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Raoni: Os brancos querem acabar com a floresta

Raoni: Os brancos querem acabar com a floresta

Em homenagem a todos que lutam por seus territórios e culturas e para lembrar que a luta dos indígenas é também a nossa luta, publicamos esta entrevista

Por Eduardo Sá 

Chapada dos Veadeiros (GO) – Aos 87 anos, o ancião conhecido por Cacique Raoni segue sendo a maior referência do movimento indígena no Brasil. O líder da etnia Kayapó, povo que vive em terras indígenas localizadas do sul do Pará ao norte do Mato Grosso, é conhecido internacionalmente por sua luta pela preservação da Amazônia e dos povos indígenas. Raoni Metuktire já viajou o mundo para defender os direitos dos povos originários e foi recebido por diversos presidentes.

Dentre os artistas e celebridades que conhece, encontra-se o cantor inglês Sting, que participou de uma campanha internacional com ele na década de 1980. Sua voz ecoou mundo afora e teve como consequência a homologação do que hoje chamamos de Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso e Pará. É também desde a década de 1980 uma das vozes mais críticas à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.

Só em 1954 teve seu primeiro contato com o homem branco e sua formação e aprendizagem da língua se deram junto aos irmãos Villas-Bôas, famosos indigenistas naquele período. Apesar da sua visibilidade, até hoje mora em uma cabana e tem uma vida simples. Criou o Instituto Raoni, que desenvolve projetos em defesa dos seus parentes, como chama os demais indígenas. Defensor ferrenho da cultura indígena, sempre aparece de cocar e usa desde a adolescência o seu característico botoque no beiço.

Como não fala português direito até hoje e faz questão de se comunicar através da sua língua materna, seu neto fez a tradução desta entrevista. Na conversa com a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), realizada durante o XI Aldeia Multiétnica, evento com diversas etnias na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, ele fala sobre a importância da conservação do modo indígena de ser e da nova geração. Para ele, é importante que os índios se unam e reivindiquem seus direitos junto aos governantes.

Qual é o principal desafio para o povo indígena?
Antigamente, quando eu era bem pequenininho, os nossos ancestrais, os parentes, minhas famílias, mudavam de moradia indo a outros lugares e depois voltavam até mudar de novo. Mas hoje em dia nós temos só um território mesmo, não tem mais espaço como era antes. Esses territórios são como se fossem a nossa casa, não tem mais lugar para morarmos longe da nossa moradia. Então, hoje, os jovens da nova geração estão mais envolvidos na questão da cultura dos brancos, estão perdendo a cada dia esse conhecimento. E se eles continuarem assim, não vai ter mais território.

O que é mais grave para os índios nessas perdas de território? As hidrelétricas, a agricultura do branco, a mineração?
Eu vejo todos os problemas que afetam os territórios. Como você falou, são as hidrelétricas dentro da área indígena, o desmatamento das florestas, as plantações de soja e isso afeta muito as comunidades. Na minha visão, essas são as coisas piores. E daqui para frente, quando os fazendeiros continuarem a desmatar as florestas, não vai ter mais ar para a gente respirar. Às vezes, eu vou a Câmara dos Deputados pedir às pessoas que trabalham lá para elas pararem de fazer isso, mas elas continuam e não me escutam. Isso é muito grave.

Diante da sua experiência em relação ao Estado, como você vê o tratamento do governo com os índios?
Na época que o homem branco teve contato com os índios era muito melhor, e hoje em dia não temos a mesma situação. Antigamente, homem branco ajudava os povos indígenas com recursos para atender nossas necessidades, como a saúde, a Funai e demais coisas. Hoje não ajuda mais a gente, está mais focado no caso dos brancos em geral e nos esquecendo. Até hoje venho lutando pela nossa causa, para não acontecer desmatamentos e hirdrelétricas, isso eu não aceito!

