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4 MULHERES BANCÁRIAS QUE COMBATERAM A DITADURA

4 MULHERES BANCÁRIAS QUE COMBATERAM A DITADURA

Neste mês de março, mês das mulheres, em que chegamos aos 60 anos do golpe militar de 1964, registramos o valoroso combate de mulheres bancárias que foram à luta contra o regime autoritário e pela volta da democracia em nosso país.

Por Redação/Fetec-CUT-CN

Conforme relatos delas ou de seus familiares à Comissão Nacional da Verdade (CNV), muitas delas foram presas, sequestradas, estupradas, torturadas, assassinadas. Algumas delas, ainda hoje, continuam desaparecidas.

Ao homenagear quatro dessas mulheres – Aurora Maria Nascimento Furtado, Maria Célia Corrêa, Maria Regina Carvalho Pinto e Nilda Carvalho Cunha, a Fetec/CUT Centro Norte registra seu respeito e admiração por todas as mulheres que lutaram e lutam, em nosso país, na defesa de Direitos, pela Liberdade e pela Democracia.

AURORA MARIA NASCIMENTO FURTADO “LOLA”

Foto: Memórias da Ditadura

 Nascida em São Paulo, em 1946, a bancária Aurora militava no movimento estudantil e era editora do jornal Ação, da ALN (Aliança Libertadora Nacional). Com o AI-5, em 1968, entrou para a clandestinidade. Presa, foi submetida a pau de arara, sessões de choques elétricos, espancamentos, afogamentos e queimaduras, na Delegacia de Invernada de Olaria. Aplicaram-lhe também “a coroa de Cristo”, fita de aço que vai sendo apertada gradativamente e aos poucos esmaga o crânio. Morreu no Rio de Janeiro, em 10 de novembro de 1972, depois de sofrer violentas torturas por agentes da repressão. 

À época, órgãos oficiais do Estado divulgaram nota informando que Aurora teria morrido em conflito armado com agentes militares. Seu corpo, crivado de balas, foi jogado na Rua Magalhães Couto, no Méier. A versão foi de troca de tiros. Entretanto, segundo a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, o laudo cadavérico de Aurora, elaborado pelos médicos legistas Elias Freitas e Salim Raphael Balassiano, atesta que 29 tiros foram disparados contra Aurora quando ela já estava morta.  O documento também aponta para a existência de lesões no crânio que não foram provocadas por balas de arma de fogo, o que permite inferir que resultaram de tortura.

MARIA REGINA MARCONDES PINTO

Foto: Memórias da Ditadura

Nascida em 1946, a bancária Maria Regina Marcondes Pinto saiu do Brasil em 1969 para se encontrar com seu companheiro Emir Sader, que vivia em Paris por conta da perseguição política que sofria no Brasil. De Paris, em 1970, foram para o Chile, onde passaram a militar no Movimiento de Izquierda Revolucionária (MIR). 

Maria Regina permaneceu em Santiago, até que foi presa no Estádio Nacional, durante o golpe de Estado que depôs o presidente Salvador Allende, no dia 11 de setembro de 1973. Ela conseguiu sair do Chile e voltou ao Brasil, onde permaneceu por aproximadamente seis meses. Em seguida viajou para a Argentina, onde passou a residir e a militar no MIR, em companhia de Emir. 

Mesmo residindo fora do país, Maria Regina estava sob constante vigilância das forças de repressão do Brasil. O relatório do Ministério da Marinha, encaminhado ao Ministro da Justiça Maurício Corrêa em 1993, informa sobre Maria Regina: “ABR/73, exilada no Chile de 1970 a 1973 e na Argentina desde 1973, desapareceu após ser sequestrada, em companhia do chileno Edgardo Enríquez Espinoza (DOU nº 60, de 28/03/81 – DOUSP)”. 

No dia 10 de abril de 1976, em Buenos Aires, Maria Regina foi encontrar o médico Edgardo Enriquez, filho do ex-ministro da Educação do governo Allende, ligado ao MIR, e nunca mais foi vista. Seu sequestro e desaparecimento é  um dos casos investigados pela Comissão da Verdade, que apura mortes e desaparecimentos na ditadura militar brasileira. Maria Regina se enquadra como desaparecida política, porque os seus restos mortais não foram encontrados e nem entregues para os familiares até hoje.

MARIA CÉLIA CORREIAROSA”

Foto: Memórias da Ditadura

“Rosa” ou “Rosinha” era Maria Célia Correia, nascida em março de 1945, no Rio de Janeiro, onde fez o segundo grau, iniciou o curso de Filosofia na UFRJ e trabalhou como bancária até o ano de 1970. 

Em 1971, aderindo à orientação de seu partido, o PCdoB, mudou-se para o sul do Pará, para atuar na frente de batalha da Guerrilha do Araguaia.  

Segundo o relatório do Ministério Público Federal de 2002, Maria Célia teria sido vista presa e amarrada em São Domingos do Araguaia e, depois, presa em um carro preto, depois de confronto com o Exército na Operação Marajoara, comandada pelo major Curió. Este documento também indica que foi vista na base militar da Bacaba, em 2 de janeiro de 1974, presa pela equipe guiada por Manoel Leal Lima (Vanu). Dali, teria sido levada pelo Exército, e sumiu. 

Em 2010, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) condenou o Brasil pela desaparição de 62 pessoas na região do Araguaia no caso Gomes Lund e outros (“Guerrilha do Araguaia”) vs. Brasil, entre elas, Maria Célia.

NILDA CARVALHO CUNHA

Foto: Memórias da Ditadura

Nilda Carvalho Cunha começou a se aproximar das atividades políticas em 1968, quando estudava em sua terra, Feira de Santana, na Bahia. No ano seguinte, mudou-se para Salvador e começou a trabalhar no Banco Econômico da Bahia, aos 15 anos. 

Em abril de 1970, Nilda começou a participar do MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de outubro), onde se tornou uma das responsáveis pela edição do jornal Avante. Nos meses seguintes, abandonou seu emprego no banco e passou a atuar em um curso de alfabetização de adultos. 

Na madrugada do dia 19 para 20 de agosto de 1971, Nilda foi presa em sua casa, em um cerco realizado no local pela Operação Pajussara, para prender a guerrilheira Iara Iavelberg. Submetida a torturas físicas e psicológicas, Nilda foi libertada dois meses depois, com a saúde muito fragilizada. Tinha alucinações, crises de imensa tristeza, momentos de perda de visão repentina, desmaios e forte insônia. Foi recomendada sua internação. 

No mesmo dia em que chegou à Clínica Amepe, em 4 de novembro de 1971, recebeu a visita do major Nilton de Albuquerque Cerqueira, agente da repressão, que ameaçou prendê-la novamente. Depois disso, o estado de Nilda piorou sensivelmente e ela foi transferida para o Sanatório Bahia, onde morreu, no dia 14 de novembro de 1971, segundo a família, com suspeita de envenenamento. 

O atestado de óbito apresentou como causa da morte “edema cerebral a esclarecer”. Seu corpo foi enviado ao Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, mas o laudo da necropsia nunca foi entregue aos seus familiares. O corpo de Nilda foi enterrado por sua família no Cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador (BA).

Fotos: Memórias da Ditadura

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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