Trânsito em julgado

TRÂNSITO EM JULGADO

Trânsito em julgado

Vou lhes apresentar a Advogada, uma mulher de meia idade, casada, com um filho; muito inteligente, e aparentemente, autossuficiente. Uma mulher sensual, com um olhar expressivo, muito segura de si…

Por Giselle Mathias

Ela não precisa de homens para validá-la, seu pai a construiu. Sabe o que quer e não permite ser usada, observa o seu espaço, mas age com a habilidade e o instinto de sobrevivência feminino. Tem consciência sobre como se postar para ter seus ganhos no mundo patriarcal, por isso circula bem no universo como ele se apresenta.

Nos conta que não é só nas relações amorosas que nos deparamos com as situações de dominações, e por este motivo, resolve falar sobre uma situação que vivera no trabalho, em uma sociedade com homens que se mostraram machistas tanto quanto em uma relação amorosa.

Ela falou sobre várias situações e contarei sobre algumas aqui. Confesso que me inspira, a sua liberdade, e como se vê nesse mundo, mas ela diz que como todo ser humano tem suas dores e derrotas, mas jamais desce do salto, de preferência um salto agulha.

A primeira história que vou contar é sobre uma sociedade que firmara com um colega de faculdade, a qual não prosperou, e não foi nada fácil lidar com o fim. Ela entende que não deve se submeter a ninguém, se não há parceria, não permanece.

No início de sua carreira, após o convite de um colega da faculdade, decidiu constituir uma sociedade com ele. Eles se davam muito bem, conversavam e debatiam sobre assuntos diversos, e isso a deixou tranquila e empolgada para abrir um negócio com o colega de profissão.

O Sócio no começo se mostrava muito solicito e trabalhavam bem, mas com o passar do tempo começou a observar a tentativa dele em dominá-la, e diante dos clientes se colocava como se fosse o poderoso chefão, e a advogada sua funcionária, isso a incomodava, por diversas vezes tentou dialogar sobre o assunto, mas ele sempre dizia que era impressão dela.

Diante de um caso complexo, decidiram formar uma parceria com outro escritório, tudo correu bem na reunião para tratar do assunto, ela expôs sua tese, a qual foi acatada, e ao final já tinham traçado a estratégia a ser utilizada. A Advogada disse que se sentira muito bem, pois para ela a sintonia profissional estava posta nessa parceria.

Quando saíram do escritório, para sua surpresa, seu sócio olhou para ela, e proferiu a seguinte sentença:

– Eu lhe trouxe aqui para ouvir, e não falar!

Atordoada com a fala, a Advogada reagiu:

– Nunca mais fale assim comigo, a tese foi desenvolvida por mim, você mal sabia do que se tratava o caso!

Ele se calou, e percorreram todo o trajeto até o escritório deles em silêncio.

A Advogada nos mostrava, ao relatar a história, que o machismo e o patriarcado não se reduzem aos encontros amorosos. Vimos a falta de consideração, a tentativa de submeter e dominar, que permeiam a maioria das relações. Quantas vezes passamos por isso no trabalho, e nos silenciamos, seja porque ficamos estarrecidas com essas atitudes, ou pelo medo da reação, ou até mesmo pelos nossos padrões culturais que nos ensinam a silenciar frente ao macho.

Ficamos estarrecidas com a fala do Sócio, e, atentamente, continuamos a ouvir a história da Advogada.

Após aquela reunião, e o absurdo que ouvira do Sócio, aquela parceria se desfez, tornou-se uma relação de desconfiança e com muitos atritos entre eles.

A sua reação à tentativa de dominação, o tornou agressivo. No início acreditara que a relação havia se tornado competitiva, que talvez ele estivesse passando por algum problema pessoal, mas com o tempo percebeu que as atitudes dele eram uma tentativa de minar sua confiança, de desestabilizá-la; ele não queria mais dominá-la, mas, sim, destruí-la.

Aquela sociedade estava se tornando insustentável, não havia mais o respeito e consideração um pelo outro; mas ela decidira permanecer por mais um tempo, era seu trabalho, o sonho de prosperar com alguém que no princípio se mostrava como companheiro, que a respeitava e a tratava com igualdade.

