A CASA QUE NOS ACOLHE E NOS MOLDA

A casa que nos acolhe e nos molda

Quem já navegou pelos rios do Alto Juruá no Acre sabe bem como são comumente as casas dos ribeirinhos. Madeira serrada, coberta de telhas de alumínio, muitas das vezes com uma cozinha anexa feita de paxiúba e coberta com palha de jaci ou caranaí1. Ao sermos convidados a “subir”2, tiramos os chinelos, lavamos os pés melados no vaso com água que está no trapicho3.

Porto da Vila Liberdade localizada às margens da BR 364. (Foto: Tatiane Sousa/Arquivo pessoal)

Para minha surpresa, fui tão bem recebida que cá estou até hoje. Me diziam: “Quem bebe água do Liberdade, nunca mais vai embora!”. E certamente, também há afirmações correlatas para o sinuoso Juruá aqui na sua princesinha.

Ao ser convidada por Fabio Pontes para escrever pro Varadouro, senti que deveria compartilhar com quem me lesse um pouco daquilo que também foi compartilhado comigo nos seringais do rio Liberdade. Transitar entre suas comunidades, contar aquilo que ouvi e me foi ensinado. Honrar a memória dos mestres professores e professoras da floresta que tive e que já partiram.
Assim, compartilhar a casa que me acolheu e que de pouquinho em pouquinho, foi moldando parte do que sou hoje. Da caça à agricultura, dos “causos” à política, numa casa às margens do rio pode se discutir e contar sobre os mais variados assuntos. 

Dona Marta tratando carne de veado vermelho, também conhecido como veado capoeiro. (Foto: Tatiane Sousa/Arquivo pessoal) 

Pode ser que você me acompanhe com uma faca empunhada em mãos para “raspar” mandioca no roçado, ou então estejamos na varanda à noite ouvindo causos de “batedor” e “caipora”, pode ser também que eu lhe apresente um velho amigo ou amiga mestre(a) da floresta, a trajetória de resistência de alguma liderança, ou lhe conte algo que poucos conhecem por ser muito particular deste território. 

Entardecer na comunidade Periquito, médio rio Liberdade. (Foto: Tatiane Sousa/Arquivo pessoal)

Inspirada nas histórias do finado mestre arigó Manoel Ferreira de Souza, mais conhecido no rio Liberdade como Nem Soares, o qual chegou aos seringais do Alto Juruá logo após a segunda guerra mundial, período em que o Estado passou a subsidiar a economia extrativa da seringa, dizia então aos meus alunos e alunas enquanto educadora popular:
“A casa dessa tradição não tem linha de embaúba, nem seu caibro é de periquiteira da capoeira fina! As palhas que lhe cobrem o telhado foram tecidas com as mãos Santas dos antigos” (Sousa et. al 2025).

Acredito que a melhor forma de ensinar não é através do discurso, da narrativa, apesar de me valer dela e entender sua profunda importância. Sobretudo, ensina-se através do exemplo.
Assim, esta coluna é acima de tudo, minha tentativa de sempre honrar a memória dos antigos. Por fim digo, aqui nesta casa servimos café com tapioca e esperamos com sinceridade que apreciem nossas histórias. 

Estas são as mãos do pai de minha filha sobre um “banco” com mandiocas que deverão ser “sevadas”, trituradas. Estão meladas de “açafrô”, como é chamado localmente o açafrão usado para fazer farinha de mandioca. (Foto: Tatiane Sousa/Arquivo pessoal).
  1. Palmeiras amazônicas comumente utilizadas no extrativismo local para construção. A madeira da paxiúba (Socratea exorrhiza) é usada para assoalhos e as palhas do jaci (Attalea butyrace) e caranaí (Lepidocaryum tenue) para telhados. ↩︎
  2. Expressão utilizada para convidar quem chega a entrar na casa. De fato você irá “subir”, dado que comumente as casas são altas em relação ao nível do solo, construídas com barrotes que a sustentam e trapichos na entrada. Deste modo, tornam-se adaptadas ao regime de cheias e vazantes do rio. No inverno, permite certa distância da água e no verão, a casa torna-se ventilada por conta das frestas entre as tábuas do assoalho. Esta arquitetura é típica ribeirinha. ↩︎
  3. Assumo o termo trapicho e não trapiche pois é assim que pronunciamos a palavra no Alto Juruá. ↩︎
  4. Cocão (Attalea tessmannii) é uma espécie de palmeira endêmica do Acre muito utilizada no extrativismo local, principalmente como carvão e na culinária a partir da produção de óleo e leite. ↩︎

 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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