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Galileu Galilei

Galileu Galilei: Carta recém-descoberta torna o seu legado ainda mais atual

Carta recém-descoberta de Galileu Galilei torna o seu legado ainda mais atual

Thiago Jucá

Galileu Galilei
A primeira e última página da carta de Galileu para seu amigo Benedetto Castelli. A última página mostra sua assinatura: “G. G.”. Crédito: The Royal Society

A carta de Galileu para Castelli mostra que ele era bem mais que um mensageiro das estrelas, era também um rebelde com causa

Não é fácil desmistificar uma ideia ou pensamento vigente, por mais incoerente e absurdo que pareça, mesmo estando em voga em pleno século XXI. Ao realizar um esforço imaginativo do passado, remetendo-se ao longínquo século XVI, parecem mais remotas ainda as chances de se obter sucesso com tal intento. Isso, independentemente de qual ideia ou pesamento se queira contestar. Alguns dirão que é um verdadeiro atestado de loucura. Outros, ao usar os termos daquela época, dirão que é uma verdadeira heresia.

“A perigosa visão de Copérnico” que remete ao sistema heliocêntrico (com o sol no centro), contida na sua grande obra Sobre as Revoluções das Esferas Celestes, chocava-se frontalmente com a visão do cosmo cristão medieval, a qual tinha como defensores entusiastas São Tomás de Aquino e Dante. Estas duas ideias não se restringiam apenas a um conflito de concepções cosmológicas. Opunha-se também à ordem natural das coisas, cujos alicerces foram construídos sobre as bases filosóficas de Aristóteles. Não à toa, ganhou o status de revolução. A lógica vigente da época que concebia, inclusive, que a bíblia deveria ser usada para descrever os fenômenos celestes finalmente tinha encontrado oposição. No entanto, ainda hoje aquelas ideias contestadas por Galileu Galilei permanecem sendo defendidas por muitos.

Por falar em Galileu, ele é considerado por muitos historiadores da ciência como um dos precursores do método científico, bem como da revolução científica que se iniciara. Galileu assim defendia: “Conte o que pode ser contado, meça o que é possível medir, e o que não puder ser medido, torne mensurável”. Ou seja, estavam lançadas as bases científicas da experimentação, atreladas às análises e observações minuciosas, cuidadosamente registradas.

Muitos dos que hoje pregam os bons costumes, a moralidade, a tradição e defendem a família são os que na época apavoravam Copérnico, perseguiram Kepler, e queimaram em praça pública o monge beneditino e filósofo Giordano Bruno. Afinal, eles não apenas pensavam diferente, como também propagavam ideias que afrontavam a tal racionalidade vigente. Mesmo ciente de todos esses fatos, e mais ainda dos perigos que lhe cercava, o católico Galileu protagonizou um dos embates mais emblemáticos, se não o mais famoso, entre a ciência e a religião. Convicto, e com provas observacionais obtidas a partir dos telescópios que ele aperfeiçoara, Galileu almejava muito mais que descobrir e batizar corpos celestiais, como fez com as quatro maiores luas de Júpiter. Ele queria mudar a concepção aristotélica e geocêntrica da época a respeito do universo, em especial da igreja.

Galileu Galilei
As ideias de Galileu foram consideradas heréticas e ele viveu seus últimos nove anos sob prisão domiciliar. Crédito: De Agostini / Getty

Mas para Galileu, em partes, o tiro saiu pela culatra. Primeiro, uma advertência formal em 1616, a qual o proibia de fazer qualquer menção ao sol como centro do cosmos. Santa heresia! Porém, o prelúdio do que o aguardava só viria anos depois, com a publicação do seu livro conhecido como Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas de Mundo, em 1632. Aquilo fora demais para o pensamento hegemônico da época. O Tribunal da Santa Inquisição o forçou a declarar publicamente, sob pena de tortura, que as ideias de Copérnico eram errôneas e heréticas. Por fim, ou melhor, em 1633, Galileu foi condenado à prisão domiciliar, a qual durou o resto da sua vida.

Essa semana a prestigiada revista britânica Naturetratou com enorme destaque em seu portal a descoberta de uma carta atribuída a Galileu, tida até então como perdida havia séculos. Este documento histórico mostra que o astrônomo atenuou as suas alegações, as quais haviam sido consideradas heréticas. Ao tentar minimizar seus argumentos, Galileu almejava amenizar sua situação diante da Inquisição, já que havia desencadeado a mais infame batalha da história da ciência, pelo menos até então. O documento mostra ainda que Galileu mentiu a respeito das suas edições.

Ele estava se escondendo à vista de todos. A carta original, na qual Galileu Galilei primeiro estabeleceu seus argumentos contra a doutrina da igreja de que o Sol orbita a Terra, foi descoberta em um catálogo de bibliotecas desatualizado em Londres. Sua descoberta e análise expõem novos detalhes críticos sobre a saga que levou à condenação do astrônomo por heresia em 1633. A carta de sete páginas escrita a um amigo, em 21 de dezembro de 1613, e assinada “GG”, fornece a mais forte evidência de que, no início de sua batalha contra as autoridades religiosas, ele se engajou ativamente na tentativa de tentar espalhar uma versão mais comedida de suas reivindicações. A carta “recém-desenterrada” está repleta de notas e emendas – e a análise da caligrafia sugere que Galileu a escreveu. Ele compartilhou uma cópia desta versão mais comedida a um amigo, alegando que era seu original, e pediu-lhe para enviá-la para o Vaticano. A carta está em posse da Royal Society há pelo menos 250 anos, mas escapou do conhecimento dos historiadores.

Naquela carta, Galileu argumenta que as escassas referências na Bíblia aos eventos astronômicos não deveriam ser consideradas literalmente, porque os escribas simplificaram essas descrições para que pudessem ser compreendidas por pessoas comuns. As autoridades religiosas que argumentaram de outra forma, escreveu ele, não tinham competência para julgar. E até mais importante que isso foi o argumento segundo o qual o modelo heliocêntrico da Terra orbitando o Sol, proposto pelo astrônomo polonês Nicolau Copérnico setenta anos antes, não era incompatível com a Bíblia.

Resumo da ópera: A carta de Galileu representou um dos mais belos manifestos a respeito da liberdade do pensamento e, por sua vez, da ciência. Representou a resistência diante de um sistema que agia duramente contra qualquer um que ousasse questioná-lo. Galileu é um herói que permanece atual, em especial, no de 2018 (pré-eleições), mesmo após a roda da história ter girado vários séculos após a sua morte. É preciso posicionar-se, é preciso ter coragem, é preciso vencer a inércia, assim como o mensageiro das estrelas o fez. A luta pela liberdade de pensamento lhe privou de outro tipo de liberdade, a de ir e vir, mas mostrou aos seus algozes que ideias não se aprisionam, nem mesmo em domicílio. Aqueles, por sua vez, sucumbiram diante dos fatos, da razão e da história da ciência.

ANOTE AÍ Referências:

Nature 561, 441-442 (2018). Discovery of Galileo's long-lost letter shows he edited his heretical ideas to fool the InquisitionDoi: 10.1038/d41586-018-06769-4

Patrícia Fara. Uma Breve História da Ciência. Ed. Fundamento, Pag. 436, 2014.

Fonte: Nossa Ciência

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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