A situação se agravava, e o desrespeito passou a imperar naquela sociedade. Diante do que se apresentava, ela precisava tomar uma decisão; e como sempre o dar um basta, finalizar aquela relação, estaria, mais uma vez, nas mãos de uma mulher.

O Sócio começou a desconsiderá-la de uma forma tão acintosa, que começara a quebrar os acordos feitos por eles no início da sociedade. Ele desrespeitava o local de trabalho, um dos tratos era não levar ao ambiente do escritório nada, nem ninguém que não dissesse respeito as atividades profissionais.

Mas, ele passou a levar várias mulheres com as quais não tinha nenhum compromisso, sempre as tratando como objeto, e de forma descartável. Nos contou que ele as apresentava como namoradas, se trancava em sua sala, e era possível ouvir por todo o local os sons que de lá saiam.

Era insustentável aquela situação, e apesar de reclamar, ele permanecia com esse comportamento, sabia que a incomodava, não só pelo desrespeito em relação a ela, mas, também, porque toda a semana o via iludir e enganar aquelas mulheres, e nada podia falar com elas, se silenciava.

Ainda o ouvia dizer a um colega que era assim mesmo, que elas gostavam, ficavam com ele porque queriam, as mulheres são assim, querem ser iludidas, se envolvem facilmente, pois todas querem um relacionamento, e ele lhes dava o que desejavam. Mas, é obvio, que uma não sabia da outra, acreditavam ser as únicas e especiais em sua vida, pois essa era a crença que ele lhes vendia.

Isso a atormentava, ele fazia questão de mostrar-lhe toda a sua desconsideração por outro ser humano, toda a sua falta de responsabilidade emocional com aquelas mulheres, com o ambiente de trabalho, com a sociedade deles. Chegou a contar a história de uma delas, expondo-a.

Disse que a moça teria tentado cometer suicídio quando ele finalizou o suposto “namoro”. Falou isso com um certo orgulho, como se fosse “o cara”, aparentava, uma satisfação egóica em ter tantas mulheres disponíveis e emocionalmente aprisionadas por ele. 

Percebo que a atitude do Sócio é extrema, mas elas existem, e confesso querer acreditar que uma pessoa como essa é vazia, e busca preencher esse espaço, adoecendo outras pessoas com suas ilusões, mas, ilude a si mesmo, acreditando que é amado, jamais será capaz de preencher seu vácuo, pois não respeita a si próprio, sabe que assim como trata o outro como descartável, também é considerado como dispensável quando perde sua utilidade.

Ela não aguentava mais, mas procurava o momento certo para encerrar a sociedade, sabia que o fim geraria prejuízos. Porém, a gota d’água para a Advogada aconteceu em uma reunião com clientes, e após a exposição da estratégia a ser tomada no caso apresentado, o Sócio disse a ela, na frente de todos, que ela deveria se calar, porque se comportava como uma “Opressora Intelectual do masculino”.

Aquela sociedade chegara ao fim, não era mais possível aceitar a tentativa dele de destruí-la! Ainda mais na frente de clientes. Percebeu que ele não se contentou em cometer os abusos morais, mas, também, o psicológico, financeiro e profissional!

A Jornalista disse que, infelizmente, essa é a realidade de muitas mulheres no ambiente de trabalho, tem uma amiga Engenheira que recebe menos do que o colega Engenheiro, exercendo a mesma função. Comentou que também já passara por situações similares, o assédio moral e sexual faz parte da rotina laboral feminina.

Perguntei à Advogada como ela conseguiu lidar com o fim da sociedade, com o fim de algo que se dedicara tanto, e de uma forma tão brutal.

Nos contou que o apoio do seu parceiro, o homem que está ao seu lado, que a trata com igualdade, cumplicidade e franqueza, foi fundamental. Assim, como o de sua família e amigos que estiveram ao seu lado. A Advogada é uma pessoa transparente, não tem travas e nem medo da verdade, ao contrário, prefere ouvi-la, acredita que somente assim poderá compreender a si e ao outro.

