TXAI MACÊDO: ENTRE MALOCAS E SERINGAIS

Txai Antônio MacÊdo: entre malocas, seringais e as as fronteiras da história do Acre 

Sertanista e indigenista, Txai Macedo atuou desde 1978 na Funai e, ao longo de mais de quatro décadas, participou do reconhecimento e da identificação de cerca de 60 Terras Indígenas no Vale do Juruá e em outras áreas do Acre, além do sudoeste do Amazonas e noroeste de Rondônia; foi cofundador da CPI-Acre (1979), teve atuação decisiva na criação da Reserva Extrativista do Alto Juruá — experiência pioneira que inspirou o Programa Nacional de Resex — e fundou, em 1995, o Instituto Txai, voltado ao fortalecimento institucional de povos indígenas e populações tradicionais.
Por Leandro Altheman/Jornal Varadouro 
dos varadouros de Cruzeiro do Sul

txai Macedo Talita Oliveira
Uma vida, muitas histórias e infinitos legados: Txai Macedo deixa para estas e as futuras gerações a preservação da floresta e de territórios sagrados aos povos indígenas da Amazônia (Foto: Talita Oliveira)

Morreu na manhã deste domingo, 15 de fevereiro, aos 73 anos, em Cruzeiro do Sul, o sertanista da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e indigenista Antônio Macedo, o Txai Macedo. Já há alguns meses lutava contra um câncer de pulmão. Nos últimos dias sua saúde ficou ainda mais debilitada. Recentemente esteve em Rio Branco para realizar exames médicos. Ao invés de esperar pelos resultados, preferiu voltar para o aconchego de sua casa, em Cruzeiro do Sul, onde realizou a passagem para o outro plano.
A notícia da morte ganhou ampla repercussão nas redes sociais, no meio político, cultural e socioambiental. Amigos, companheiros e companheiras, organizações e ativistas de luta de Txai Macedo expressaram seus sentimentos pela partida, destacando o seu legado na defesa dos direitos e dos territórios dos povos indígenas da Amazônia.
“O Txai Macedo agora está sendo recebido e cuidado pela rainha da floresta e por todos os seres de luz que ele tanto acreditou e que tanto fortaleceram a caminhada dele nessa terra, estarão agora nesse plano cósmico cuidando dele. A figura do Txai Macedo, no Acre, é muito singular”, comenta Vera Olinda, coordenadora executiva da Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre).

“Se hoje a gente está no tempo da gestão territorial e ambiental desses territórios, antes o trabalho era de retomar os territórios e não podia medir esforços”, acrescenta. “Então isso foi um diferencial do Txai Macedo, que vai fazer muita falta, mas a luta e o trabalho dele permanecerão eternizados na história do Acre e na valorização dos povos indígenas e comunidades tradicionais e manutenção da floresta”, conclui Vera Olinda.
A trajetória de Txai Macedo se confunde com um dos períodos decisivos da história social e ambiental do Acre. Ele foi um dos protagonistas de uma transformação histórica que uniu indígenas, seringueiros e ribeirinhos em torno de uma mesma ideia de território, floresta e direitos.
Ao longo de mais de quatro décadas de atuação como sertanista e articulador indigenista, Txai Macedo esteve diretamente envolvido no ciclo de identificação, organização e consolidação territorial de diversas terras indígenas no Vale do Juruá e em outras regiões do Acre, além de áreas no sudoeste do Amazonas e noroeste de Rondônia.
Entre os territórios cuja construção política e técnica contou com sua participação estão a Terra Indígena (TI) Arara do Igarapé Humaitá, em Porto Walter; a TI Kaxinawá do Rio Humaitá, em Tarauacá; a TI Kaxinawá/Ashaninka do Rio Breu, em Marechal Thaumaturgo; e a TI Poyanawá, em Mâncio Lima, além de outras áreas reconhecidas no período de reorganização do movimento indígena acreano.
Sua atuação também foi decisiva na criação e implantação da Reserva Extrativista (Resex) do Alto Juruá – a primeira do mundo – experiência que articulou povos indígenas e seringueiros em um modelo inovador de gestão territorial e que deu origem ao Programa Nacional de Reservas Extrativistas no Brasil.
Em maio de 2024, ele teve papel essencial nas conversas entre as lideranças do povo Noke Ko’í com representantes da empresa responsável pela construção do Linhão que atravessa a Terra Indígena Campinas Katukina, em Cruzeiro do Sul.Macedo faz parte de uma grande transformação de conquistas, não apenas territoriais, mas também de direitos, respeito e autoestima cultural dos povos indígenas acreanos. Ele ajudou a encorajar as lideranças indígenas a reconquistar os territórios tomados pelo sistema da borracha, ocupando novamente nossos espaços tradicionais. Fica uma memória inesquecível. Somos gratos por tudo o que ele fez pelos povos indígenas do Acre e do Brasil”, disse a liderança Biraci Brasil, do povo Yawanawá.
“O Txai Macedo está além das palavras, além dos sentimentos. Ele está intimamente ligado ao universo indígena e seu legado se estenderá além das gerações que ele ajudou a proteger e garantir os direitos”, ressalta Jairo Lima, que atuou como Coordenador Regional da Funai no Alto Juruá.
“A história do Macedo não se apaga aqui, é como a história de Chico Mendes, que deixou o seu legado. Deixou muitas terras demarcadas, só falta nós cuidar, viver cada vez em união, cuidando daquilo que foi conquistado com muita luta, com muito suor, com muito enfrentamento, que foi a luta do Txai Macedo, do Txai Terri, junto com as lideranças indígenas”, afirma Francisca Shawãdawa, secretária dos Povos Indígenas do Acre.

