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A NUVENZINHA APAIXONADA NO PAÍS DA FLORESTA

A NUVENZINHA APAIXONADA NO PAÍS DA FLORESTA

A nuvenzinha apaixonada no país da Floresta

Conto de José R. Bessa Freire inspirado em Nazim Hikmet e Gabriel Gentil Tukano (in memoriam)

“E mesmo que toda a gente / fique rindo, duvidando / destas estórias que narro / Não me importo:

vou contente / toscamente improvisando / na minha frauta de barro”. Luiz Bacellar (1928-2012).

I – O País da Floresta

Tudo era deserto. Árido. Só areia, pedra e cascalho. Naquele espaço triste, vazio, seco, sem vida, Yepá – a Avó do Mundo cria uma única árvore, a samaumeira, alta e imponente, conhecida como “mãe das árvores” ou “escada do céu”. Ela se senta à sua sombra, num banco kumurõ. Tira da bolsa de capim dourado uma flauta sagrada feita do osso do vento e começa a tocar. 

Cada vez que Yepá sopra e levanta os dedos, pelos oito furos da flauta escapam seres vivos. Brotam árvores de castanha, seringa, andiroba, copaíba, buriti, patauá e tantas outras. Jorram cursos d’água e acidentes geográficos: rios, igarapés, lagos, ilhas, cachoeiras, serras, vales, savanas. O vento leva tudo aquilo para fora do deserto, criando bem longe o País da Floresta. Só falta gente. E animais. 

Yepá afina o instrumento. Quando toca de forma sincopada, da flauta saem um lago, uma roça e um jardim com sua fauna e flora: formigas, tanajuras, pássaros como o uirapuru, roedores como o quatipuru, cobras e lagartos. Toca outra vez o chorinho carinhoso – ai se tu soubesses como eu sou! – e da flauta escapa, dançando, uma menina linda da pele cor de açaí, cabelo de azeviche, olhos de jabuticaba.

– Dandara Marielle dos Anzóis Pereira é o teu nome – diz Yepá, batizando-a.

– Vovó, você conta histórias e canta para eu dormir?

Yepá acaricia Dandara, sopra seus cabelos, a menina sai voando, voando, atravessa a fronteira ainda não demarcada de Tordesilhas e pousa em cima da folha de seda de um buritizeiro. Desce no jardim florido à beira do lago. Chegara, por fim, ao País da Floresta, onde vivem os filhos da música de Yepá.

Na roça, Dandara planta mandioca, milho, guaraná, feijão, amendoim, pétala-de-mamãe-velha e vaso-perfumado ao lado de árvores frutíferas. Cerca a roça com cunaparu, cuja seiva ácida e leitosa enxota as formigas. No jardim, arbustos, bromélias e cipós floridos: orquídea, açucena, papoula, amor-agarradinho, espada-de-São-Jorge, brinco-de-princesa, trouxa-de-velho, pingo-do-céu.

– Agora eu pertenço a esse jardim e a essa roça. Vou trazer a vovó para a minha morada – exclama Dandara enamorada.

II. A Avó do Mundo e o Mariró

Mas a Avó do Mundo continua lá longe, no deserto, sentada debaixo da sumaumeira, criando o mundo. Ela respira fundo. Fecha alguns furos da flauta e, de repente, sai uma nota dó desafinada e com o som doído pula um ser endiabrado, que dá duas cambalhotas e cai ali perto. Mariró – esse é seu nome – mais que depressa rouba a flauta da vovó e foge em louca disparada. Ela atira uma pedra na cabeça dele. A pancada é tão forte que ele larga a flauta e é arremessado para o País da Floresta, onde cai dentro de uma canoa feita de casca de jatobá.

Logo arma uma vela redonda e transforma a canoa em um bergantim, uma caravela disfarçada. Pilota o barco rio abaixo e contempla, deslumbrado, a mata cheia de árvores, as plantas cheias de flores, o rio cheio de peixes, o bosque povoado de animais, de seres míticos, de histórias. Escreve tudo o que vê na “Relación del descubrimiento del famoso rio Grande por el capitán Moriró Messias”, com palavras emprenhadas de cobiça:

– Descobri o País da Floresta. Se eu vi primeiro, é meu. Tudo isso me pertence. 