Está aberta às críticas, e as escuta com leveza, absorve aquilo que lhe diz respeito, considera o outro e a situação. Mesmo que não concorde, procura entender e respeitar o que lhe é apresentado, e modifica-se quando percebe que causou dor. Ela não tem receio em reconhecer seus erros, e pedir desculpas. Sempre está se avaliando, e pede que lhe mostrem seus equívocos e acertos.

Não é fácil ser uma pessoa como ela, é muitas vezes incompreendida, talvez, porque as relações pessoais também estejam pautadas a partir da competição, da necessidade de destruir o outro para “vencer”, a cultura do superficialismo do capitalismo, aprofundada pelo neoliberalismo que impera nos tempos atuais.

Mas ela encontrou um parceiro, não por sorte, mas porque como ela existem outras pessoas que enxergam a humanidade, que se responsabilizam e não veem a competição como saudável, nem acreditam na descartabilidade e utilitarismo do ser humano, entendem a vida com solidariedade, cooperação e compreensão, não imposta só a um, mas a ambos.

Fico feliz por ela, e me dá até uma esperança. Quem sabe é possível encontrar alguém que pense e encare a vida como nós, que esse vazio dos desencontros, das ilusões vendidas, do sentimento de descartabilidade não seja o comum, mas a exceção nas relações humanas.

Pedimos a Advogada para nos contar o segredo dessa relação, no que ela se prontificou, mas nos disse que não há segredos, mas respeito, compreensão e o encontro entre humanos.  

A história do encontro deles é ótima, mas ela nos diz que não há nada de mágico, do destino, ou de almas gêmeas, mas apenas a escolha de se conhecerem, de se respeitarem e considerarem o desejo um do outro, eles não se veem como descartáveis.

Ela adora caminhar, não gosta de academias, como uma boa leonina adora sentir o sol em sua pele. E em uma dessas caminhadas um homem se aproximou, e com um sorriso lhe perguntou sobre sua tatuagem na panturrilha da perna esquerda.

A tatuagem de Têmis, a Deusa grega da Justiça, mas a dela não possui venda, está com os olhos abertos, porque só assim poderá fazer Justiça, somente, assim, verá a desigualdade social, e enxergará a realidade do sistema, que explora e oprime seus cidadãos.

O sorriso estampou o rosto dela, ele sabia o significado da sua tatuagem!

Resolveram continuar a caminhada juntos, mas antes ele lhe mostrara que assim como ela, também na panturrilha esquerda, tinha uma tatuagem, Odin, o Deus que lhe representava, na força do caráter e na aparência física.

Ela Advogada e ele Policial Federal, os dois com a mesma formação, mas vão além, amam filosofia, política, sociologia, querem compreender o humano, são solidários e acreditam na cooperação e na humanidade, respeitam a individualidade um do outro, sem desrespeitar a parceria que constroem.

Não foi amor à primeira vista, nem uma paixão avassaladora, foram construindo o afeto, a cada encontro iam se desnudando, mostrando o humano de cada um, suas expectativas, desejos, manias e defeitos. Quanto mais se mostravam, maior se tornava o sentimento um pelo outro, a conexão acontecia e fluía com naturalidade, sem que eles permitissem a instalação de qualquer trava ou medo que adquiriram das relações anteriores; os superaram. Queriam o mesmo, o encontro de humanos, sem os jogos, sem a dominação, apenas com a reciprocidade e igualdade entre eles.

A Advogada sempre teve um lema e o repetia quando nos encontrávamos, nas nossas noites de encontro, dizia que nas relações “corria 100 metros rasos, nunca teve disposição de correr maratonas”, e a história dela com o Federal, retrata essa atitude.

Sempre que conhecia um homem, o observava atentamente, cada fala, atitude, gestual, e como a tratava. No início muitos elogios, mostravam muito interesse para encontros, e a tentativa de mostrar-lhe que tinham muito afinidade, mas percebia que fazia parte do jogo da conquista, e isso a entediava, observava que o movimento masculino era sempre o mesmo, seja com ela, conosco e com todas as suas amigas.

Nunca suportou o comportamento padrão, o qual tem poucas alterações, e, assim que iniciavam o movimento de deixá-la na disponibilidade, em que só o tempo deles seria considerado, a tentativa de sobrepor à vontade e o desejo deles, e culpá-la por uma incompreensão inexistente, se afastava.

