O SELVAGEM E O HUMANO
No Canadá, onde as florestas parecem não ter fim e o inverno esculpe o silêncio, existe um território de fronteira entre o selvagem e o humano
Por Antenor Pinheiro, especial de British Columbia, Canadá
É o caso da província de British Columbia, num lugar chamado Northern Lights Wildlife Wolf Centre, um centro especializado que transforma a presença indomável de lobos em linguagem acessível à indústria audiovisual e a programas de visitação socioambientais, onde a natureza não é apenas observada, mas também cuidadosamente mediada.
Ali, lobos nascidos em cativeiro crescem sob o olhar humano, aprendendo a tolerar sua proximidade. Não se tornam domésticos, mas atravessam uma linha tênue onde o instinto encontra o condicionamento. Veja-se na fotografia: dois lobos repousam sobre a rocha. Um mantém os olhos semicerrados, em vigília serena; o outro dorme profundamente, entregue à quietude.
Há entre eles uma confiança silenciosa, um pacto antigo que dispensa conflito. A proximidade revela mais do que descanso: fala de vínculo, de hierarquia estabilizada, de um tempo interno que resiste, ainda que parcialmente, à lógica do controle humano. Mas há, sob essa superfície de harmonia, uma pergunta persistente.
O que se perde quando o lobo deixa de ser apenas lobo para tornar-se também imagem? A tranquilidade que vemos (o corpo estendido, a respiração lenta) pode ser sinal de segurança, mas também de adaptação a um mundo onde a liberdade foi redesenhada.
Entre a educação ambiental, o espetáculo e a conservação, esses espaços habitam uma zona de tensão. E talvez seja justamente nessa tensão que a imagem ganha força: dois lobos, ainda inteiros em sua essência, descansam, e por um instante nos fazem esquecer (ou lembrar) de tudo aquilo que não pode ser completamente domado. Criar animais em cativeiro evita a captura e reduz riscos, ao mesmo tempo em que permite ao público aproximar-se de espécies que, de outra forma, permaneceriam distantes.
Antenor Pinheiro – Geógrafo. Membro do Conselho Editorial da Revista Xapuri. Capa: Pinheiro (Junho/2015).










