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UNE entrega carta a Lula que promete mais universidades e escolas técnicas

UNE entrega carta a Lula que promete mais universidades e escolas técnicas

Com Lula e Mujica, maior organização da juventude brasileira apresenta pauta de avanços, defende integração da América Latina e reafirma seu compromisso de reconstrução do país.

Por Pedro Rafael Vilela/Portal Vermelho

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou, na noite desta quinta-feira (13), em Brasília, do 59º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), na edição histórica que marcou a retomada da mobilização estudantil em massa, após pandemia e derrota de um governo autoritário da extrema-direita que passou pelo país.

A última vez que um presidente da República compareceu ao evento foi em 2009, quando o próprio Lula, durante seu segundo mandato, esteve no encontro estudantil. Ele também marcou presença em 2011, já como ex-presidente. Ao receber Lula, a presidente da UNE, Bruna Brelaz, destacou a terceira participação dele no que é o maior encontro de estudantes da América Latina, que reúne, até este domingo (16), cerca de 10 mil pessoas na capital federal.

“Desde aquele Congresso da UNE de 2011, presidente, o senhor enfrentou um câncer e venceu, tivemos as jornadas de junho de 2013, a Copa do Mundo no Brasil em 2014, a reeleição da presidenta Dilma, o golpe de 2016, a sua perseguição e prisão política em 2018, a eleição da extrema direita, a política de genocídio durante a pandemia da Covid-19, a retomada da democracia nas eleições de 2022, a tentativa de um golpe de estado no último 8 de janeiro e, aqui estamos”, afirmou Brelaz.

A nova cara da universidade

A presidente da UNE aproveitou o ginásio Nilson Nelson lotado para mostrar ao presidente a nova cara da juventude universitária brasileira, lembrando que ela própria, natural de Manaus, é a primeira mulher negra e primeira amazonense eleita para a presidência da entidade.

“O sucesso das políticas de expansão universitária, presidente, veio da luta conjunta da UNE, nas ruas, em diálogo com o seu governo. E nada mais foi significativo, nesse período, do que a criação do Prouni, do Reuni, do Fies e da Lei de Cotas”, afirmou.

Emocionada, Bruna Brelaz narrou a própria história, “uma menina que dormia na sala de casa” com a mãe a irmã.

“E o motivo de nós dormirmos na sala era pra fugir mais rápido, pela porta da frente, quando a chuva e as enchentes chegassem e a gente corresse o risco de morrer soterradas ali dentro. Eu cresci entendendo que o estado não existia. Que ninguém iria olhar para mim e me garantir nada nesse Brasil. E foi a Lei das Cotas que me garantiu entrar na universidade, conhecer a UNE e hoje estar aqui, representando mais de 8 milhões de estudantes, presidenta da maior organização de juventude da América Latina e condutora do meu futuro. As cotas me abriram todas essas portas”, declarou em lágrimas.

Discursando diante de uma plateia de milhares de jovens, Lula celebrou que o perfil social dos estudantes tenha mudado ao longo da última década, com o ingresso de pobres e negros nas universidades, especialmente a partir dos programas criados em seus governos anteriores. Ele lembrou sua passagem em um congresso da UNE, em 1976, em Piracicaba, ainda em plena ditadura, quando, segundo o presidente, não havia pessoas negras entre os estudantes.

“Naquele congresso da UNE, era uma sociedade branca. (…) Hoje, eu poderia avocar aqui o meu companheiro Aldo Arantes, que foi presidente da UNE. E ele vai perceber que hoje, aqui, tem mais pardos e negros do que brancos, nesse congresso da UNE. Numa demonstração de que as coisas mudaram nesse país e vão mudar muito. Aqui não tem apenas filho de gente rica, aqui tem filho de pedreiro, de empregada doméstica, aqui tem filho de metalúrgico, de químico, de gráfico. Aqui está a filha e o filho do povo brasileiro, com a nossa cara”, afirmou.

Carta ao presidente

Durante a cerimônia, representantes das entidades estudantis leram e entregaram uma carta de reivindicações ao presidente. Entre os principais pontos, estão a manutenção da política de cotas e ampliação do direito de acesso para indígenas e pessoas trans, a criação da Universidade de Integração da Amazônia e a aprovação de uma lei para instituir o Programa Nacional de Assistência Estudantil. Além disso, a UNE reiterou, no documento, o pedido para que o governo revogue o Novo Ensino Médio, demanda repetida diversas vezes pelos estudantes em palavras de ordem gritadas no ginásio.