Mas, sempre fez questão de demonstrar sua insatisfação diante das migalhas que lhe eram oferecidas, e recusava a continuidade do que tentavam fazê-la acreditar, a possibilidade de um encontro verdadeiro.

A maioria dos seus envolvimentos não chegavam a três meses, diz que se permitir no início ser desconsiderada, submetida, silenciada e sujeitada ao jogo, nada irá se alterar e a virada só acontecerá quando a mulher cansada e extenuada finalizar o que nunca se realizou. Ela não acredita que com o tempo seja possível alterar a relação de dominação, aquele que domina não renuncia à sua posição, e ao subjugado só cabe gritar para ser visto, entendido e compreendido, até que crie coragem e desista do que jamais teve.

Nos contou que sempre ouviu dos homens que passaram por sua vida o quanto ela os assusta, como a temem, chegou a pensar que era até uma nova modalidade de cantadas, pois era constante essa fala. Acho que na verdade, por ela desvelá-los e não permitir que a dominassem, eles se frustravam, porque jamais a conquistariam, nunca foi território, nem propriedade, e muito menos escrava. Entregou seu afeto quando encontrou o parceiro.

Inclusive, ela tem uma teoria ótima. Claro, que devemos considerar sua história, personalidade, e o que entende servir a ela. 

Não sei se adotarei sua teoria, mas no mínimo rimos muito, e acabamos pedindo mais uma garrafa de vinho.

Vamos a teoria!

Diz a Advogada, que na criação do Universo, Deus criou a Terra e a habitou em pares, ao fazer isso criou o homem, Adão, e a primeira mulher, Lilith. Os dois foram criados do mesmo pó, mas Adão acreditava na ilusão de que seria superior e divino, pois imaginava ter sido criado a imagem e semelhança de Deus, portanto, diferente de Lilith. 

Segue ela: Lilith não aceita a submissão, não acredita que Adão mudará com o tempo, e por isso, desde o início o contesta, e exige ser tratada com igualdade, propõe a parceria, o chama para o diálogo, mas Adão recusa. Insatisfeito por não conseguir dominar Lilith, como um garoto mimado, vai reclamar com Deus o que considerava uma insubordinação, uma insurgência, pois não entendeu o que Lilith havia proposto.

Após ouvir a reclamação de Adão, Deus (aquele que é a imagem e semelhança do homem), mantendo a lealdade masculina, decide expulsar Lilith, e atender ao filhotinho mimado que precisa ter todas as suas vontades e desejos atendidos.

Adão se vê sozinho, Lilith fora expulsa, e seus dias passam a ser entediantes, o vazio se instala, e Deus o vendo isolado, entediado, e perturbando os outros animais, o faz dormir, retira uma costela e cria Eva, acreditando que assim Adão teria o que desejava, alguém dominável, submetido, que atendesse suas vontades e, ainda, o bajulasse.

No princípio Eva se encanta com Adão, até porque não tinha outro, ele a trata bem, elogia, diz que irá se apaixonar, que não há mulher como ela, o quanto ela é maravilhosa e dedicada. Mas o tempo passa, e ele já mostra que só o querer dele importa, ela deveria se silenciar e obedecê-lo, já que não passa de uma costela retirada do seu corpo, enquanto dormia.

Os dois sabiam que não poderiam comer o fruto da árvore do conhecimento, da sabedoria, Deus os avisara. Mas Eva já mostrava cansaço em apenas servir, e seus anseios serem desconsiderados, sua relação não era recíproca, não havia parceria, muito menos cumplicidade. A relação era desigual!

Então, no final da tarde de um dia qualquer, enquanto Adão brincava sozinho, entretido consigo mesmo, e envolto em seu próprio ego; Eva se aproxima da árvore do conhecimento e começa a admirá-la, quando de repente é chamada pela Serpente. Ela se assusta, mas ao observar aquele animal belo, em sua postura ereta, firme, segura, desejando a junção e integração de ambos, ela aceita à proposição feita pela Serpente e penetra na atmosfera da árvore do conhecimento, retira suavemente o fruto, leva-o a sua boca e, se alimenta daquilo que fora proibido ao masculino. 