Seus olhos gulosos vão se apoderando do mundo, até mesmo do que está debaixo da terra, que ele descortina com visão penetrante: ouro, prata, esmeralda, diamante, nióbio, titânio. Mas eis que de repente, a caravela com fome de ouro tem uma surpresa ao se deparar com o jardim e a roça cultivada por uma menina à beira de um lago. Mariró se apresenta:

– Sou o dono do País da Floresta. Cuique suum. A cada um, o que é seu. Quero a água deste lago para construir uma barragem e nela depositar os rejeitos de minérios. Vou derrubar as árvores para plantar soja e capim de pasto para bois. Se você chegou aqui antes de mim, reconheço o uti possidetis e compro jardim e roça.

– Não posso vender. A terra não é minha, não me pertence. Eu é que pertenço a ela. Sou sua filha. Ninguém vende a mãe.

Mariró mostra seu poder à menina: atira na água uma bomba explosiva, matando muitos peixes que lá brincavam. Dandara se assusta. Seu amigo Quatipuru toca o tambor de tora de madeira escavada – o trocano – para alertar outros peixes que iam desovar na cabeceira do rio. Os peixes da piracema percebem o perigo e, precursores da insurgência da Cabanagem, afundam o barco. Mariró cai no rio. O poraquê dá-lhe um choque elétrico, a piranha morde o dedo dele, o candiru penetra seu nariz e o jacaré abocanha sua bunda. Uivando de dor, ele nada até a terra. Dandara se pergunta: cadê a vovó?

III. A Nuvenzinha: o sol da liberdade

A Avó do Mundo, sentada no mesmo lugar no deserto, ainda não havia terminado a criação. Sopra outra vez a flauta sagrada, que irradia a sonoridade da floresta. Quando toca a ópera “Alma”, que ainda nem havia sido composta por Cláudio Santoro, de dentro da flauta sai uma auréola branca, que sobe e, lá no alto, forma uma nuvem majestosa, que se desloca em direção ao longínquo País da Floresta.

Ao atravessar a fronteira, a Nuvem avista lá de cima o Mariró escondido atrás de uma árvore, com a espingarda engatilhada, apontada para o Quatipuru que dormia e sonhava. A Nuvenzinha ofusca o Mariró com o raio fúlgido do sol da liberdade que brilha no céu nesse instante. As margens plácidas do lago ouvem um brado retumbante: Mariró erra o tiro, tosse, espirra e esfrega o olho no meio da mata. O Quatipuru foge e ciceroneia a nuvem em direção ao jardim de Dandara. Chegam lá na hora da sesta.  

Deitada entre açucenas na rede de fibra de tucum, Dandara roça os dedos dos pés enfiados nas cordas do punho, num vai-e-vem prazeroso. Com a mão estendida faz cafuné no Quatipuru que, ainda ofegante, cochila no chão. É a felicidade. A menina contempla o céu, justamente no momento em que a Nuvem aparece e começa a dançar para lá e para cá, sol e sombra, sombra e sol. Dandara vê o movimento da Nuvenzinha, a quem o Quati agradece por ter impedido a sua morte. A Nuvem suspira:

– Imagina!

Dandara, com a ponta dos dedos, manda um beijo para a Nuvenzinha, que toma a forma da flor da Vitória-régia. Desde que o céu é céu, ninguém havia visto desabrochar flor branca tão exuberante. Enquanto a menina contempla, maravilhada, aquele espetáculo, a Nuvenzinha saracoteia, se retrai, se alonga, se espreguiça e toma a forma de um coração. A partir desse dia, ficará sempre por perto. É Dandara na terra e a Nuvenzinha no céu. A menina rega a roça e o jardim protegida pela sombra amiga. Logo, as flores pedem luz e a Nuvem então se afasta, banhando o jardim inteiro com a claridade até a hora do crepúsculo em que o sol vai dormir.

IV. O Quatipuru e a canção de ninar

O sol dormiu. Na noite de céu estrelado, cintila a lua crescente. Ao som de Jardim Noturno e da Festa no Céu que Cláudio Santoro ainda não criara, Dandara repousa na rede molhada de orvalho A Pombinha dorme pousada em seu ombro. O Quatipuru, ao perceber um clarão no céu refletido no lago Espelho da Lua, toca o trocano dando o alarme de perigo.

É um incêndio provocado por Mariró. Animais e plantas morrem consumidos pelas labaredas, por desidratação ou asfixiados. Rapidamente, a nuvem faz chover e o lago fica fosco, embaçado:

– Já apaguei o fogo, mas o céu está cheio de fuligem. Agora vou limpar o ar – grita lá de cima a Nuvenzinha, que se transforma num trapo, desce até o lago, molha o pano, sobe e limpa a lua e as estrelas, faz isso várias vezes, até que elas, resplandecentes, começam a brilhar de novo.

