RUBACÃO DA PARAÍBA

RUBACÃO DA PARAÍBA

Rubacão da Paraíba

– Não deixe de comer o rubacão!, alertou-me mana Iêda quand  informei que íamos a João Pessoa. Disse-me ela que na orla ou nas barracas próximas ao Centro de Artesanato eu encontraria fácil.

Por Lúcia Resende

Lá chegando, no primeiro restaurante, perguntei se tinham “rabecão”. A resposta foi uma cara de estranheza e um sonoro não. Achei estranho, mas passei os olhos rapidamente pelos pratos do cardápio, pedimos uma carne de sol e pronto.

No outro dia, insisti, numa barraca da orla:

– O senhor tem “rabecão”?

De novo a cara de espanto e a negativa. Pedimos outro prato. Enquanto preparavam, comentamos que certamente Iêda havia se enganado, viajeira que é, e o prato recomendado devia ser de outro lugar.

Só no terceiro dia, ao examinar o cardápio, achamos a palavra mágica: RUBACÃO era o nome, e não “rabecão”. Estava explicado! Fizemos o pedido.

O prato chegando à mesa já foi aquele êxtase, porque a gente come primeiro com os olhos, né? O sabor só confirmou a primeira impressão, e o meu desafio a partir dali foi descobrir como fazer aquela delícia.

Não demorou encontrar um paraibano na feirinha gastronômica de Cabo Branco disposto a me contar todos os segredos. Ali mesmo decidi que levaria os ingredientes na bagagem e assim fiz. Comprei o arroz vermelho, o feijão “macassa” (aprendi ali que era o feijão de corda, como conhecemos aqui), o charque, a carne de sol, o queijo de coalho e a manteiga de garrafa, e enfiei na mala.

De volta, família reunida, chegou a hora de colocar em prática o aprendido e de saborear. Não houve quem não gostasse – até porque não tem como! Mana Iêda foi convidada, claro, e aprovou também. 

Foto: Tudo Gostoso

Chega de prosa, vamos ao que interessa!

2 xícaras de feijão macassa

3 xícaras de arroz vermelho ou branco

300 gramas de charque (na falta de charque, usar carne de sol)

300 gramas de carne de sol

Cebola, alho, sal e pimenta a gosto

200 gramas de queijo de coalho

1 xícara de nata ou uma lata de creme de leite

2 xícaras de leite

4 colheres de manteiga de garrafa

2 a 3 colheres de óleo

Cebolinha e coentro para finalizar

Se o feijão for maduro, deixe de molho umas duas horas, para amaciar. Dessalgue as carnes e corte-as em cubos. Corte o queijo em cubos e reserve.

Coloque o feijão para cozinhar em água e sal, até que fique “ao dente”.

Enquanto isso, em outra panela, na manteiga de garrafa, frite o alho até dourar, acrescente a cebola e refogue até que fique transparente. Junte as carnes cortadas em cubinhos, a pimenta (a gosto), refogue bem e vá pingando água para que os cubinhos fiquem macios, sem desmanchar. Reserve.

Em uma panela maior, refogue o arroz no óleo, acrescente um pouco de água (umas 4 xícaras), sal, e deixe cozinhar. Quando estiver quase seco, acrescente o feijão escorrido, o leite, prove o sal, acrescente uma pitada de pimenta do reino, misture bem e deixe terminar o cozimento.

Para finalizar, adicione o creme de leite, os cubos de carne (reservando um pouco para decorar) e o queijo de coalho. Corrija o sal, desligue o fogo e tampe a panela por cerca de um minuto, para o queijo derreter.

Aí, é só decorar com o cheiro verde e a carne reservada, levar à mesa e esperar os elogios! Hummm…

Foto: Tudo Receitas

LEIA TAMBÉM:

Paçoca de carne-seca, Pa´soca em Tupi

Os primeiros habitantes da terra do Pau Brasil já tinham o hábito de comer a pa’soca (em tupi), nossa paçoca de hoje em dia. Carregada no embornal, garantia o sustento dos que se embrenhavam na mata para caçar, ou serviam de refeição para mulheres, homens e curumins ali mesmo, na taba…

Por Lúcia Resende 

Com a chegada dos portugueses, e depois dos africanos, a farinha de mandioca socada no pilão com carne-seca ganhou outros temperos, virou paçoca, e passou a sustentar escravos na exaustão do eito, viajantes na Estrada Real, boiadeiros do Sertão da Farinha Seca, bandeirantes e garimpeiros e, já no século XX, virou a “matula” que os migrantes nordestinos carregavam no sacolejo dos caminhões pau-de-arara pelas estradas que levavam rumo ao Sul, em especial rumo a São Paulo, então uma espécie de Terra Prometida.

Em cestos, baús, latas e embornais, a paçoca de carne-seca, alimento de fácil conservação, foi trilhando novos caminhos e se incorporando à alimentação de brasileiros e brasileiras por todo o país.

Os tempos mudaram. Aqueles que se embrenhavam na mata sem fim convivem agora com as clareiras abertas pela ganância de quem explora ou pela premência do progresso.   Ou lutam como podem para preservar suas terras e, nelas, a floresta que lhes serve de sustento e abrigo.

O gado agora viaja em caminhões-gaiola; o garimpo está a cargo das grandes mineradoras, que vão deixando mais destruição pelo caminho; aquele caminhão virou objeto de recordação, porque o Nordeste não mais empurra os seus para o Sul.

A história e a geografia são outras, mas a paçoca de carne-seca permanece. Em muitos lugares, a mão-de-pilão ainda sobe e desce, num ritmo cadenciado, no preparo dessa delícia que, de tão boa, é feita até onde o pilão nem existe ou virou peça de decoração. Nesses lugares, o processador, ou mesmo o liquidificador, cumpre a tarefa. Que tal entrar na onda e fabricar a sua paçoca? A gente ensina a receita.

Ingredientes

  • 1 kg de carne-seca cortada em pedaços
  • ½ xícara (chá) de manteiga ou óleo
  • 2 cebolas grandes cortadas em pedaços
  • 3 xícaras (chá) – ou um pouco mais – de farinha de mandioca (ou milho)
  • Sal e pimenta a gosto.
  • Cheiro-verde a gosto.

Modo de preparo

Limpe a carne, retirando a pele e a gordura em excesso; coloque em uma vasilha e cubra com água, para dessalgar. Troque a água algumas vezes. Depois, escorra bem a água e reserve. Numa panela, coloque a manteiga (ou o óleo), acrescente a carne e deixe fritar um pouco. Junte a cebola e frite bem, até tudo ficar dourado e quase seco. Deixe esfriar, coloque no pilão, vá socando e acrescentando farinha aos poucos, até a carne ficar desfiada. Se não for possível socar no pilão, pode ser usado o processador, ou mesmo o liquidificador. Aí, é só corrigir o tempero, jogar o cheiro-verde e a pimenta e saborear!

Foto: Lúcia Resende
 
 

GOSTOU DESTA MATÉRIA? ENTÃO, POR FAVOR, PASSA PRA FRENTE. COMPARTILHE EM TODAS AS SUAS REDES. NÃO CUSTA NADA, É SÓ CLICAR!

Deixe seu comentário

UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

CONTATO

logo xapuri

REVISTA

© 2025 Revista Xapuri — Jornalismo Independente, Popular e de Resistência.