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Querem nos calar quebrando nossos pescoços

Querem nos calar quebrando nossos pescoços

A deputada do Rio de Janeiro, Mônica Francisco, analisa o racismo nos recentes casos de violência policial que atingiram a população negra e se refletem nas estatíticas sobre segurança pública

[divider]Texto: Mônica Francisco |[/divider]

 
Não faltam casos. E, para mostrar que não, vimos as cenas das botas da Polícia Militar sobre o pescoço de uma mulher negra, de 51 anos, na periferia da cidade de São Paulo. Aquelas botas, pisando o pescoço, dizem muito sobre esse momento contínuo – de violações – e sombrio que vivemos no país.

Momento que uns vivem mais que outros, um jovem negro é morto a cada 23 minutos. Foi também em São Paulo que um empresário branco, morador de um condomínio de luxo, no Morumbi, desacatou a polícia. Ele não teve o pescoço pisado, ele não foi imobilizado, não foi derrubado, não ganhou uma gravata.
A mulher, periférica e pobre, trabalhadora, falou com o policial, defendendo um amigo que era espancado. Ela apanhou, teve o osso da perna quebrado com um chute. Ela foi pisada no pescoço. O policial apoiou o peso dele sobre o pescoço da mulher. O rosto dela foi esfregado no asfalto enquanto era algemada. Não são casos isolados: todas as pessoas assassinadas pelo braço armado do Estado em cinco cidades do Rio de Janeiro eram negras, entre elas mulheres e crianças, mostra o Mapa da Desigualdade da Casa Fluminense. São práticas constantes da política genocida executada pela polícia, sempre blindadas pela impunidade dos agentes da lei.
Foi outro dia que um policial pressionou seu joelho para manter a face da mulher negra no chão, para destruí-la, para dizer que ela não pode manter a cabeça erguida, para dizer que ela não pode falar nem ocupar espaços de poder. Foi outro dia que Claudia Silva Ferreira foi arrastada, enlameada, assassinada e seus algozes nunca foram punidos. Não faltam abordagens violentas. O recado é claro. Que a polícia não trata todo mundo igual, sabemos. Não são despreparados, não é falta de reciclagem ou de treinamento. Tanto não é que o empresário, mesmo agredindo o policial, não sofreu nenhum dano e teve sua integridade física mantida.
É racismo mesmo! É a certeza que para a estrutura, a vida negra e pobre vale menos. Ou não vale nada. A polícia e suas sucessivas violações não querem se submeter às reivindicações de civilidade e respeito aos direitos. Negros e negras são as principais vítimas de violência no país.
O relatório da Rede de Observatórios da Segurança do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), do período de maio de 2019 a junho de 2020, aponta que a taxa de homicídios no Brasil, uma das mais altas do mundo, é de 28 por 100.000 habitantes: “Entre os jovens negros do sexo masculino, na faixa de 19 a 24 anos, a taxa é de mais de 200 a cada 100.000 habitantes. Os negros são 75% dos mortos pela polícia. A desigualdade inaceitável desses números revela o racismo nosso de cada dia”.
Mesmo com toda comoção causada pelo assassinato de George Floyd, no final de maio, nos Estados Unidos, seguimos assistindo os casos que não são isolados. Em São Paulo, no Rio, na Bahia, e em todo lugar desse país, constituído sobre a barbárie da escravidão. Sobre a servidão de um povo. A escravidão é nosso berço, como diz Jessé Souza: “Nossa forma de família, de economia, de política e de justiça foi toda baseada na escravidão”.
São essas bases, que também sustentam a barbárie, que formam essa barbárie precisam acabar. Não haverá Brasil para todos enquanto forem usados coturnos e joelhos sobre os pescoços que já foram acorrentados. É preciso reação constante. O ato de pisar pescoços, assim como a asfixia de Floyd, é o recado claro dos que querem silenciar as vozes de um povo que, acreditam, não pode ter a cabeça ereta. A dignidade refletida em um corpo altivo, que além de trabalhador, é dono da própria história e identidade.
Essa história não será apagada na sola do sapato. Ninguém mudará a história daquela mulher, pisada no pescoço. Uma viúva, com cinco filhos e dois netos que trabalhava para se sustentar. Ela, como a maior parte das mulheres negras, é a responsável pela sobrevivência da família, na luta constante para se equilibrar na linha da pobreza. É isso que confirma a Síntese dos Indicadores Sociais (IBGE): 63% das casas chefiadas por mulheres negras no Brasil vivem abaixo da linha da pobreza.
Durante a pandemia do coronavírus, são as mulheres negras as mais impactadas pela pandemia, por serem maioria no trabalho doméstico e minoria em boa parte dos serviços essenciais. E, nesse contexto, é que ela conta: “Ele me empurrou na grade do bar, me deu três socos, me deu uma rasteira para me derrubar, ele quebrou minha tíbia”.
Mônica Francisco é deputada estadual e vice-presidente da Comissão de Combate às Discriminações e Preconceitos de Raça, Cor, Etnia, Religião e Procedência Nacional da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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