O relógio e a saga do tempo: A importância do existir das coisas
Nada que existe passa despercebido por seu próprio existir. Não que tudo que existe tenha consciência de sua existência, mas somente pelo fato de existir já dá, não a outros, mas a si mesma, a sua importância. Nesse contexto, entra um fato que não teve sequer uma reação em si mesmo. Era um relógio marcador de pontos.
Por Joacir d’Abadia
Estava escondido atrás de uma parede. Ali não se ouvia um tic-tac! Ele era um relógio digital. Digitava as horas trabalhadas. Tudo passava por ele, ele era o carro soberano para garantir um mísero salário ao fim do mês.
Não reagia a nada que não estivesse registrado em sua “memória”. Memória! Um relógio que tem “memória” e se porta como um soberano cauteloso que sabe a hora de início e término do trabalho dos seus súditos
Pois bem! Nada que existe passa despercebido por seu próprio existir. Isso parece se tratar do ser humano! Ou não? Não. Fala-se de um relógio com “memória”. Ele não deixa que as pessoas deixem-lhe deixar de existir. Seu existir é percebido cada vez que uma pessoa “bate o ponto”.
É assombroso e até extrapolador o tanto de vezes que se deve fazer funcionar aquele relógio por dia. Ele trabalha quando a pessoa chega ao trabalho, sai para almoçar/retorna do almoço e à tarde quando já é hora de partir. Seu salário é garantido… Pois, deve-se pagar, todos os meses, a conta de luz. Caso isso não aconteça, o relógio deixa de ganhar o seu salário: a energia.
O relógio ganha energia para trabalhar enquanto as pessoas que o fazem trabalhar perdem energia para o trabalho. Ele tem “memória”: computadorizada. Nele contém múltiplas coisas. Uma que é óbvia é a hora. Além de ter “memória”, ele faz leitura.
Parece algo humano: tem “memória” e “lê”. Ler é uma característica de quem fala, mas se tratando de um relógio com “memória” esse argumento torna-se fajuto. Então, o que ele realmente lê? Ah! Agora sim! Ele faz leitura de digitais.
Em contraposição, tem-se o homem. Esse lê frase e palavra. Com efeito, aquele instrumento que faz os homens e a si mesmo trabalhar rege, mesmo sem ter razão, os racionais. Ele comanda a vida das pessoas que têm, entre um intervalo e outro, que “bater seu ponto”. Contudo, “bater o ponto” é sinônimo de salário ao fim do mês.
Diante deste fato engenhoso do trabalhar e ser chefe de uma chusma de pessoas, ainda se pode falar da funcionalidade deste relógio. Sua função é marcar a hora. Algo não alheio. Mas, realmente essa é a sua função? Não.
Sua funcionalidade é muitíssimo vasta. Como também sua função pode ser de enganar já que é uma realidade detentora de “memória” e faz leitura porque essas capacidades são típicas do homem, homem que engana até mesmo a si próprio.
Consequentemente, um dia uma criança precisava acertar seu relógio que ficava no seu quarto. Passando perto do enganador ele viu a hora. Voltando para si, viu que em seu bolso havia uma caneta e um pedaço de papel. A criança, como se sabe, tinha que acertar seu relógio, então, não teve outra saída a não ser usar a hora que ali se encontrava.
A criança anotou a hora que aparecia no marcador em seu papel. Que aparecia? Sim. Aparecia: 23h e 37 min e 15 seg, depois quando olhava de novo o marcador marcava 23h e 37 min e 22 seg. Com isso, a criança observou que tinha algo errado.
Tinha que achar uma tática para que o aparelho não percebesse que ela estava anotando sua hora. Foi até uma cadeira na qual se assentou. Voltando ao relógio viu que já era 23h e 42 min e 6, 7… 9 seg.
O relógio ainda percebeu que estava ali, pensou a acriança. Afastou bastante do aparelho e veio aproximando lentamente e anotou a hora rapidamente que marcava 23h e 46 min e 12 seg. Saiu correndo até seu quarto.
