ASSIM ERA NO PRINCÍPIO…
Esta é a história do povoamento humano no centro da América do Sul, que tem início por volta de 13 mil anos Antes do Presente (AP), e seu final apenas se esboça, mas não se sabe aonde a estrada da evolução e do tempo a conduzirá.
Por Altair Sales Barbosa e Sandro Dutra e Silva
Naquele tempo, muitas das paisagens que hoje dominam o continente americano – e a América do Sul em particular – ainda não existiam na forma que existem atualmente.
O planeta Terra estava vivendo o final da glaciação pleistocênica. Havia muita turbulência, as correntes oceânicas possuíam raios de abrangência diferentes dos atuais, e elas refletiam de forma decisiva nas correntes atmosféricas que, aos poucos, foram modelando as paisagens continentais, distribuindo tipos climáticos pelos cantos do continente, consolidando alguns ambientes e modificando outros drasticamente.

Era a aurora de uma nova era ecológica, conhecida atualmente como Holoceno. O planeta estava se aquecendo, as geleiras do Ártico despencavam em blocos sobre o mar ou provocavam sulcos medonhos no interior dos continentes pelas correntes de águas derretidas. O nível do mar estava subindo e tomando lentamente as partes expostas do que hoje se constituem as plataformas continentais.
A lenta subida do nível das águas oceânicas proporcionava o represamento dos cursos d’água interiores e, com isso, a mecânica dos rios foi mudando, transformando estes em cursos d’água, fazendo-os menos velozes e mais largos, brindando oportunidades para a formação de planícies de inundação e lagoas marginais.
A temperatura, entretanto, era mais baixa que os padrões atuais em alguns locais do continente, e os ventos de junho e julho provocavam as friagens na parte central da América do Sul, um fenômeno tão forte que obrigava a muitas mudanças de comportamento na fauna nativa.
Por falar em fauna nativa, nessa época ainda existiam, em várias partes do continente sul-americano, vários animais que se extinguiram e alguns que sobreviveram até meados do Holoceno. Foi nesse cenário que os primeiros humanos chegaram no interior da América do Sul, através das levas migratórias do Oeste.
Tratava-se de um grupo pequeno, composto de quatro a cinco famílias nucleares, tendo ao todo 18 a 20 pessoas, incluindo crianças. Pelo que se conhece do comportamento dos grupos de caçadores e coletores, essa população chegou ao alvorecer, certamente veio “verediando” pelo alcantilado de alguma serra.
O sol já espelhava aquele céu azulado, e uma brisa temperada, tal qual um manto de algodão, cobria de calor aqueles corpos maquiados com cinzas. Enquanto o sol ia irradiando seu clarão, aquela gente pôde enxergar um pequeno córrego de águas límpidas e, mais ao longe, descortinaram-se as brumas brancas de uma pequena cachoeira. Bem próximo, uma lagoa e, mais distante, um rio de águas correntes parecia indicar que ainda existiam caminhos.
O dia foi-se evidenciando e, à medida que isso se concretizava, os animais de hábitos herbívoros se aglomeravam para se deliciarem com o gosto adocicado dos brotos novos das gramíneas que surgiam como tapete, esverdeando o solo escuro chamuscado pela última queimada.
Juntos estavam também animais insetívoros, que se banqueteavam ao redor dos cupinzeiros. Ao largo, na espreita, estavam camuflados os carnívoros, esperando apenas um vacilo para agarrar sua presa.
Aqueles humanos sentiam-se brindados diante de tal abundância. Ao olharem mais adiante, avistaram a testa esbranquiçada de um paredão de arenito. Sua intuição os conduziu ao local, e ali encontraram vários abrigos naturais. Nos taludes destes, mais embaixo, sempre havia uma mina d´água de excelente qualidade.
Os homens daquele grupo acamparam no abrigo. Providenciaram uma fogueira, reconheceram o melhor ambiente, escolheram locais mais protegidos para as crianças, distribuíram-se pelo abrigo de pedra, conforme suas conveniências, e ali permaneceram.
Nos campos havia abundância de caça, ora mais, ora menos concentrada, de acordo com a época do ano. Nos ribeirões e nas lagoas havia muitos peixes.
Nas vastidões dos cerrados e cerradões havia em cada época específica uma imensidão de frutos comestíveis. Também existia uma profusão de meliponíneas, abelhas nativas, sem ferrão, que recheavam as cavidades dos paredões, das árvores ou do solo, com seus deliciosos potes de mel.
Esses primeiros povoadores do centro da América do Sul tinham à sua disposição proteína animal, vitaminas diversas, oriundas dos variados frutos, e açúcares provenientes da coleta de mel silvestre.
Sua dieta ainda era complementada pela cata de ovos e pelo consumo de alguns insetos ou larvas destes. Sua sobrevivência era ainda presenteada com espécies lenhosas para as fogueiras e com uma variedade de matéria-prima mineral que utilizavam para fabricarem instrumentos.
Não se sabe ao certo se usavam algum tipo de vestimenta. Entretanto, como naquela época o clima era ligeiramente mais frio que o atual, é de se supor que algum agasalho confeccionado a partir de couro, principalmente de cervídeos, servia-lhes de proteção para as friagens.
Além do mais, seu grande arsenal de ferramentas de pedra mais bem trabalhadas ressalta a presença maciça de raspadores encontrados com marcas de sangue, sugerindo uma associação com o preparo do couro.
Altair Sales Barbosa – Arqueólogo. Conselheiro da Revista Xapuri (copiar qualificação das matérias anteriores. Excerto do livro “650 Gerações: O Brasil antes dos europeus”, editoras IAS, Xapuri, IHGG, 2024.
Sandro Dutra e Silva – Professor Titular na Universidade Evangélica de Goiás. Excerto do livro “650 Gerações: O Brasil antes dos europeus”, editoras IAS, Xapuri, IHGG, 2024.
Fotos: Arqueologia Formosa/Reprodução.