– Obrigado, maninha Nuvem – diz Dandara, com insônia. A Nuvenzinha aterrissa, sopra uma brisa leve para embalar a rede e, com a cara da Avó do Mundo, canta uma canção de ninar em duas línguas que ainda nem existiam: o Nheengatu – a língua geral da Amazônia e o português – a última flor do Lácio.

Acutipuru ipurú nerupecê  / Cimitanga-miri uquerê uaruma.

Quatipuru, me empresta o teu sono, / para eu fazer dormir minha criança.

De onde vem a fama de dorminhoco daquele Quatipuru de olhos grandes, com marcas amarelas atrás das orelhas?  Ele troca o dia pela noite. Passa o dia todo cochilando, e atravessa a noite acordado, fazendo serenatas ao luar. É um dos poucos animais que desce das árvores de cabeça para baixo, enterra sementes que germinam e toca tambor. Agora, enquanto Dandara dorme embalada pela canção de ninar, ele vigia o jardim. Percebe barulho de passos sobre as folhas. Vai verificar. Um vulto se move na sombra.  

V. Tiririca barba-de-bode

É Mariró que entra no jardim, silenciosamente, vestido de bandeirante: gibão de couro de anta, botas de cano alto e chapéu de aba larga. Armado com bacamarte, escopeta e facão, olha à direita, à esquerda – bandidos quando fazem maldade sempre olham antes para os dois lados – e aí começa a cortar as flores do jardim. O cravo, embora sem haver brigado com a rosa, saiu ferido e a linda rosa juvenil, despedaçada. Cada pétala geme ao cair no chão. Mariró coloca o facão no caule triangular de uma tiririca barba-de-bode. 

– Tem piedade de mim, cunhado, um dia posso te ser útil – diz a Tiririca.

Mariró, esperto, não mata essa erva. Calcula que pode precisar dela. É quando o Quati toca o trocano, dando o alerta geral. A Nuvenzinha se transforma em mão, agarra a ponta da lua crescente como se fosse uma foice, desce até o jardim e espeta a bunda do Mariró. Começa, então, uma luta de espada, a Nuvenzinha bate com força e esmigalha o facão em pedacinhos, como se ele fosse de vidro. Desarmado, Mariró foge.

Dandara cuida, então, das flores feridas como boa enfermeira. Ao ver a Tiririca sorridente e cheia de saúde, lhe diz:

– Sei que nenhuma planta é daninha. Você tem propriedades terapêuticas, mas que podem ser usadas também para causar danos. Por que se aliou com quem matou suas irmãs? Agora, vá germinar em outro lugar.

Dandara cavou ao redor da Tiririca e com uma pá transportou-a cuidadosamente para o outro lado do lago. De lá, a erva testemunhou quando Mariró entrou em sua caravela e pediu cinicamente a mão de Dandara:

– Casa comigo. Sou o ser mais rico da floresta.

– Você não quer casar comigo, mas com o jardim que habito. Vá embora daqui.  

Mariró esperou anoitecer e tentou invadir o jardim e a roça. Mas a Nuvenzinha, que viu tudo, graças aos cogumelos bioluminescentes ainda não estudados pela bióloga Noêmia Ishikawa, tomou a forma do Curupira, que mora na sapopemba da sumaumeira e atacou o invasor. Ele se borrou de medo e fugiu mais uma vez.

A Nuvem-Curupira o perseguiu até o outro lado do rio, depois voltou, já transformada em onça pintada. Deitou-se aos pés de Dandara, que acariciou sua cabeça. A Nuvem-Onça ronronou e mexeu o rabo, toda catita. As duas conversavam sem saber o que Mariró aprontava na outra margem do rio.

VI. País da Seca, País do Vento

Lá, escondido no igapó, Mariró fofoca com a Tiririca, que tem um mapa para descobrir outros países. Os dois entram na caravela, singram por mares nunca dantes navegados, sobem o rio, transpõem cachoeiras, atravessam montanhas, cortam planícies, descem vales, varam lagoas e lá, aonde o capiroto perdeu as botas, recolhem um enorme vaso de barro e um grande cesto com tampa – um paneiro feito de tala de arumã forrado com folha de sororoca.