Porém, Eva fora criada a partir da costela de Adão e, foi ensinada, constituída, construída para cuidar, silenciar, compreender, se submeter e não exigir nada em troca. Assim, a partir do padrão imposto, ela se dirige a Adão e partilha com ele o fruto da árvore do conhecimento, mas diferente dela, ele não quer partilhar e, sim, dominar.

Ao final da história, a Advogada ri e, diz: 

– Sou filha de Lilith, mas sobrinha de Eva, ainda cedo aos padrões, mas consegui apesar deles me construir e ter uma relação constituída na igualdade e parceria.

Ela recusou viver com os diversos Adãos que passaram em sua vida, mas estava aberta para o homem que quis partilhar o conhecimento, a vida, os desejos, respeitar a individualidade um do outro, e construir dia a dia o sentimento que os une.  

Adoramos a história, rimos muito quando a Socióloga disse que só encontra Adão por aí e, está esgotada deles. Tivemos que concordar com ela, mas acredito que a todos nós é possível refletirmos como nos colocamos no mundo, e como enxergamos o outro. É possível mudarmos, sermos mais verdadeiros, construirmos nossas relações com honestidade e respeito mútuo, sem que seja necessário olhar o humano apenas como um objeto a ser descartável quando perde a utilidade ou o interesse.

Nesse instante, a Jornalista diz que entende perfeitamente a história contada, e o quanto é difícil o Adão entender a proposta feita por Eva, estão tão centrados em si, que sequer percebem o convite feito para o compartilhamento, o crescimento e a construção. 

Perguntei a ela se estava falando do Escritor, pois percebi em seu tom de voz uma certa frustração. Ela confirmou que era dele que falava. Então, questionei o fato de que talvez ele apenas não quisesse uma relação, no que ela concordou, e disse que não era esse seu incomodo, mas o silêncio que lhe impôs, deixando aberta a possibilidade de poder retornar a qualquer momento como se nada tivesse acontecido, como se ela ainda estivesse a sua disponibilidade.

Estranhei a sua fala, e curiosa fiz uma última pergunta:

– Por que permanece na cela, apesar da porta estar aberta?

Ela me respondeu:

– Porque tenho medo de entender que o Escritor, aquele que tanto me encantou, na verdade é apenas o Carcereiro.

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Mulheres Xavante Coletoras de Sementes da Terra Indígena Marãiwatsédé

Infelizmente, ao longo das décadas de luta pela retomada de seu território, a área foi sendo cada vez mais desmatada, até fazer de Marãiwatsédé (“mata densa” na língua Xavante do tronco linguístico Jê), a terra indígena mais desmatada do Brasil, com cerca de 80% de seu território totalmente degradado.
Por Ana Paula Sabino e Samuel Leão
Para contrapor a esse jogo sujo de degradação e destruição, o grupo Pi’õ Rómnha/Ma’ubumrõi’wa – Mulheres Xavante Coletoras de Sementes da Terra Indígena Marãiwatsédé –, coleta e destina todas as sementes coletadas no Cerrado para a restauração das áreas internas e adjacentes à Terra Indígena Marãiwatsédé.
O grupo começou em 2011, quando coletores e coletoras da Associação Redes de Sementes do Xingu (ARSX), visitaram Marãiwatsédé para apresentar seu trabalho de plantar florestas e recuperar áreas degradadas entre assentados e indígenas nas bacias da região do Xingu.  Depois da visita as mulheres Xavante resolveram se organizar para coletar sementes e fazer o replantio em sua própria área indígena.
O trabalho começou timidamente, com a coleta de duas espécies de sementes por 18 anciãs. Hoje, as cerca de 90 mulheres e seus familiares que integram a ARSX compreendem que, além de ser uma alternativa socioeconômica (as mulheres são remuneradas pela coleta), o trabalho com as sementes é uma forma de se apropriar e proteger o território Marãiwatsédé, ameaçado por invasões e intensamente desmatado.

