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Lumpesinato em Brasília: Pau (lo Freire) neles!

Lumpesinato em Brasília: Pau (lo Freire) neles!

A hora é grave e inconstante. Tudo aquilo que prezamos: o povo, a arte, a cultura, vem sendo desfigurado pelos homens do passado, que por terror ao futuro, optaram pela tortura”. (Vinicius de Moraes. Amigo Di Cavalcanti. 1963)

Por José Bessa Freire

Nas noites calorentas de Manaus, as famílias do bairro de Aparecida colocavam cadeiras nas calçadas dos becos diante de suas casas e narravam histórias de um tempo mítico que nunca acaba. Contavam, às vezes em forma de parábola bíblica, que tudo o que aconteceu ou acontecerá no mundo já teve como palco o antigo bairro dos Tocos. Tudo?

Quase tudo. A invasão das sedes dos Três Poderes, no domingo (8), não tem precedentes, nem mesmo nas periódicas incursões predatórias realizadas contra os “bucheiros” de São Raimundo, bairro do outro lado do igarapé. Nesta rixa histórica, a gente sempre respeitava o sagrado, nunca se depredou igreja, escola, catraia. Centuriões da PM e fariseus de coturno do quartel do 27º BC jamais apoiaram tais ações, como ocorreu agora em Brasília.  

O único precedente, é verdade, foi dado pelo Neighborhood of Our Lady who appears, um bairro-irmão dos Estados Unidos, que testemunhou há dois anos a invasão do Capitólio em Washington. Lá eles prenderam e processaram 900 vândalos.  Mas o igarapé de São Raimundo não é o Potomac River.

O que fazer com 1500 terroristas presos na Academia da Polícia Federal que depredaram as sedes dos Três Poderes? O ministro da Justiça, Flávio Dino, anunciou a operação sem a qual o governo Lula não sobrevive: identificar e julgar os financiadores, organizadores, executores e mandantes. Alguns presos em flagrante, que vão responder pelo crime em liberdade, deduraram vários financiadores. Afinal, quem são eles? A que classe social pertencem?

Lumpesinato

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Os delinquentes fichados pela polícia fazem parte de diferentes setores do lumpesinato. Marx denominou de lumpenproletariat os marginalizados e desempregados crônicos, que às vezes recorrem ao roubo. Esse “proletariado esfarrapado” excluído do sistema de classes e, portanto, carente de consciência social, é facilmente manipulado pelas classes no poder em troca até de um prato de comida, como os manifestantes protegidos pelo Exército.  

Mas há golpistas da lumpenburguesia, termo usado por André Gunder Frank para nomear a fracção social parasitária antidemocrática de comerciantes, agro negociantes, industriais, madeireiros, empresários do transporte e do garimpo, que vivem à sombra do poder e cuja mentalidade, segundo o sociólogo alemão criador da teoria da dependência, se assemelha à do lumpenproletariat. Saca o Véio da Havan? O Luciano Hang?  Pois é!  

Numa ampliação do conceito, podemos nos referir ainda à lumpen-academia, no qual se enquadram médicos, advogados, professores universitários, além de militares graduados do “Meu Exército Imbrochável”, pertencentes a uma casta com salários estratosféricos, aposentadoria integral, que incentivaram durante mais de dois meses a presença de golpistas em acampamentos frente aos quartéis, de onde saíram para o quebra-quebra.

Arnold%20HauserSão todos lumpen esfarrapados. O que os une é o ódio à arte, entre outras motivações. Esfaquearam obra-prima de Di Cavalcanti, mijaram em peça de Burle Marx, vandalizaram criações de Bruno Giorgi e Frans Karajcberg, quebraram esculturas como a “Bailarina” de Brecheret, picharam “A Justiça” de Alfredo Ceschiatti, atiraram no chão um crucifixo do STF e apunhalaram o “Orixás” de Djanira, que havia sido retirada do Salão Nobre por Michelle Bolsonaro, por ser “coisa do demônio” uma leitura sui generis da arte e cultura popular.  

lumpesinato, que abomina manifestações culturais e artísticas, nunca ouviu tais nomes. Não é crime desconhecê-los. Muitos leitores, como eu, também não conhecemos as 700 obras do Palácio do Planalto, mas as amamos assim mesmo, porque pertencem ao patrimônio cultural do país.