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A secretária dos Povos Indígenas, Francisca Shawadawa, destaca a importância de sertanista na garantia de direitos e terras aos povos indígenas do Acre (Foto: José Caminha /Secom)

Como destaca a secretária, Macedo teve atuação crucial no processo de identificação e demarcação da terra indígena do povo Shawãdawa. “Minha avó, tinha muito respeito por ele, meu tio Chico Varela, o tio Jorge, que faleceu de Covid”, conta.
“Macedo é um grande indigenista, sertanista, que dedicou toda a vida dele em prol dos direitos dos povos indígenas, dos territórios indígenas, porque ele entendia que, futuramente, ia acontecer tudo isso que nós estamos vivendo hoje, os impactos das mudanças climáticas, que os territórios são uma barreira pra enfrentar queimada e desmatamento, mas que as políticas também chegassem de qualidade”, ressalta Francisca Shawadawa.
A liderança Francisco Piyãko, do povo Ashaninka do Rio Amônea, coordenador da Organização dos Povos Indígenas do Rio Juruá (Opirj), escreveu um depoimento em sua rede social que ajuda a traduzir a importância de Txai Macedo:

“Ele sentou conosco, bebeu do nosso Kamarãpy, ouviu os nossos pajés e nos ajudou a traduzir a nossa voz para o mundo. A continuidade dessa luta não é uma herança de sangue, mas uma herança de propósito. A continuidade está nas nossas mãos. Nosso dever sagrado é cuidar das conquistas que o Txai Macedo trouxe e colocou em nossas mãos.”
“Para o povo Ashaninka, ele é um txaiwa. Por isso, no meu coração, eu entendo que o nosso Txai não se foi, ele virou um Japó. A gente quer ele do nosso lado, voando como um Japó, para sempre guiar a gente. Ele não está partindo, ele está vindo para nós agora, em espírito, para continuar essa caminhada junto com o seu povo”, completou.

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Txai Macedo auxiliou no reconhecimento e identificação de cerca de 60 Terras Indígenas no Acre, sudoeste do Amazonas e noroeste de Rondônia (Foto: Reprodução/Redes Sociais).

Uma vida entre os povos indígenas

Nascido em 7 de maio de 1952, em Tarauacá, Macedo atravessou a infância em território indígena. Aos três anos já vivia em uma maloca dos então chamados Kaxinawá, hoje autodenominados Huni Kuĩ, no igarapé do Caucho.