O próprio coletivo de coletoras da ARSX é quem precifica as sementes, em assembleias anuais da associação, que é também o momento em que cada coletora recebe pelas sementes que entregou. Para assegurar a dispersão natural de sementes no território indígena, cerca de 30% das sementes de cada matriz contidas na carga são mantidas na natureza, na própria área de onde as sementes são extraídas.
 “A Funai está errada, eles jogavam com a gente. O Ministério Público Federal (MPF) também está errado porque ele não nos ouviu, nós temos direito de dialogar e pensar alternativas para a nossa sobrevivência. Queremos, sim, reflorestar, mas quando chegamos aqui já havia muito pasto, e isso não foi nossa culpa”, destaca a liderança feminina Carolina Rewaptu, cacica da aldeia Madzabdzé, a aldeia mais distante do epicentro da Terra Indígena. 
 Todas as imagens foram enviadas/cedidas pelos autores da matéria. Imagem da Cacica Carolina (capa): Mariana Leal/Instituto Vladimir Herzog.
Ana Paula Sabino – Jornalista. Membro do Conselho Editorial da Revista XapuriSamuel Leão – Cineasta e Jornalista. 
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Mulheres Indígenas: Diversos olhares, muitos papéis

Observando a imagem que a revista Xapuri selecionou para ilustrar uma crônica minha, não deixei de perceber a beleza e a força que ela emanava. A imagem era uma fotografia, de Eliane Fernandes,  que mostrava duas indígenas Ashaninka, entre elas a agente de saúde Dora Piyanko Ashaninka.
Por Jairo Lima
Isso me fez pensar nessa figura, “mulher indígena”, na contemporaneidade indígena do Aquiry e o assim chamado “papel” que ocupa em sua comunidade e nos processos de interações e interlocução social com o mundo do Yura.
É muito comum que, ao ouvirmos falar da mulher indígena, somente façamos a ligação mental com os afazeres ditos “femininos” em uma aldeia, como cuidar dos filhos, preparar alimentos, cuidar da casa. Visão enganosa que podemos comparar com a ideia tradicional e conservadora de nossa sociedade, que ainda insiste no termo cafona e limitante do papel da mulher, enquadrando-a tão somente como “do lar”.
– Só que não, cara pálida!

 

