Cultura Hip-Hop: resistência em versos e rimas

CULTURA HIP-HOP: RESISTÊNCIA EM VERSOS E RIMAS

Cultura Hip-Hop: resistência em versos e rimas

O cenário do rap, que durante muito tempo foi predominantemente masculino, vem mudando. A nova geração de rappers vem conquistando cada vez mais espaço na cena, com versos que reivindicam empoderamento, autoestima, resistência e poder feminino

Por Maria Letícia

O rap, sigla para Rhythm and Poetry (Ritmo e Poesia), é um gênero musical marcado pela fala ritmada, sendo uma das expressões artísticas mais conhecidas dentro da cultura hip-hop. O surgimento do hip-hop se deu nos Estados Unidos, especificamente no Bronx, em Nova York, em agosto de 1973, mas foi profundamente marcado por influências afro-americanas, porto-riquenhas, jamaicanas e caribenhas. Difundiu-se pelo mundo, especialmente em comunidades negras e periféricas onde, por meio das rimas, as mazelas sociais eram denunciadas, além de ser uma das formas de resistência diante das desigualdades, da violência e da exclusão.

No Brasil, o hip-hop chegou por volta dos anos 1980, e ao longo do tempo artistas brasileiros incorporaram outros gêneros musicais, como o rock, o pop e o samba, criando uma linha de rap alternativa. 

PIONEIRAS DO HIP-HOP NO BRASIL

Liliane de Carvalho, mais conhecida como Negra Li, é um dos principais nomes do rap no Brasil. Considerada uma das pioneiras do rap feminino, lançou, em 2005, seu primeiro álbum, “Guerreiro, Guerreira”, em parceria com o rapper Helião, integrante do RZO. O disco reúne 11 faixas, entre elas Sem Crise, Lembranças e Fase de Febre, assinadas por Negra Li, em parceria com Helião e Daniel Ganjaman.

A rapper Sharylaine foi uma das artistas que abriram caminho para mulheres no hip-hop. Sua história, assim como a de Negra Li, nasce de um sonho. Em entrevista à Agência Brasil, ela conta que tudo começou no centro de São Paulo, na estação de metrô São Bento, por volta da década de 1980.

Me emociono de ter as meninas hoje em patamares melhores, com acessos melhores, pensando e desenvolvendo sua produção. Não necessariamente dependendo de um produtor para dizer o que ela vai ter que fazer”, conta.

DUQUESA

Duquesa (Foto: @ibcardoso)

Duquesa, Tasha & Tracie, Flora Matos, MC Luanna, Budah, Ajuliacosta, Ebony e Slipmami são hoje alguns dos principais nomes da cena do rap brasileiro.  

Natural de Feira de Santana, Bahia, Duquesa é um dos nomes de maior destaque do rap na atualidade. 

O fortalecimento da autoestima da mulher negra brasileira nos últimos anos sofreu grande influência da nova geração de rappers, cujas músicas, marcadas pela identificação e pela representatividade, resgatam uma voz que por muito tempo foi silenciada e retornou com força total, exaltando a beleza, a independência e o empoderamento.

EBONY 

Foto: Mateus Aguiar/Instagram

Nascida na cidade de Queimados (RJ), Ebony iniciou sua carreira lançando faixas no SoundCloud, ainda em 2019, e o álbum Terapia foi posteriormente reconhecido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como um dos 50 melhores discos nacionais de 2023.

Em fevereiro de 2026, a cantora foi uma das mulheres que participaram do lançamento do Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio, no Palácio do Planalto, em ato nacional contra o feminicídio no Brasil. Ebony representou a cultura hip-hop.

“Eu acredito que o hip-hop, sendo como um locomotor de denúncia, existe por causa disso e pra isso… tem que caminhar junto com evoluções como essa”, declarou em entrevista após a cerimônia.

Maria Letícia Marques 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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