Acertou seu relógio que estava marcando 09h e 12 min e 34 seg (este relógio estava parado, com isso, foi fácil anotar a hora certa em seu papel, foi de uma vez só e nem precisou de artimanha). Assim, o relógio da criança começou a funcionar às 23 h e 46 min e 12 seg do “horário do papel”. Seu relógio era de ponteiros.
Feliz com o relógio funcionando, a criança diz a um funcionário: “olha o que ganhei!”
_“Bonito! Mas por falar em relógio que horas são, pois tenho que ‘bater o ponto’”, disse o trabalhador.
A criança disse que deveria ser umas 23h e 46 min e 12, 13, 14… 17 seg., porque o relógio do ponto era indeciso. O funcionário sorriu e saiu.
No relógio de pontos era 00h e 03 min e 06 seg. quando o funcionário chegou para bater o ponto. Então, pensou: “mas não era 23h e uns 40 min?” Ele olha outra vez a hora e vê 00h e 06 min e 37 seg. Disse para si: “realmente o menino está certo, está correndo muito!”.
Com isso, chega o menino e pergunta: “quantas horas são?” 00h e 08 min, disse. Ah! Pois no meu relógio são 23 h e 58 min. Não têm segundos, explicou. Tem grande diferença entre os relógios, disse o funcionário. O menino concordou e emendou dizendo que era porque o de pontos tinha “memória” e sabia ler e o dele nada além de ponteiros. O funcionário aceitou a explicação dizendo: “ah, é mesmo!”.
O relógio de pontos marca 00h e 18 min quando chega uma pessoa que tinha ficado na tocaia e ouvido toda a conversa sobre a hora em desacerto e disse: “esse menino é igual a este relógio, tem memória, lê, trabalha… Mas não sabe fazer nada, além disso”.
O funcionário indagou à pessoa: “ele acertou seu próprio relógio, e nem mesmo isso conta?” Claro que não, respondeu o homem que foi logo perguntando quem era essa criança tão atrasada.
O funcionário resumiu: “ele é o Tempo. Você não o conhece? Em cada relógio ele é um instante que perturba o nosso tempo! E eu sou a Energia, a qual não deixa o relógio ficar sem trabalho”.
Assim, ficou claro para o homem que pelo fato de uma coisa existir já tem sua importância em sua própria existência.
Joacir d’Abadia – Pároco de Alto Paraíso/GO, Diocese de Formosa/GO. Filósofo, Escritor, articulista e Especialista em Docência do Ensino Superior.
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SABIDURAS DA MESTRA DONA FLOR DO MOINHO
E ia embora pra lá, e nós ia pro mato. Eu sou do mato por causa de minha vó.
Ela assim, ela não mexia com raiz, ela mexia com as alimentação do Cerrado, gravatá, pegava pequi, pegava baru, pegava mangaba, panhava cagaita, pegava um que eles chama de garirobinha… Por Dona Flor, com organização de Juliana Floriano Toledo Watson
E era assim, jatobá ela panhava, que tem dois tipo de jatobá, né? Tinha o jatobá que dava no tempo do caju, que é o jatobá do campo, e tem o da montanha, que minha vó falava, ela falava pra gente jatobazão.
Então ela cuidava mais dessa parte. Ela ia colhê as fruta dela as flô e as folha.
Tudo o que eu via, enfiava no nariz. Minha vó falava pra mim:
_ Cê ainda vai enfiá um besouro no nariz.
Porque eu panhava flor e esfregava no nariz, pra cheirar se ela cheirosa e levava.
Flô, folha eu pegava já levava umas capanguinha que minha vó fazia, que era uma sacolinha de pano, ela fazia daquele jeito pra mim levá pro mato, eu levava.
Eu panhava as fôia e cheirava… Essa aqui serve pra remédio, botava dentro da sacolinha.
Levava pra casa e botava lá, secano. E ela brigava, porque secava, sujava o terreiro e tal, e eu falava:
_ Mas ah, vovó, isso aqui uma hora vai servir.
_ Pra que minha filha, Sua o terreiro dimais.
_ Mas quando sujá o terreiro eu vou varrê.