Em seu pronunciamento, Lula prometeu ampliar o número de universidades e outras instituições de ensino no país. “Nós vamos voltar a fazer mais universidades, a fazer mais escolas técnicas, mais laboratórios, vamos nos reunir com reitores e com os estudantes, vamos outra vez colocar o pobre no orçamento da União”, garantiu diante de um ginásio Nilson Nelson cheio. Tal promessa já havia sido feita durante a campanha eleitoral, em 2022.

Convidado especial

Além de Lula, participaram do ato político o ex-presidente do Uruguai, Pepe Mujica, além de ministros do governo federal, incluindo o ministro da Educação, Camilo Santana. Em discurso, Mujica, que foi preso político por 14 anos na ditadura uruguaia, pediu aos estudantes que busquem a unidade para defender a democracia.

“Não cometam o erro do meu tempo. Quanto mais desunidos, mais dominados vamos estar. Portanto, estudar, não perder tempo, cuidar da democracia. A democracia não é perfeita, está cheia de defeitos. Mas, até hoje, não encontramos nada melhor”, disse. O ex-presidente do Uruguai também apelou para que os estudantes deem sustentação ao governo Lula frente aos desafios de gestão.

“Lula é grandioso, mas não é mago. Aos governos populares, não apenas se pede, mas se ajuda. Os obstáculos que se têm adiante estão aí e não são simples. É fácil reclamar, mas é preciso comprometer-se”, afirmou.

Na mesma linha, Lula também fez uma defesa enfática da democracia, citando as ameaças de ruptura ocorridas no último período. “Há muito pouco tempo, vocês conheceram o que é o fascismo, o nazismo, apenas em quatro anos. Como é que se pode destruir a democracia e as conquistas que a gente, às vezes, leva séculos para conquistar? Espero que tenhamos aprendido uma lição, a de que a democracia pode não ser a coisa mais perfeita que humanidade criou, mas não tem nada igual a ela. É na democracia que a gente pode viver a pluralidade, a diversidade, que a gente pode aplaudir, a gente pode vaiar, a gente pode gritar e a gente pode contestar. É na democracia que a gente vive a plenitude da manifestação do ser humano”, afirmou.

‘Sem negar fogo’

Em discursos, ministros do governo Lula exaltaram o papel histórico da UNE na luta por democracia.

“É sempre uma honra e orgulho estar presente nesse que é o principal evento de luta dos estudantes brasileiros, que é o Conune. A juventude brasileira nunca negou fogo”, afirmou a ministra de Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, ao lembrar do papel da UNE na resistência contra a ditadura – que custou a vida de dezenas de estudantes – e na mais recente luta contra o governo autoritário de Jair Bolsonaro e o desmonte do Estado nacional.

“Vocês sempre estiveram nas ruas defendendo a democracia”, destacou o ministro da Educação, Camilo Santana. O titular do MEC exaltou as medidas do governo para recuperar a educação, como a recomposição orçamentária das universidades, o reajuste e ampliação das bolsas estudantis e aumento nos repasses da merenda escola. Ele prometeu respeitar a escolha autônoma das universidades na nomeação dos reitores.

Sobre o pedido de revogação do Novo Ensino Médio, Santana prometeu diálogo.

“Eu suspendi a implantação do Novo Ensino Médio no Brasil. E nós abrimos uma ampla escuta para ouvir estudantes. Foram 150 mil estudantes que participaram. Nós ouvimos professores, entidades, secretários. Quero dizer que nós vamos sentar, que é um compromisso ter um melhor Ensino Médio”, defendeu-se, ao fazer menção ao processo de consulta pública aberto pela pasta e que foi encerrado na semana passada.

A reinvindicação ação de revogar o Novo Ensino Médio consta na carta da UNE ao presidente Lula, e foi reafirmada diversas vezes pelos estudantes em palavras de ordem no ginásio.

Fonte: Portal Vermelho Capa: Valter Campanato/Agência Brasil


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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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