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Família tomando café da tarde juntos

Yedo Ferreira e a luta negra

Yedo Ferreira e a luta negra

Por Pedro Borges

Recentemente publiquei nas minhas redes sociais esta excelente matéria do Pedro Borges, com edição de Nadine Nascimento, sobre meu xará Yedo Ferreira que, aos 88 anos, segue firme na luta contra o racismo em nosso país. Do alto de sua longa trajetória de luta e resistência, o camarada Yedo nos faz refletir sobre a importância do movimento negro que para ele seria, ou poderia ser, mais revolucionário…
Iêda Leal/Coordenadora Nacional do MNU.

Depois da fundação do Movimento Negro Unificado (MNU) na cidade de São Paulo, em 7 de julho de 1978, a organização passou por um processo de expansão e consolidação de núcleos em diferentes regiões do país. Poucos meses depois, em 9 de setembro, Yedo Ferreira e um grupo de pessoas fizeram o primeiro evento público da entidade na capital fluminense, uma assembleia para aprovar a primeira carta de princípios e o estatuto do MNU.
Aos 88 anos, Yedo Ferreira prepara um relatório para apresentar para o Movimento Negro Unificado (MNU) para discutir com a coordenação nacional o atual cenário vivido pelo país, as práticas de violência contra o povo negro, e pautar ações de mobilização e denúncia, no âmbito nacional e internacional.
Residente do bairro de Marechal Hermes, subúrbio da zona norte do Rio de Janeiro, em uma casa decorada com símbolos católicos e retratos de atividades políticas do passado, ele apresentou um diagnóstico da situação vivida pelo Brasil para a Alma Preta Jornalismo.
“Eu vejo que nós estamos sob um governo supremacista branco, de tendências neonazistas, porque não é só o presidente da República, mas o grupo ideológico do qual ele faz parte”. Ele acredita que, embora setores conservadores sejam contrários a um confronto explícito, Bolsonaro representa o desejo de parte da sociedade de um combate generalizado. “O pensamento dele é partir para o confronto, se possível a guerra civil”.
O governo Bolsonaro, contudo, não representa um aumento da prática do racismo. De acordo com Yedo Ferreira, o racismo permanece violento da mesma maneira contra pessoas negras, porque independente da mudança de governo, o Estado brasileiro tem o povo negro como alvo.
“O Estado brasileiro, desde a [proclamação da] República, foi estruturado tendo o negro como inimigo. Então não é à toa que ele vê a favela, onde mora o nosso povo, como um local de inimigos”. A entrevista com Yedo Ferreira ocorreu durante a semana da operação policial na Vila Cruzeiro, no Rio de Janeiro, que terminou com 26 pessoas mortas.