E quando foi um dia ela começou com uma espirradeira, tossindo, ela fumava sempre o cachimbo, que ela mesma fazia, o cachimbinho de barro. Aí falou:
_ Eu tô com a cabeça doendo, com meu nariz doendo, e não sei o que eu faço.
Eu fui lá e botei a panelinha de barro no fogo, peguei a negramina, peguei a folha de cagaita, peguei um trem chamado de imbu, é um que toma pra emagrecer, peguei um da folhona grande, que dá um cacho vermelho, tem uns que chama bate-caixa, tem uns que chama chapéu de couro.
Aí eu fiz o chá e ofereci pra ela. Ela:
_ Eu não vou beber não.
Que nunca tinha bebido aquilo, que podia dá nela uma diarreia. Eu falei:
_ Não, vovó, não dá à senhora remédio amargo não, bebe ao menos um pouquinho.
Aí panhei sabugueiro, flor de laranja, casca de laranja, fiz um otro chá e dei pra ela.
Aí ela tomou o chá de laranja, deitou, já acordou, já acordou sem espirrar.
Acordou. Eu enganei ela e dei a ela do otru, tomou. Pegou o algodão, foi mexer com o algodão, esqueceu da dor, falô:
_ Minha cabeça aliviou, num tá doendo mais.
_ Pois é, agora nós podia era pôr um paninho na testa, pra segurar, pra não doer.
Vou esquentar esse paninho, eu ponho um na senhora e otru em mim.
Porque eu tava espirrano demais da conta. Nesse tempo não era assim como é hoje, era tudo poeira.
Aí eu arrumei esses dois paninhos e pus um nela e otru ni mim.
E eu bebi do chá, porque toda vida eu gosto de chá, bebi e deitei. Fomos dormir e acordei eu e ela lavadinha de suor.
Aí agora ela começou a acreditar nos remédios do Cerrado, e daí pra cá foi eu e ela, mas ela nunca pegava nem folha nem flô pra levar pra casa, eu que pegava.
O dia que podia eu ficava mais ela, o dia que eu, não podia, eu ficava com minha mãe.
O partejar e a farmacopeia de Dona Flor – Capa do Livro
Florentina Pereira dos Santos, Dona Flor e Juliana Floriano Toledo Watson (organizadora) – Excertos do livro “O Partejar e a Farmacologia de Dona Flor – História e ensinamentos de uma mestra Quilombola”. Editora Avá, 2022.
Dona Flor – Youtube “A parteira”
Florentina Pereira dos Santos, Dona Flor
Nasceu em 2 de fevereiro de 1938, na fazenda Santa Rita, Alto Paraíso – GO.
Gestou 15 filhos/as e adotou mais 27 vidas. Como parteira, recebeu em seus braços 333 crianças.
Quilombola da Comunidade Moinho, neta de indígena, analfabeta, foi boia-fria, garimpeira, tropeira, feirante, agente comunitária de saúde e assistente social. Na comunidade, foi mestra quilombola, parteira e raizeira famosa.
Dona Flor morreu em uma quarta-feira, 9 de agosto de 2023, em Alto Paraíso de Goiás, aos 85 anos de idade.
Juliana com Dona Flor – Foto: Reprodução/Internet
Juliana Floriano Toledo Watson
Nasceu no dia 11 de abril de 1985, no Distrito Federal. Ativista, feminista, viu na ginecologia natural e autônoma um dos caminhos para o bem-viver.
Iniciou seus estudos na área em 2006,com grupos de mulheres, e seguiu trilhando a partilha desses saberes em rodas e oficinas pela América Latina, sempre em diálogo com erveiras, parteiras e raizeiras tradicionais.
Mora em Cavalcante -GO, no meio de um Cerrado em regeneração.
Atua como terapeuta em ginecologia, enematerapeuta, doula e assistgente de parteira.
Faz parte da coletiva Saúde com Amor, que produz com carinho, cuidado e respeito, medicinas naturais, e repassa alimentos extraídos ou cultivados pelas comunidades.
Pesquisadoras, é formada em Antropologia, e é mestra e doutoranda em Bioética.
Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.
Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.
Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.
Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.
Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.
Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.
Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.
Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.
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