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‘Retratos fantasmas’: Mendonça e o cinema pernambucano 

‘Retratos fantasmas’: Mendonça e o cinema pernambucano 

“Retratos Fantasmas” retoma a história do Cine São Luiz, uma dos últimas salas de cinema de rua no centro de Recife

Por Bia Abramo/Revista Focus Brasil

Se ainda há sentido em falar em cinema pernambucano nos anos 20 do século 21, “Retratos Fantasmas” é sua obra mais pungente desse recorte. A película, que arrebatou elogios no último Festival de Cannes e estreou na última semana no Brasil, parece ser, à primeira vista, um documentário sobre o Cine São Luiz, cinema de rua no centro do Recife. É o cinema de referência, aliás, de toda a geração de cineastas surgidos no final da década de 1990 e que fez sua grande entrada na cinematografia nacional com “O Baile Perfumado”, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas.

Kleber estreou em longa-metragem justamente com o documentário “Crítico”, em 2008, mas foi seu primeiro longa ficcional “O Som Ao Redor”, de 2013, história de diversos cruzamentos urbanos em um bairro de classe média na capital de Pernambuco, que causou impacto para o público não-especializado. De 2013, o filme não apenas trazia um pedaço da história do presente, com os traços da especulação imobiliária cercando as poucas casas a ponto de sufocamento, como, de certa forma, já apontava para as diversas barbáries urbanas daqueles anos convulsos. Em “Aquarius”, de 2016, de novo, temos um edifício como cenário e, digamos, personagem principal de uma história de teimosia — trata-se de uma mulher, interpretada por Sônia Braga, que se recusa a deixar o apartamento que ocupa no Edifício Aquarius, indiferente aos apelos dos filhos, às tentativas de despejo dos corretores de imóveis e do cerco dos prédios em volta. 

Dono de uma cinematografia politizada e surpreendente na forma narrativa, Kleber estreou em 2019 “Bacurau”, um distopia passada no agreste pernambucano, filme de cangaço & vingança, da revanche dos oprimidos. Naquele terrível ano, primeiro da gestão da extrema-direita, “Bacurau” ecoou como um libelo contra os horrores do fascismo que estavam por vir — e ainda, sem pandemia.

Agora,  Kleber Mendonça volta com um filme feito da tessitura das memórias afetivas daquele cinema em questão e de seu entorno. Obra feita de reminiscências pessoais e coletivas, mais um ensaio cinematográfico sobre o mundo do cinema a partir de uma tela de uma cidade perdida em seu passado e, numa chave muito colada com a sua própria autobiografia como cineasta, roteirista e produtor,  de toda essa enorme aventura do cinema contemporâneo de Pernambuco.

Se em “O Som ao Redor” a montagem sonora funciona como fio condutor, aqui são as imagens que surgem de fotografias, de filmes caseiros de todos os formatos, vídeos que entrelaçam as idas e vindas entre o passado e o presente. No início, estamos no ambiente doméstico e no baú de experimentos audiovisuais do Kleber mais jovem entre seus amigos, em seguida, num longo percurso do diretor para o centro e pelo centro de Recife em carro de aplicativo, o diretor se torna o visitante de uma história que já nem é mais tão sua, mas que testemunhou. 

Como em “Aquarius”, ele explora o contraste dos bairros beira-mar, com sua luminosidade praiana, e os aspecto sombrio e abandonado dos prédios em estados variados de decadência. No jogo de luz e sombra que dá origem ao cinematógrafo, vão se revelando algumas das histórias ligadas aos trabalhadores dos cinemas ou de suas vizinhanças, como o camelô que revirava o lixo das distribuidoras atrás de fotos, cartazes, peças promocionais de filmes que entravam em cartaz para vender…

O modo coletivo de ver os filmes em cinemas de rua leva Kleber a passear também por excertos e citações de seus próprios filmes e de outros realizadores contemporâneos. Com narração do próprio diretor, é nesse momento que o roteiro ganha uma coesão autobiográfica e biográfica de uma cidade. Mas, como não há filme de Kleber Mendonça sem surpresas, no terço final do filme, ele envereda numa investigação sobre as estranhas relações entre cinema e religião com a histórias do Cine São Luiz, erguido na década de 1950 no lugar de uma igreja, como nas transformações de salas de cinema em templos evangélicos — fenômeno inclusive, que não é exclusivo de Recife. 

No conjunto, “Retratos Fantasmas” quase beira a melancolia muitas vezes (como é próprio de muitas obras que tem a memória como matéria-prima), mas não deixa de desvelar um humor sutil, afiado do observador que também é participante. Com seu último longa, Kleber faz um ensaio sobre as diversas formas de amar o cinema, as salas de cinema e o fazer cinematográfico. 

Fonte: Revista Focus Brasil Capa: Reprodução 


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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