A viagem prossegue até uma planície cercada de rochedos rachados e de arroios secos. É um areal sem fim. A terra esturrica e arde no chão em chamas. Com o calor de fora, as palavras esquentam dentro da boca e se ressecam na língua até tirar o fôlego, como descreveria depois Juan Rulfo vendo “El llano en llamas”.

Mariró olha a terra ardendo qual fogueira de São João e diz à Tiririca:

– Que braseiro, que fornalha! Nem um pé de plantação. Esse é o País da Seca.

Eles enchem o vaso com a areia ardente e continuam a viagem.

A caravela adentra por aqui, por ali, chega ao País do Vento, que sopra muito forte, balança as palmas dos coqueiros, encrespa as ondas do mar e empurra a caravela até a foz do grande rio, cujas águas despejadas no oceano provocam choque estrondoso, parece o fim do mundo, com ondas de dez metros de altura. Era a pororoca. Mariró e Tiririca aprisionam o Vento no cesto com tampa. Fazem, então, o caminho de volta e chegam de madrugada no jardim de Dandara.

VII. Mariró: ele não!

Lá, todo mundo dorme, apenas o Quati vigia. Mariró chega, disfarçado e sorrateiro, com o vaso cheio de areia em brasa nas costas. Derrama no jardim toda a areia do País da Seca e provoca um incêndio que desta vez se propaga rapidamente, ao som desesperado da sinfonia O fogo na floresta que Villa Lobos ainda iria compor. 

As folhas verdes se transformam em pó preto, os animais morrem carbonizados, os pássaros não conseguem proteger seus ninhos. O Quati toca o tambor e emite assobios agonísticos que acordam Dandara. Ela corre para o jardim, vê as flores feridas de morte, as folhas amarelam, as plantinhas secam, murcham, desfalecem.

– Salva-nos, Dandara!

A menina busca água no lago. Enche o regador, despeja sobre as plantas, volta, enche outra vez, corre de um lado a outro, mas a areia ardida do País da Seca bebe tudo e continua queimando. Ela salva um tatu desidratado dando-lhe de beber. O regador, porém, não consegue saciar a sede de todas as flores. Mariró, lá na beira do rio, observa aquele inútil ir-e-vir. Lixa suas unhas sujas, dissimula o riso maldoso e, fazendo arminha com os dedos, mente:

– O Curupira incendiou teu jardim, que perdeu seu valor porque virou um cemitério de plantas. Eu compro assim mesmo, mais barato.

– Ele não! – clamam as plantinhas feridas.

A Pombinha foge, jurando que daria notícias numa carta que escreveria nas asas de um passarinho.

– A Pombinha voou, voou, foi embora e me deixou – lamenta Dandara.

Mas a Pombinha foi despertar alguém que cochilava:

– Irmã Nuvenzinha, outro incêndio. Corre e socorre a floresta.

A Nuvem, prostrada com um resfriamento adiabático, está sem forças. Levanta os braços e murmura debilmente:

– Se eu chover agora, salvo todo mundo, mas desapareço.

Dito e feito. A Nuvem bebe toda a água do lago, incha, fica negra, espessa, o céu escurece e anuncia um grande temporal. Chove. Muito. A Tiririca recomenda ao Mariró:

– Abre a tampa do cesto!

Mariró liberta o Vento preso que, furioso, sopra forte, arranca árvores, cujas folhas e galhos tremem. As raízes se sacodem. O Vento espalha o fogo e tenta empurrar a Nuvem de chuva para bem longe. Ela toma a forma de um grande coração que explode em mil coraçõezinhos.

– Aguenta firme, Nuvenzinha – imploram Dandara, o Quatipuru, a Pombinha, as árvores e as flores agonizantes.

O vento, já cansado, já sem fôlego, para de soprar. Chove chuva, chove sem parar. Mariró morre de raiva, Dandara e seus amigos, de alívio. Mas quem morria mesmo, de verdade, era a Nuvem, que ia se dissolvendo numa tempestade.

Toda água do mundo cai do céu. As flores e os animais matam a sede, se levantam, respiram e, lentamente, retomam suas cores. Mas a Nuvem agoniza, diminui, toma a forma de um olho e se desfaz em lágrimas que escorrem sem parar.

Dandara implora com versos que um dia César Vallejo escreveria:

– “No mueras. Te amo tanto”. Mas a nuvenzinha, ai, seguiu morrendo. “Tanto amor y no poder nada contra la muerte”. As últimas gotículas estão caindo e a Nuvem responde com o poema que Javier Heraud comporia antes de ser metralhado numa canoa no rio Madre de Dios:

– Sucede simplemente que no tengo miedo de morir entre pájaros y árboles.

