qual razão o traria de volta ao mundo dos viventes. Disse que considerava a importância e a qualidade da obra do artista escolhido e mandou: – Tom Jobim.

Evidentemente, todos aplaudimos a “ressurreição” do brilhante maestro Antônio Carlos Jobim, falecido em Nova Iorque em 1994.

Charles, à minha frente, pensou, pensou e defendeu “o retorno” de seu artista predileto. Ressaltou a beleza de suas composições, a leveza de sua poesia, a doçura de suas melodias: – Dorival Caymmi.

Novamente todo mundo gostou. Tanto que, sentado mais numa ponta da mesa, e em admiração um conterrâneo do Cancioneiro da Bahia declinou o título de algumas de suas composições: “O Samba da Minha Terra, “É Doce Morrer no Mar”, “Maracangalha”, “Marina”, “Dora”, “Rosa Morena”, onde vais morena Rosa, com esta rosa no cabelo e esse andar de moça prosa?…”

Já o amigo sentado à minha esquerda, não pensou duas vezes. Falou que sua escolhida para voltar à vida era dona da voz mais bela e repertório mais completo dentre todas as cantoras. E, firme, apontou: — Elis Regina.

Evidentemente, ninguém discordou. E até fez-se pausa para relembrar de momentos marcantes da vida de Elís, quando por exemplo interpretou “Casa no Campo”, “Como Nossos Pais”, “O Bêbado e a Equilibrista”, “Fascinação”…

Alex também concordou com o amigo sentado ao seu lado, mas disse que apontaria duas outras cantoras que fazem parte do topo no hall da fama brasileira de maneira incontestável: Clara Nunes e Elitzeth Cardoso. Gerou a maior discussão porque era para dizer somente um nome. Ele fincou pé e, em reconhecimento à qualidade das duas artistas, ficou valendo sua dupla escolha.

Já o Júnior não teve dúvida. Cantou “…as rosas não falam, simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti…” e cravou: — Cartola. Com certeza, mereceu palmas.

Uma a amiga que está sempre em nossa mesa emendou dizendo parte do magnífico poema de Vinicius de Moraes, seu eleito para ganhar nova vida em nosso mundo: — A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Mais uma vez, é claro que nenhum de nós discordou.

O Xará, conhecedor profundo da música brasileira, queria citar cinco ou seis artistas falecidos e que ressuscitaria. Como só podia um nome, optou por dizer Paulo Vanzolini. Lamentou não poder incluir outro conterrâneo seu, de São Paulo, Adoniran Barbosa, também autor de canções inesquecíveis, retratos da cotidiano urbano.

Carlos também fez dupla citação: Lúcio Alves e Dick Farney. Defendeu e ressaltou a leveza com que entoavam a Bossa Nova. Mas reafirmou que o recém-falecido João Gilberto seria seu escolhido para ganhar nova vida por ter concebido pérolas de nossa música.

E o bate-papo seguiu, com cada um da mesa escolhendo vários artistas a quem ressuscitaria se tivesse o poder de dar-lhes nova vida. CazuzaZé KétiÂngela MariaNelson Cavaquinho, Renato RussoGonzaguinhaNelson GonçalvesPixinguinhaNoel RosaJamelãoCássia EllerLupicínio RodriguesMaysaCauby Peixoto, Carmem Miranda, Simonal, Baden PowellRaul Seixas, Heitor Villa-Lobos, Belchior, Ari Barroso, Nara Leão, Tim Maia

Uma lista sem fim.

Todos tinham suas razões. E boas razões para querer ressuscitar o artista de sua preferência. Até que chegou minha vez.

E eu, que havia pensado em vários artistas, tive que obedecer a decisão de ficar com um somente. Antes de dizer o nome do meu escolhido, falei da sua importância para a integração do Brasil inteiro com suas canções de força incontestável e que botou o Sertão do Nordeste para sempre nas paradas musicais: — Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, a quem fotografei várias vezes. Pronto, falei.

Escolha difícil. E você, quem traria de volta ao mundo?

Fonte: Os Divergentes


 

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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