RUBRAS CATEDRAIS DO VELHO CHICO
O Xingó é onde a geologia escreve poesia. No coração do Nordeste, o Rio São Francisco desliza entre muralhas de pedra que se erguem como catedrais avermelhadas, moldadas por milhões de anos de paciência mineral. O vento sopra como organista invisível; a água ecoa como salmo antigo
Por Antenor Pinheiro, especial de Canindé de São Francisco, Brasil

Os paredões rubros, tingidos por óxidos de ferro, guardam o brilho quente do sertão. Ao amanhecer, são dourados; ao entardecer, incendeiam-se em tons de cobre e vinho. A cada curva do rio, a luz desenha novas texturas, revela a delicadeza do arenito que o tempo talhou.
Ali, os processos erosivos forjam esculturas, cada desgaste corrosivo, uma arte. É território vivo, onde natureza e história se entrelaçam. A construção da Usina Hidrelétrica de Xingó alterou o pulso das águas, elevou níveis, criou espelhos navegáveis. Trouxe energia, mas também o desafio de conciliar progresso e cuidado. O cânion, que já era obra do tempo, tornou-se obra humana, e pede gestão responsável de suas margens e bacia.
Em cada passeio silencioso de barco, sente-se a respiração do Velho Chico. O rio que nasce nas serras de Minas e atravessa o Brasil profundo encontra, no Xingó, um capítulo de rara beleza que sustenta comunidades, alimenta memórias e irriga esperanças. É preciso contemplá-lo como escola.
A lição está nas camadas da rocha, na água represada, na vegetação resistente que abraça as encostas. Xingó é sinfonia de pedras e correnteza. Suas rubras catedrais requerem preservação, para que futuras gerações também aprendam a ler, nas paredes do cânion, a longa história do planeta.
No silêncio ardente do sertão, Xingó nos lembra que a natureza fala baixo, mas fala profundo. Quem escuta, transforma!
Antenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri.
Capa: Feel.visitbrasil/Divulgação