Mulheres Indígenas: Diversos olhares, muitos papéis

Mãe Kaxinawa – Foto: Nicole Algrantti

O assim chamado “universo feminino indígena” é muito amplo, e sem o qual, o que conhecemos como cultura indígena não teria a riqueza e profundidade que estamos acostumados a ver. Foi para as mulheres que a sagrada jiboia Yube ensinou os mistérios e os segredos dos kene e dos mitos do seu povo Huni Kuin. O povo Puyanawa não teria a técnica da pesca tradicional se não fosse graças a uma mulher.
O feminino em tudo se faz presente na cultura indígena e isso fica claríssimo quando analisamos a expressão máxima do sagrado indígena: ayahuasca. Resultado mágico da união da força do cipó com os encantos da folha. E aí que se mostra a força feminina que, representada pela folha, é responsável por revelar os mistérios sagrados da cultura ancestral e dos caminhos espirituais que oyuxin deve seguir.
As chamadas “artes indígenas” são impregnadas do saber e da energia tradicional
Eu, como me considero extremamente espiritualizado e dou muito valor às simbologias, faço questão de só usar kene kuin.feminina, emanadas a partir de sua manifestação física. Por exemplo, as famosas e populares pulseiras e colares Huni Kuin (Kaxinawá) feitas de miçangas possuem uma peculiaridade interessante, quando feitas por uma mulher são chamados kene kuin(desenho verdadeiro) e que traz uma energia especial e verdadeira dos ancestrais.
Quando feitas por homens, são conhecidos como dami (desenho qualquer, coisa, etc), que são bonitos e são da cultura, mas não tem a energia espiritual e sagrada dos ancestrais. Vale citar que outros povos indígenas locais tem, de modo geral, a mesma regra.
E o que dizer das pinturas corporais? Lindas e cheias de simbologias.
Tive inúmeras oportunidades de ter meu corpo pintado de desenhos tradicionais por mulheres de diferentes povos, e testifico que este é um processo único que vai nos remetendo, a cada traçado pintado em nossa pele, às origens e logos universais, bem como à nossa união com a força da natureza, com a qual convivemos enquanto viventes e com a qual nos harmonizaremos quando sob esta formos sepultados.
Uma prática que vem sendo recuperada nas aldeias é o da parteira tradicional. Figura importante e que liga a criança à tradição de seu povo logo ao nascer.
Os movimentos de fortalecimento ou recuperação da cultura tradicional seriam incipientes, se não contasse com o engajamento delas. Temos vários exemplos deste engajamento, espalhados pelas aldeias do Juruá. Um que acompanho de perto é o lindo trabalho desenvolvido pela Vari Puyanawa que, em breve, estará publicando suas pesquisas e “estudos” espirituais sobre kene tradicionais inspirados pelas mirações do Uni.
Outros papéis comunitários vêm sendo ocupados pelas mulheres: professoras, agentes de saúde, presidentes de associações e cooperativas, entre outros.
Anos de convivência com os povos indígenas do Aquiry muito me ensinaram, principalmente a respeitar o papel da mulher e sua importância na dinâmica e no funcionamento de uma aldeia.
É por isso que sempre digo para os que não conhecem a cultura indígena: no fim das contas, acho que quem manda numa aldeia são as mulheres, pode ter certeza.Claro que, por ser homem, sempre fui excluído dos momentos em que as mulheres se dirigem aos roçados para colher macaxeira ou banana. Mas, pelos relatos de minhas companheiras indigenistas que já acompanharam estes momentos, é onde se pode aprender muito sobre a cultura e seus processos de tomada de decisão.
O mundo está sempre em transformação social e cultural, e claro, as comunidades indígenas, à exceção dos povos isolados, não estão imunes a estas transformações. Só que estas transformações, além de novos desafios, também vem trazendo ventos de mudança e expansão do papel da mulher neste universo social e cultural.
Temos muitos exemplos disso.
É cada vez mais comum esta participação nos processos de tomada de decisão e representatividade do movimento indígena, bem como de outros espaços ditos “de poder” que, até bem pouco tempo, tinham a figura masculina como referência.
Palavras como pajé, cacique, liderança, são só algumas que deixaram de se referir exclusivamente a atividades do homem. Pelo menos aqui no Aquiry. Assim, temos figuras queridas e fortes que assumiram papéis de referência em suas comunidades e em instituições, dando, além de um brilho e energias diferentes, um toque especial no trato da questão indígena.
São figuras como a Cacique Enir Shanenawa, que resolveu criar uma aldeia, a Shanekaya, com o objetivo de fortalecer a cultura do seu povo e não permitir a interferência dos maus costumes dos nawa, como o uso de bebidas alcoólicas. Esta comunidade hoje é referência em organização para seu povo, e vem se destacando na região como um local que cada vez mais recebe visitas e onde são realizadas atividades ligadas ao movimento indígena local.
E como não citar a coordenadora da Coordenação Regional Alto Purus, em Rio Branco, Maria Evanízia Puyanawa, que conseguiu recolocar em pleno funcionamento esta unidade da FUNAI, que praticamente estava inoperante e deteriorada.