Em texto autobiográfico, recordou ter crescido ainda “no final do tempo das malocas e das correrias”, período marcado por conflitos violentos entre frentes da borracha e povos indígenas. A memória desse tempo, atravessado pela lógica da chamada “Lei da Guerra Justa”, que legitimava a violência colonial, não foi para ele apenas recordação histórica, mas fundamento ético de sua atuação futura.
Desde 1978 atuou na Funai como sertanista e, ao longo de mais de quatro décadas, auxiliou no reconhecimento e identificação de cerca de 60 Terras Indígenas no Acre, sudoeste do Amazonas e noroeste de Rondônia.
Participou da estruturação de sistemas associativistas e cooperativistas junto a mais de 17 povos indígenas, apoiando processos de demarcação, gestão territorial, educação, saúde e revitalização cultural. Foi também cofundador da Comissão Pró-Indígenas do Acre (CPI-Acre), em 1979, instituição que desempenhou papel central na reorganização do movimento indígena no estado.
Nos anos 1980, quando o avanço da pecuária, o declínio do sistema seringalista e os conflitos fundiários colocavam em risco povos e florestas, emergiu a ideia da Aliança dos Povos da Floresta. O livro Aliança dos Povos da Floresta, publicado pelas Edições do Senado Federal (vol. 355), registra que o movimento foi anunciado em 1987 durante campanha organizada pelo Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS).
A formulação ganhou projeção nacional com Chico Mendes e lideranças como Ailton Krenak, mas foi no Acre, especialmente no Vale do Juruá, que a aliança ganhou densidade concreta.
Ali, indígenas e seringueiros encontraram terreno histórico e geográfico para reconhecer interesses comuns. Ao lado de Terri Aquino e Dedé Maia, Txai Macedo foi um dos principais mediadores dessa aproximação, ajudando a transformar um ideal político em prática social efetiva.
A Aliança representou uma ruptura conceitual em que, pela primeira vez, indígenas, seringueiros e ribeirinhos se apresentavam como sujeitos políticos comuns, defensores simultâneos da floresta e de seus modos de vida.
Esse processo encontrou expressão concreta na criação da Reserva Extrativista do Alto Juruá e, posteriormente, na publicação da Enciclopédia da Floresta do Alto Juruá, obra que valorizou o conhecimento tradicional sobre a natureza, integrando saberes indígenas e seringueiros.
Txai Macedo também coordenou os processos de criação e implantação do primeiro modelo de Reserva Extrativista do mundo, experiência que deu origem ao Programa Nacional de Reservas Extrativistas no Brasil.
As Resex institucionalizaram um novo paradigma socioambiental, no qual território, cultura e economia são indissociáveis. Esse modelo ultrapassou fronteiras e influenciou o debate internacional sobre conservação com populações tradicionais.

Txai Macedo mais jovem Reproducao Redes Sociais
Txai Macedo (centro) Participou da estruturação de sistemas associativistas e cooperativistas junto a mais de 17 povos indígenas, apoiando processos de demarcação, gestão territorial, educação, saúde e revitalização cultural. Foto: Reprodução/Redes Sociais

No campo simbólico, sua atuação ajudou a consolidar no Acre uma visão socioambiental que passou a integrar identidade regional e política pública, onde o movimento social de indígenas e seringueiros tornou-se central na construção da identidade acreana contemporânea.
Nesse processo, a luta territorial foi ressignificada como defesa da floresta, e o Acre projetou-se nacional e internacionalmente como referência ambiental. Txai Macedo foi um dos protagonistas dessa inflexão histórica.
Sofreu ao longo da vida sete atentados que evidenciam a intensidade dos conflitos que atravessaram sua atuação em regiões marcadas por disputas entre madeireiros, fazendeiros, seringalistas e povos indígenas. Sobreviveu a um período em que defender direitos territoriais significava enfrentar ameaças diretas à própria vida.
Em 1995 fundou o Instituto Txai, organização voltada ao fortalecimento institucional de povos indígenas e populações tradicionais do Acre. O Instituto tem por missão estruturar programas nas áreas de educação e saúde, gestão ambiental, pesquisa e monitoramento, desenvolvimento comunitário, etnoturismo e revitalização cultural.
O nome “Txai”, palavra tronco linguístico pano, que se popularizou no Acre como saudação fraterna, tornou-se parte inseparável de sua identidade pública. Sua trajetória ajudou a difundir essa expressão como símbolo de aliança e pertencimento.
Seu nome ecoa inclusive na canção de Thiago Moreno, que celebra Txai Terri e Txai Macedo como símbolos da luta pelo autorreconhecimento do Acre como território de indígenas, ribeirinhos e seringueiros.
A dimensão cultural e espiritual dessa história, inclusive o diálogo entre cristianismo popular seringueiro e xamanismos indígenas, mediado pela tradição da ayahuasca, também fez parte do tecido social que sustentou a Aliança dos Povos da Floresta.
Para além das terras identificadas, Resex criadas e instituições fundadas. O legado de Txai Macedo vive na consciência política que ajudou a despertar. Pertenceu à geração que transformou medo em organização, isolamento em aliança e invisibilidade em sujeito coletivo.
Ao demonstrar que floresta em pé depende de povos com direitos, ajudou a redefinir o significado do Acre no cenário nacional e internacional. Seu nome passa agora à memória histórica, mas as terras demarcadas, as organizações fortalecidas e a ideia de que justiça social e preservação ambiental caminham juntas, permanecem como obra viva.

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Txai Macedo foi importante para ressignificar a luta em defesa da floresta e ajudar a projetar o Acre nacional e internacionalmente como referência ambiental. Foto: Reprodução/Redes Sociais

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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