Reserva Extrativista Chico Mendes vive tensão social e crise ambiental
A Reserva Extrativista Chico Mendes, localizada no Acre, enfrenta uma das fases mais críticas desde sua criação
Por Marcos Jorge Dias
Entre ameaças de incêndios, conflitos fundiários e uma seca histórica, lideranças locais alertam para o risco de incêndios e a crescente situação de conflitos na região.
Segundo Júlio Barbosa, presidente do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS) e morador da colocação República, no Seringal Dois Irmãos, a situação é “extremamente grave”. Ele denuncia rumores sobre incêndios premeditados dentro da reserva, agravados pela estiagem severa que já compromete o abastecimento de água para centenas de famílias.
A crise hídrica afeta também a bacia hidrográfica de Rio Branco, composta pelo rio Acre e o Riozinho do Rola, ambos impactados pelo avanço do desmatamento. Sem medidas urgentes de restauração ecológica, especialistas alertam que a capital acreana pode enfrentar um colapso hídrico.
Conflitos fundiários e operação federal
Desde o início de junho, a tensão na Resex aumentou com a deflagração da “Operação Suçuarana”, conduzida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em cumprimento a uma decisão judicial. A ação resultou na retirada de invasores que praticavam pecuária ilegal na comunidade Maloca, dentro da reserva.
A operação provocou manifestações e ameaças, incluindo o fechamento da BR-317, no entroncamento de Xapuri. Júlio e Raimundo Mendes Barros (Raimundão) relatam ataques pessoais, disseminação de fake news e tentativas de deslegitimar o movimento extrativista.

O clima de hostilidade remete aos dias que antecederam o assassinato de Chico Mendes, em 1988, quando o líder seringueiro foi alvo de ameaças e difamações por defender a floresta e seus povos.
Caminhos para a restauração
Apesar dos conflitos, Júlio e Raimundão acreditam que a maioria dos moradores da reserva apoia a regularização fundiária e a proteção ambiental. Segundo eles, cerca de 200 famílias vivem em situação irregular e precisam ser realocadas para garantir o ordenamento do território.
A Reserva Extrativista Chico Mendes abriga cerca de três mil famílias que dependem da floresta para sobreviver. Sem ações coordenadas de proteção, fiscalização e recuperação ambiental, o legado de Chico Mendes corre o risco virar pasto de boi.
Marcos Jorge Dias é escritor, jornalista e membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri.