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Sonia Guajajara: Não quero mais ver meu povo sofrer

Sonia Bone Guajajara: Não quero mais ver meu povo sofrer 

“Não quero mais ver meu povo sofrer, não quero mais ver meu povo morrer, não quero mais enxergar tanta omissão, tanta violência, não quero mais olhar meu povo sendo assassinado pela bala legalizada do latifúndio!! Não consigo mais aceitar tanta impunidade!!!”

O POVO GUAJAJARA

Os Guajajara, cujo nome significa “donos do cocar”, ou Tenetehára, “seres humanos verdadeiros”, são um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil, habitam 11 Terras Indígenas (TIs) todas na área central do estado do Maranhão, nas regiões dos rios Pindaré, Grajaú, Mearim e Zutiua, em áreas cobertas pelas florestas altas da Amazônia e por matas mais baixas, de transição entre a Amazônia e o Cerrado , chamadas de Cerradão.

Em contato com a sociedade nacional há quase 400 anos, os Guajajara conseguiram manter sua língua própria, a ze’egete, que se traduz como “a fala boa”, da família do tupi-guarani. Nas aldeias, comunicam-se em seu idioma. O português é utilizado como segunda língua, e para os contatos com o mundo exterior.

A população dos Guajajara, estimada em cerca de 3 mil na época do contato, é hoje, segundo a Funai, da ordem de 13 a 15 mil pessoas vivendo nas aldeias. Existe também um número desconhecido de indígenas vivendo em cidades como São Luís, Barra do Corda, Grajaú, Imperatriz e Amarante. Nas TIs, vivem aldeias de até 400 pessoas, cada aldeia com seu próprio cacique ou capitão.

Os Guajajara vivem da lavoura de subsistência, organizada por unidade doméstica (famílias). Juntos, plantam pequenas unidades (entre 1,25 e 3,5 hectares) de mandioca plantam grandes roças comunitárias de arroz e frutas para a comercialização. A dieta é complementada com a caça e a pesca. A coleta ainda é praticada por quase todos os guajajara, mas essa atividade está sendo cada vez mais substituída pela fruticultura nas aldeias e roças. O produto que mais coletam é o mel de abelha, que vendem para os brancos.

A partir dos anos 1970, com incentivos recebidos da Funai, os guajajara voltaram a produzir arte plumária, adornos, armas e cestaria. Voltaram, também, a usar pintura corporal, tanto em suas festas e rituais, quanto em suas manifestações políticas, hoje cada vez mais necessárias por conta da violência de madeireiros e fazendeiros contra o povo Guajajara.

SITUAÇÃO ATUAL DO POVO GUAJAJARA

“Atualmente vivemos em situação de risco dentro da própria casa, embora com as Terras demarcadas, registradas e homologadas, somos constantemente ameaçados, caçados e assassinados por invasores – fazendeiros, madeireiros e mercenários que vivem da pistolagem, que destroem, roubam, matam e ainda tentam acabar com os nossos costumes e tradições, ameaçando, assim, a vida de homens e mulheres indígenas de nossa região.” – Sonia Bone Guajajara

APREENSÃO DOS POVOS INDÍGENAS SOBRE OS PASSOS DO GOVERNO INTERINO COM RESPEITO À POLÍTICA INDÍGENA – NOTA DA APIB:

NÃO AOS RETROCESSOS, NÃO À INDICAÇÃO DE MILITAR NA PRESIDÊNCIA DA FUNAI!

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, entidade nacional que congrega organizações indígenas das distintas regiões do país, vem de público manifestar seu veemente repúdio às articulações fechadas entre o líder do governo na Câmara dos Deputados, deputado André Moura, do Partido Social Cristão (PSC) e o deposto ministro do Planejamento e réu da Operação Lavajato, senador Romero Jucá (PMDB), de longa trajetória anti-indígena, que culminaram, nesta semana, com a indicação, ainda não consumada, do general Roberto Sebastião Peternelli ao cargo de Presidente da Fundação Nacional do Índio – FUNAI.

A só cogitação do general para a presidência do órgão indigenista gerou revolta e indignação entre os povos e organizações indígenas e suas redes de aliados no Parlamento e em amplos setores da sociedade. Nada por acaso. Sabe-se que o indicado, que foi candidato a deputado federal pelo PSC em São Paulo em 2014, e não conseguiu se eleger, é a favor da PEC 2015, portanto contra a demarcação das terras indígenas, além de enaltecedor do golpe militar de 1964 e dos feitos da ditadura.

Certamente ele virá, se efetivamente nomeado, a militarizar a política indigenista, com todas suas imprevisíveis conseqüências, fortalecendo a perspectiva do Estado policial que está sendo instalado no país, com a criminalização dos movimentos sociais.

Essa absurda indicação, que segue à invisibilidade dada à FUNAI na estrutura do Ministério da Justiça, ao corte orçamentário da instituição, à inviabilização do Conselho Nacional de Política Indigenista – CNPI, ao aniquilamento de outros órgãos de governo que tratavam de políticas voltadas aos povos indígenas, como o Ministério de Desenvolvimento Agrário – MDA, a Secretaria de Direitos Humanos, a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão – SECADI no Ministério da Educação, entre outros, certamente reflete a determinação do atual governo interino de Michel Temer de travar de vez quaisquer tipos de avanços e regredir ou suprimir as conquistas alcançadas nos últimos 28 anos na Constituição Federal e nos tratados internacionais assinados pelo Brasil a respeito do reconhecimento da diversidade étnica e cultural dos povos indígenas e de seu direito originário a suas terras tradicionais.

A perspectiva, não tem outro nome, é nada mais do que a de uma política etnocida e genocida, que quer o fim dos povos indígenas, hoje mais do que nunca considerados pela elite de plantão empecilhos ao chamado desenvolvimento e progresso, o vil capital.

A APIB, acolhendo o clamor de suas bases, reitera que os povos e organizações indígenas de todo o país estão em estado de alerta e dispostos a não admitir retrocessos de nenhum tipo, a começar pela indicação de um militar que impossibilitará quaisquer condições de diálogo na construção das políticas públicas que a esses povos interessa como, mesmo com dificuldades, vinha acontecendo no governo afastado de Dilma Rousseff.

PELO NOSSO DIREITO DE VIVER

Brasília – DF, 30 de junho de 2016
Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB
Mobilização Nacional Indígena

Sonia Bone  Guajajara – coordenadora nacional da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, faz parte do povo Guajajara e vive em Imperatriz, no Maranhão.

OBSERVAÇÃO: Foto texto e nota da APIB importados da página de Sonia Bone Guajajara no Facebook.


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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