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Um jantar com as letras

Um jantar com as letras

Por: Padre Joacir d´Abadia 

Um dia desses, senti saudades daquela comunidade formosense que lê e que vive cultura. Sentado em um restaurante de prestígio na minha cidade, eu me vi sozinho: não tinha levado meu celular. Eu era companhia para mim mesmo. Nada perverso, ao passo que aprecio de minha companhia! Ligeiramente eu me ocupei com o meu pensar.
 
De pernas cruzadas, fui abrolhando a vida em um guardanapo no qual,  ao invés de limpar a boca,  fui limpando minha consciência de tudo o que havia convivido naquele dia, autorizando-me a apreciar o que estava sobre a mesa: azeite, sal, jarra de flor – flor de plástico-, guardanapos e a numeração da mesa: 02.
 
Naquele guardanapo, armazenei meu raciocínio dentro de um prato, sentado em uma poltrona daquele jogo de sofá que ladeava uma mesa para quatro pessoas. Contudo, “só eu e você, caneta, estamos aqui”, ponderei. Por ser esperto, para não perder o juízo e não deixar os sentidos guiar meus passos, eu não iria dizer um “não” ao cardápio: aceitei-o de bom grado.
 
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Porém, no restaurante não estava disponível um jornal e nem mesmo livros aos clientes. A música me amparava, pois jazia bem ao nível de um bom recinto de leitura, ela arrazoava de episódios adequados; a atmosfera autorizava um passeio através dos filmes nos quadros e no cardápio. Entretanto, no restaurante não tinha TV.
 
Extremamente truanesco! Cômico de fato! Da decoração ao cardápio, tudo rememorava cinema, mas ali não tinha TV. Aliás, até se podia passar por sobre um tapete vermelho e ir adentrando por certo corredor pintado de preto. Tudo me levava a pensar em realizar uma boa leitura, ou ver imagens dos filmes que por ora me vinham à mente.
 
Mas talvez eu quisesse muito, muito mesmo era ver uma estante pelo menos com os livros que viraram os filmes que ali decorava, e, por que não?  ter as imagens daqueles filmes. Ops! Não tinha TV.
 
Nada foi o que meu sonho desejou. Não tinha TV. Fui levado para outros mundos, a outros recantos: recordei Buenos Aires! Viajei! Mas tive que voltar aos retiros mais próximos: estava eu andando pelas ruas de Alto Paraíso onde encontrava, em vários pontos, umas pequenas bibliotecas; seguindo e passando pelas lojinhas,  fui encontrando livros sobre extraterrestres, filosofia, religião, duendes, experiência dos povos; ainda caminhando, encontrei uma igreja onde tinha uma prateleira com livro de Filosofia, Teologia, e, Deus meu, encontrei um livro de Nietzsche. Ufa! Estou em Alto Paraíso, pensei. Tão logo fui dissuadido de tudo aquilo: era tão somente uma excursão aleatória. Era um sonho, pois.
 
“Antes do mundo acabar”, quando é que  eu irei acordar e encontrar em Formosa, Goiás,  um lugar para eu chamar de Alto Paraíso, ou mesmo de Buenos Aires… porque aqui hoje o que encontrei foi cinema, sem ter; passei por tapete vermelho, sem ser para ver filmes… Fiquei entristecido: não tinha TV; não tinha livros. Porém tinha um Filósofo que, mesmo abatido, sabia amar o que era cômodo.
 
Desejo, sobremaneira, que tenha o que amar para você recomeçar porque não tem TV; tem pessoa que ama. Isso basta! Eu desejo que tenha ainda mais lugares para recomeçar uma cultura diferente em nossa cidade; desejo que tenha livros e, antes, que tenha muitas  pessoas para lê-los.
 
Ao ir embora, deixei a caneta que pedi emprestada ao dono do recinto, dentro do prato, ao passo que aquela ocasião foi para mim um jantar com as letras.


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Padre Joacir d’Abadia é Filósofo, autor de vários livros e membro das Academias de Letras “ALANEG” e “ALBPLGO” e da “Casa do Poeta Brasileiro – seção Formosa-GO”.
Foto: Portal Cerratense
 
 
 
 
 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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