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Uma consolação do coração

Uma consolação do coração –  Só o coração em ofegantes pulsações me dava mostras de existir. Era eu, um amedrontado pelo silêncio, iniciando um retiro, um tempo de recolhimento onde de podia ouvir meu interior. Bem no fundo deste coração uma voz me dizia que eu iria iniciar um “tempo de graça”.

Por Padre Joacir d´Abadia 

E este coração também me dizia que eu preciso falar com meu coração, quer dizer, eu deveria conversar com minha interioridade. Nesta conversa o que não poderia me faltar seria a percepção deste compasso com o coração e poder me surpreender com o encanto que ele mesmo pode me oferecer.

A escuta, o sentir e o movimento do coração é a viva resposta de quem consegue escutar o coração orante, o coração que reencontra com o que escuta. É uma consolação que desconstrói o edifício, o muro que consigo erguer contra mim.
Será que me interesso a mim mesmo? Neste diálogo entre eu e meu coração esta é uma pergunta cabal e saber responder não seria por meio do uso de minha expertise intelectual, mas, antes, buscando ouvir o meu interior. Romano Guardini diz que esta escuta é para “Convocarmos a nós mesmos”.
Ora, pois! Será que conseguimos nos convocarmos, e, a partir deste chamado, nos interessamos conosco mesmos? Depois destas descobertas ainda se pode objetar: desejar o que neste momento de descobertas? Ser o que, sem estar cercados pelas realidades que me cercam? Querer um coração que escuta; ou que deseja escutar, tão somente isso.
Eu temo que este coração que pulsa não consiga escutar cada pulsação. Não posso ficar indiferente com o que eu encontrar, devo me encantar até mesmo se encontrar um caminho que não me trás muito consolo. Contudo, sendo este tempo, um “tempo de graça”, posso buscar nas reflexões de Albert Camus que me diz: “… no mundo do sagrado, toda palavra é ação de graças” (O homem revoltado, p. 32).
A única palavra que eu consigo descrever, se é que consigo argumentos que sejam notórios para este instante, é usar deste tempo como uma graça que emerge do meu interior e falar sobre o que meu coração sente. Uma grande paz envolve minha vida e,  com isso, também eu, me sinto dialogando com a palavra paz.
Assim, neste “tempo de graça”, meu coração, já vivendo a calmaria num colóquio comigo mesmo me disse que esta paz interior é uma ação de graças. Escutar a vida interior é viver em paz e ter harmonia com as descobertas de desolações que, muitas vezes, tenta consolar as pulsações desmedidas do coração.

Padre Joacir d’Abadia, filósofo autor de 15 livros, especialista em Docência do Ensino Superior e amante da vida,  descreve sua própria experiência de vida em seus últimos três livros, publicados neste mês de março de 2021. Cada livro custa R$ 25. O combo, R$ 50. Compras diretamente com o autor @padrejoacirdabadia

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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