YEDO FEREIRA E A LUTA NEGRA

Yedo Ferreira nasceu em 27 de agosto de 1933, no Rio de Janeiro. Desde os 18 anos de idade, é um ativista político. Naquele período, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), principal legenda de esquerda durante parte significativa do Século XX.
Quando ele entrou no chamado Partidão, como o PCB é conhecido, em 1952, o Brasil vivia sob o governo de Getúlio Vargas, que seria vítima de suicídio dois anos depois, em 1954. Yedo Ferreira passou por diferentes momentos da política brasileira, como a chegada do regime militar, a partir de 1964, e a consequente clandestinidade do PCB.
Por conta de uma política do partido, ele foi afastado dos quadros do PCB em 1965. Os quadros, como eram chamados os ativistas, eram desligados para permitirem a continuidade do sigilo das figuras do comitê central da legenda. Yedo Ferreira então saiu do Rio de Janeiro e foi para Santa Catarina, onde ficou por três anos.
Distante da vida política, Yedo decidiu voltar para o Rio de Janeiro e estudar para o vestibular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), para o curso de matemática, no campus do Fundão, na zona norte do município. A investida deu certo e Yedo Ferreira ingressou na universidade.
Foi lá, em 1968, que, em contato com outros estudantes negros, ouviu o seguinte questionamento: “O que você acha sobre a luta dos negros que está ocorrendo nos EUA?”. A resposta com poucos detalhes o estimulou a pesquisar mais sobre o assunto. “Em 1968 eu tinha 35 anos de idade, foi quando pela primeira vez eu despertei a minha atenção para a luta de movimento negro. Até ali, no partido, sobre a África não conhecíamos nada”.
Poucos anos depois, Yedo Ferreira também foi provocado pelo professor da Faculdade Cândido Mendes, José Maria, que o abordou sobre as lutas de independência em África. Para José Maria, é necessário se referenciar nas lutas de libertação africanas mais do que nos enfrentamentos dos negros americanos. “A luta de vocês deve ser a de libertação nacional, ele me disse, e eu falei que ficaria pensando naquilo”.
Os diálogos com o amigo José Maria surtiram efeito e Yedo Ferreira passou a se organizar a partir do princípio da necessidade da libertação nacional dos negros. “Nos EUA, o negro é minoria, mas no Brasil é maioria. Se nós somos maioria, e estamos fora da nação brasileira, que é a nação do povo branco, então a nossa luta é de libertação nacional”. Em 1973, os dois fundaram o Centro de Estudos Afro-asiáticos, para melhor entender as dinâmicas raciais no país.
O passo mais importante na luta contra o racismo se deu em 1978, quando acompanhou o processo de criação do Movimento Negro Unificado (MNU) durante a ditadura militar. Em 7 de julho daquele ano acompanhou em São Paulo a fundação da organização e, em 9 de setembro do mesmo ano, articulou, junto com outros colegas, a assembleia de aprovação da carta de princípios e o estatuto da entidade, no Rio de Janeiro.
Durante o encontro, contudo, um desentendimento entre dois colegas o afastou do MNU, logo no início da história da entidade. Ele ficou 15 anos distante e retornou em 1993. Naquele ano, foi tirada uma orientação interna da organização de reaproximar antigos militantes e de colocar em pauta uma discussão que muito interessava a Yedo, o projeto político de país do povo negro. “Eu me comprometi a contribuir neste projeto e me comprometi a voltar para o MNU. Voltei e durante todo o tempo sempre levantei isso”.
Ao longo da histórica recente do país, Yedo Ferreira acredita que o movimento adotou atitudes diferentes daquelas previstas de organizações revolucionárias, fatos que geraram um descompasso entre as demandas reais do povo e a luta organizada.
“A causa do povo negro é revolucionária, mas a militância é integracionista. Essa militância é denuncista e reivindicatória. Ela não pensa na luta política consequente. Ela vai sempre a reboque, principalmente, da esquerda, da elite branca dos partidos de esquerda”.
A posição de subalternidade adotada diante da esquerda brasileira, majoritariamente branca, faz o movimento negro ocupar um lugar secundário na luta. No processo eleitoral do Brasil em 2022, ele acredita que o movimento negro terá papel de coajuvante.
“Nós somos apenas uma plateia, que vamos ver as coisas acontecerem, sem poder definir como as coisas vão acontecer. Nesse processo eleitoral não existe saída”.
Uma das razões para isso é a existência de uma distância entre o movimento negro e a comunidade. Para ele, mesmo sem uma elite negra econômica, o acesso a espaços de classe média geram esse afastamento.
“Nós, o movimento negro, e eu sempre coloquei isso para a militância, não conseguimos nos aproximar do nosso povo. O nosso povo a gente cita nas falas, ‘porque vive na favela’, só no discurso, porque sempre ficamos distantes. Eu sempre digo que a militância é um movimento de elite. Nós somos elite em relação à massa da população negra pelo estudo. Não elite econômica, porque ninguém tem dinheiro, mas pelo estudo”.

Pedro Borges – Jornalista, em https://almapreta.com/sessao/cotidiano/estamos-sob-um-governo-supremacista-branco-diz-yedo-ferreira-do-mnu.

Iêda Leal – MNU

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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