Você incentiva os jovens indígenas a estudar a cultura do homem branco, a ir para a universidade, por exemplo?
Temos essa preocupação. É muito ruim, porque os jovens de hoje, quando vão à cidade, acabam se adaptando àquele lugar. Nunca vi um índio ter esse conhecimento avançado na cultura dos brancos para poder voltar à aldeia e ajudar o povo. Então, isso eu não gosto e é minha preocupação. A juventude de hoje está mais envolvida na cultura do branco e isso é muito preocupante.

O jovem que já tem a formação e o conhecimento de branco tem que escrever a história e riqueza da nossa cultura. Tem que documentar tudo isso, enquanto eu estou aqui ainda vivo. Entregar o documento na mão do governo exigindo nosso respeito e direito. Temos que nos unir, escrever e documentar. Já falei aos meus parentes Kayapó, e eles já estão com um documento aguardando eu chegar para entregar a autoridade. Nós também temos força e poder e somos capazes de lutar. Se não fosse assim, nós tínhamos acabado. Nós temos nossa resistência e precisamos nos unir para usar a aprendizagem de branco para lutar contra quem está nos ameaçando.

A última liderança indígena de mais expressão no Congresso foi o Juruna, como deputado federal, e a Funai nunca teve um presidente indígena. Como enxerga essa representação dos povos originários por dentro do Estado?
O que está faltando é um índio ter conhecimento muito avançado dos brancos, por isso que nenhum índio está na Funai ou no Congresso. Então, alguns deles têm que estudar e buscar esse conhecimento para poder estar lá defendendo nossos povos. Isso que está faltando.

O que você acha desse tipo de iniciativa da Aldeia Multiétnica para promover a troca entre etnias diferentes?
Estou feliz de estar aqui, mas ao mesmo tempo fico triste de ver muitos índios envolvidos com a cultura branca de camisa e roupa. Os nossos parentes estão se acostumando com a cultura de vocês, e hoje em dia cada um dos nossos povos está na cidade para aprender o conhecimento e poder nos defender. Os brancos querem acabar com as florestas, os territórios indígenas, e isso é muito ruim. Com  indígenas tendo esse conhecimento, poderão proteger e ajudar os nossos povos.

Está acontecendo tudo o que os Villas-Bôas tinham falado. O Cláudio apontou na minha cara e disse: “Escuta o que estou falando pra você, aprende, não esqueça, você tem que ser você para depois ajudar seu povo”. Estou usando a fala dele para me orientar na fala com o delegado, as autoridades, o juiz, chefe e governo. Estou usando tudo que ele ensinou para defender nossos parentes. Temos que preservar nossos direitos, preservar nossa cultura. Não é só o branco que está destruindo a nossa cultura, nós próprios, índios, também estamos. Os jovens têm que aprender comigo, só assim temos força e somos capazes de lutar pelos nossos direitos.

O que você pensa sobre o que está acontecendo na política brasileira?
Vamos esperar que entre eles, autoridades, façam esse tipo de bagunça, a politicagem deles. Quando acalmar, aí vamos levar o nosso documento para entregar ao governo que vai assumir depois. Quando o branco ficar quieto, vamos nos juntar. Quero todos os caciques de todas as etnias unidos para ir lá falar com o governo e entregar o documento para ele escutar nossa fala, para o povo dele não nos criticar mais. Os brancos também são preguiçosos, por que tem gente dormindo e pedindo esmola na rua? As máquinas que ajudam a produzir muito, fazem muita coisa por dia para o branco. Mas nós não, nós fazemos as coisas com nossas mãos e braços. O branco usa tecnologia para produzir muita coisa e depois dizer que nós índios somos preguiçosos, mas nós não somos. O branco está nos destruindo e nos afastando do nosso direito, por isso temos que nos unir e usar o que aprendemos.

Fonte: EDUCEZIMBRA

Matéria publicada originalmente em 10 de março de 2019. Dada sua importância para a formação de consciências em defesa dos povos indígenas, voltamos a publicá-la em 20 de fevereiro de 2020. Raoni tem agora 89 anos de idade. E continua firme. 

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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