E como não se encantar com o vídeo “Nixpu Pima – Rito de Passagem Huni Kuin”? Aqui no Juruá acostumamos com a presença e as palavras fortes de lideranças como Lucila Nawa, na luta pela regularização fundiária de sua terra; e da Edna Shanenawa, que vem encampando e lutando pelas políticas de gênero e fortalecimento dos conhecimentos do artesanato indígena, através da Associação de Artesãs e Artesãos do Vale do Juruá.videasta Pãteani Mara Vanessa Huni Kuin, apresentando uma visão única e rica da cerimônia de batismo tradicional de seu povo?
Não poderia deixar de citar a prof Francisca Yaka Shawãdawa, que iniciou sua trajetória no magistério indígena sob meus cuidados, há dezesseis anos atrás, e hoje é a presidente da Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC), referência na luta pelos direitos dos professores e pelas políticas voltadas à educação escolar indígena.
A presença e trabalhos cada vez mais reconhecidos e procurados das pajés Yawanawá  contribuíram para a quebra de paradigmas nesse nosso mundo em transição, onde o papel da mulher no assim chamado “sagrado indígena” assumiu nova posição. E, ao contrário do que acham, os assim chamados “puristas”, este movimento deu nova vida a este povo e serviu de referência para que outros passassem a considerar cada vez mais esta participação e protagonismo.
A saúde indígena do Juruá recebeu de braços abertos a médica Gilda Maria Yawanawá, primeira médica indígena do Acre, nascida e criada na Terra Indígena Rio Gregório e que, através de parcerias de seu povo foi para Cuba para cursar medicina e que, tendo retornado, atuará no atendimento de saúde aos povos indígenas do estado.
Citei estes exemplos, e poderia citar muitos outros, só aqui no Aquiry, isso sem contar no restante do país onde várias lideranças mulheres se destacam.Um movimento crescente, e que está se consolidando cada vez mais, é o intercambio e participação em diversas atividades no Brasil e no exterior de mestras e aprendizes da tradição, divulgando e apresentando a cultura de seus povos, sempre com alegria e com a energia cativante de sua presença. Entre estas mensageiras, não poderia deixar de citar a filha do saudoso Inkamuru, Ayani Huni Kuin.
Recentemente estive em Rio Branco, em uma série interminável de reuniões e, numa destas, reparei estar “cercado” de mulheres em destaque nos diferentes nichos de sua atuação. Foi um pensamento de relance, mas notei que estas se dividiam, em igual quantidade, entre indígenas e indigenistas. Lindo.
Não posso negar que me senti minoria, juntamente com outros colegas do sexo masculino, mas, ao contrário do sentimento de disputa, senti um algo reconfortante de saber que estas mulheres estavam ali, e que isso, pelo menos para mim, significava que teríamos sucesso no que estávamos discutindo.
Sempre achei a mulher indígena uma criatura linda, imbuída de uma beleza que transcende o material.Ah, sim! Não poderia deixar de citar que muitas destas mulheres são mães, esposas, estudantes, amigas, avós, etc. E sempre observei que, independentemente do que estejam desenvolvendo, jamais se esquecem destes compromissos familiares, sociais e culturais em que estão inseridas.
Sua presença nos ambientes nunca passa despercebida, pois inunda o espaço com a energia suave e colorida de seu yuxin. Carregando sobre si toda a sabedora e força entregues a seu ser pelos seres fantásticos e sagrados dos antepassados.
Não gosto da palavra “guardião” para classificar qualquer conhecedor da tradição indígena, por isso creio ser a mulher indígena, em vez de guardiã, a representação viva da força ancestral do seu povo e sem a qual este não teria razão de existir.
Não poderia terminar minha reflexão sem citar outra “categoria” de mulheres que, por seu engajamento, são consideradas como parte da cultura. Falo das indigenistas que dedicaram ou dedicam suas vidas ao trabalho junto às comunidades.
Pessoas maravilhosas, representadas pela figura guerreira e incansável da querida e eterna professora de indigenismo, Dedê Maia, que mesmo após ultrapassar a idade de aposentadoria, continua envolvida em projetos e lutas em prol dos direitos e chamada “agenda indígena”, e com a qual tenho a felicidade de cruzar, vez ou outra, em diferentes ambientais de trabalho.
Diferentemente de outras crônicas, nesta não citarei frase de algum pensador – ou pensadora – sobre o tema que discorri. Decidi isso simplesmente porque não acredito haver pensador ou filosofo que seja capaz de definir a mulher e, no caso em questão, a mulher indígena com toda a honra e louvores que esta merece.Finalizo atentando que iniciamos o mês chamado “outubro rosa”, dedicado à campanha que nos impele a refletir e contribuir, de alguma maneira, para a conscientização sobre a prevenção e o diagnostico precoce do câncer de mama. Não poderia me furtar de citar isso.
Notas do autorAquiry – Nome original do Estado do Acre. Yura – Não-índio
Jairo Lima  : Indigenista acreano. Escreve e publica crônicas semanais. Para ver mais e conhecer melhor o belo trabalho do Jairo, visite o blog Crônicas Indigenistas.

 

Mulheres Indígenas: Diversos olhares, muitos papéis

Mulheres Ashaninka – Foto: Eliane Fernandes
 
 
 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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