O SELVAGEM E O HUMANO

O SELVAGEM E O HUMANO

O SELVAGEM E O HUMANO

No Canadá, onde as florestas parecem não ter fim e o inverno esculpe o silêncio, existe um território de fronteira entre o selvagem e o humano
Por
Antenor Pinheiro, especial de British Columbia, Canadá 

É o caso da província de British Columbia, num lugar chamado Northern Lights Wildlife Wolf Centre, um centro especializado que transforma a presença indomável de lobos em linguagem acessível à indústria audiovisual e a programas de visitação socioambientais, onde a natureza não é apenas observada, mas também cuidadosamente mediada. 

Ali, lobos nascidos em cativeiro crescem sob o olhar humano, aprendendo a tolerar sua proximidade. Não se tornam domésticos, mas atravessam uma linha tênue onde o instinto encontra o condicionamento. Veja-se na fotografia: dois lobos repousam sobre a rocha. Um mantém os olhos semicerrados, em vigília serena; o outro dorme profundamente, entregue à quietude. 

Há entre eles uma confiança silenciosa, um pacto antigo que dispensa conflito. A proximidade revela mais do que descanso: fala de vínculo, de hierarquia estabilizada, de um tempo interno que resiste, ainda que parcialmente, à lógica do controle humano. Mas há, sob essa superfície de harmonia, uma pergunta persistente. 

O que se perde quando o lobo deixa de ser apenas lobo para tornar-se também imagem? A tranquilidade que vemos (o corpo estendido, a respiração lenta) pode ser sinal de segurança, mas também de adaptação a um mundo onde a liberdade foi redesenhada. 

Entre a educação ambiental, o espetáculo e a conservação, esses espaços habitam uma zona de tensão. E talvez seja justamente nessa tensão que a imagem ganha força: dois lobos, ainda inteiros em sua essência, descansam, e por um instante nos fazem esquecer (ou lembrar) de tudo aquilo que não pode ser completamente domado. Criar animais em cativeiro evita a captura e reduz riscos, ao mesmo tempo em que permite ao público aproximar-se de espécies que, de outra forma, permaneceriam distantes. 

antenor pinheiroAntenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri. Capa: Pinheiro (Junho/2015).

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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