Mariró, molhado até os ossos, ensopado até os dentes, treme de frio. A Pombinha deixa todos eles ali e voa ao alto da montanha, onde o Vento-Louco havia se escondido, morto de vergonha.

VIII. O sentido da vida

– Irmão Vento, o Mariró te enganou, explorou tua força para causar o mal. Reage. Você é parte da natureza como nós. Se ouves a voz do xapiri, evitarás a queda do céu – diz-lhe a Pombinha.

O Vento-Louco forma, então, um corredor com um potente ciclone. O furacão sopra, ruge, levanta nuvens de poeira, varre tudo o que encontra pela frente, e com a fúria dos justos destroça a caravela, lançando Mariró no colo da Iara. Pouco a pouco, a Mãe D’água vai afundando e leva com ela aquele a quem na História cabe encarnar o lado pior de todos nós. Uma morte sem condolências.

Com Mariró mortinho da silva, a natureza respira, o jardim exala aroma de terra molhada, o céu azul abriga um sol radiante. As árvores reflorescem, as flores brilham. O mundo muda de cor. A Pombinha, cantando, lava a louça para o casamento. Dandara olha o Quatipuru e, com saudades da Nuvem, recita para ele o verso do poeta de Iquitos, Manuel Morales, que ainda não havia nascido:

– Si tienes un amigo que toca tambor, cuídalo!  

O Quati responde ao desconsolo de Dandara, solfejando a Canção da América que Milton Nascimento gravaria:

– Quem cantava chorou, ao ver seu amigo partir. Qualquer dia, amigo, eu volto, a te encontrar.  

– Estamos todos tristes, mas olha a lagoa… – diz o Quati.

Sobre o lago, inundado de saudades, dançam borboletas amarelas. Um vapor azul se eleva, encharcado de água, ali começa a nascer outra Nuvem, que evolui, cresce, fita Dandara e toma a forma de uma boca que se abre em largo sorriso. A Avó do Mundo, que mudara de flauta e cuia para o País da Floresta, sentencia sabiamente:

– Quem é generoso e morre para que os outros vivam, nunca desaparece.

 Ela toca, agora numa flauta de barro, a música, quase um haikai, que Avaju Poty ainda não havia cantado em guarani:

 Popo Yju Ara Owy Opawaerá hey Porã. Ejapo Waieme ÑandekwerupeBorboleta amarela no céu azul, infinita beleza. Não fazer mal a ninguém, infinita beleza.

Com essas palavras, Yepá consumava a criação do mundo, repleto de cantos, encantos e desencantos. Y colorín, corolado esta historia no se ha acabado. Eis que, embaixo da nuvem que nasce, despontam outros marirós. Eternos como Yepá. Ce n´est qu´un début, continuons le combat.

P.S – Desenhos de Gabriel dos Santos Gentil, Pajé Tukano, pesquisador emérito da Fundação Oswaldo Cruz Centro de Pesquisa Leônidas e Maria Deane/Fiocruz Manaus AM Brasil.

Referências:

A nuvenzinha Apaixonada
Acervo Bessa Freire

Gentil, Gabriel dos Santos. Bahsariwii: a Casa de Danças in Bruno, Ana Carla: Apresentação scielo.br/j/hcsm/a/sC4jD9zZbP9YsNz3thVYYZy/

Gentil, Gabriel dos Santos. Mito Tukano. Quatro tempos de Antiguidades. Histórias Proibidas do Começo do Mundo e dos Primeiros Seres. Edição Bilingue Tukano x Português. Tomo I. Frauenfeld. Editora IM Waldgut. 2000.

Umusi Pãrõkumu (Firmiano Arantes Lana) e Tõrâmu Kehíri (Luiz Gomes Lana): Antes o Mundo Não Existia. Rio Tiquié e São Gabriel da Cachoeira. UNIRT / FOIRN. (1ª edição 1980 e 2ª edição 1995).

Hikmet, Nazim. Le Nuage Amoureux. Paris. Gallimard Jeuness. 2013.   

Teatro de Bonecos DadáA nuvem Apaixonada, encenada em Curitiba por Euclides Souza e Adair Chevonika. https://www.taquiprati.com.br/cronica/1065-adair-chevonika-e-outros-espanholquechuaingfran


 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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