Lições de civilidade

A depredação de obras de arte é “A derrota do pensamento”, livro do filósofo francês Alan Finkielkraut, para quem o pensamento baseado na ciência, na experiência, na leitura e nos saberes ancestrais está sendo destroçado por negacionistas como os invasores de Brasília. Aí a barbárie se instala, a humanidade retrocede e fica em quatro patas. Para retomar a postura ereta e a inteligência do homo sapiens, os golpistas precisam passar por um processo civilizatório: aprender a admirar a beleza, conhecer literatura, poesia, artes plásticas, música.

Sugiro para isso que os condenados à prisão assistam cursos baseados na pedagogia crítica e libertadora de Paulo Freire, autor execrado no governo do Imbrochável. Os que aceitarem, terão direito à redução da pena, considerando que “a educação é um ato político e a política é um ato educativo”. Podemos criar um currículo supimpa com várias disciplinas, entre elas a História da Arte.

ernst%20fischerOs presidiários golpistas deverão ler dois livros fundamentais dos anos 1950: “A Necessidade da Arte” do austro-checo Ernst Fischer, com prefácio magistral do saudoso Antônio Callado e “A história social da literatura e da arte” do húngaro Arnold Hauser, em dois tomos, que tomei emprestado em 1979 de Renan Freitas Pinto, professor da UFAM, e a quem – que vergonha! – não devolvi até hoje. Não é meu, mas empresto. Vale a pena ler, embora como se queixou o Imbrochável, tenha “muitas letras e excesso de palavras”.

Se os depredadores do Planalto forem vacinados com esses livros, compreenderão quão hediondo foi o crime cometido, pois a arte, uma das formas de consciência social, nos completa e nos define como humanidade. “A função da arte – escreve Fischer em um dos cinco capítulos – não é a de passar por portas abertas, mas de abrir as portas fechadas”.

Calo nos dedos

As portas fechadas dos golpistas eram “outras”, que foram abertas por várias pessoas, entre elas a docente da UNESP, Sandra de Moraes; a presidente interina do Conselho Federal de Medicina, Rosylane Rocha; a defensora pública Ana Lúcia Braga do 2º Juizado Especial Cível de Niterói e a tenente do Exército, Silvia Waiãpi, indígena criada por uma família de Macapá recém eleita deputada. Elas comemoraram nas redes sociais a invasão do Congresso Nacional. Isso não tem precedentes no bairro de Aparecida.

dia%20do%20leitorPor isso, o uso da pedagogia de Paulo Freire para redução da pena vale apenas para patriotários desinformados e arrependidos, usados como bucha de canhão. Já para militares, médicos, advogados, professores universitários, parlamentares, pastores monetizados, empresários e cretinos digitais fake que participaram do golpe, convém empregar o método tradicional da dona Lurdes Normando, professora particular do bairro de Aparecida, obrigando-os a escrever 100.000 vezes cada uma das frases abaixo até criar calos nos dedos:

– Porta de quartel não deve ser incubadora de terroristas.

– Nunca mais atentarei contra a democracia e contra o patrimônio do povo brasileiro.

– A vacina contra a covid não causa a AIDS e protege os vacinados.

P.S. Sônia Guajajara e Anielle Franco não foram empossadas, mas empoderadas como ministras numa cerimônia belíssima. Juro que ouvi a voz de Mercedes Sosa cantando Como la cigarra de Elena Walsh:  

Tantas veces me mataron,

Tantas veces me mori.

Sin embargo estoy aqui

Resucitando

Gracias doy a la desgracia

Y a la mano con puñal

Porque me mató tan mal

Y segui cantando.

Cantando al sol

Como la cigarra

Después de un año

Bajo la tierra.

José Bessa Freire – Cronista.  Matéria publicada originalmente em https://taquiprati.com.br/cronica/1675-lumpesinato-em-brasilia-pau-lo-freire-neles.  Todas as imagens vêm da publicação original. 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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