15 ANOS DO “MANIFESTO À ESTÉTICA DO LIXO” E DO EVENTO “GARI UNIVERSO”

15 ANOS DO “MANIFESTO À ESTÉTICA DO LIXO”

15 ANOS DO “MANIFESTO À ESTÉTICA DO LIXO” E DO EVENTO “GARI UNIVERSO”: O PIONEIRISMO NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL E ARTE SUSTENTÁVEL DE FRED LE BLUE NA DEFESA DA VISIBILIDADE SOCIAL E ECOLÓGICA DOS GARIS

Em prol da sustentabilidade e inclusão, em meio ao sucateamento da profissão pública dos responsáveis pela coleta e varredura do lixo na cidade, é preciso evidenciar iniciativas sociais e culturais que propiciam protagonismo político para o papel ecológico dos garis na nossa sociedade. Fred Le Blue, pós doutor pela EBA UFMG, com projeto Artetetura e Humanismo, se identifica com a profissão desde os 5 anos quando, no recreio, ao invés de aproveitar o curto tempo para brincar, dedicava-se a limpar o pátio da escola. Uma professora da Escola Chapeuzinho Vermelho em Goiânia, logo, perceberia o gesto nobre e em retribuição passaria a dar uma “laranjinha”, cada vez que Fred completava a sua missão.

Mascote Ed Beija-Flor
20 anos depois, Fred viria desenvolver, justamente, no bairro de Laranjeiras (Rio de Janeiro), uma pesquisa socioteatral sobre esses profissionais da limpeza invisibilizados e estigmatizados socialmente, cujo uniforme na maioria das cidades, é um macacão laranja fosforescente. Após adquirir uma peça que continha a palavra “Mundo” escrita no bolso do lado do peito, Fred passou a fazer aparições trajando a sua fantasia em locais de requinte e aglomeração com o codinome Beija-Flor. Aos poucos ela tornaria-se a segunda pele dele, como a de um super-herói, cujo nome era o personagem Ed Beija-Flor é alter-ego de Fred Le Blue que utiliza um uniforme laranja-gari. Criado para dar visibilidade a causas e pessoas invisíveis, participou do filme “VERNISOUND: FormigáVWea Mundo Novo” (2009) estreado no Cine Facha na Faculdade FACHA em 2009, bem como performance urbana no evento de artes plásticas Rio Artmosfera no Art Hostel (2008), na Casa da Polônia (2009), na Casa de Artes de Laranjeiras (2009), no Oi Futuro Flamengo (2010), no evento multimídia Gari Universo dentro da programação do VI Arte em Laranjeiras (2011) – como mostra o filme – e também na Cúpula dos Povos no Rio + 20 (2012). Neste mesmo ano virou tema de um espetáculo musical chamado “O Gari e a Parisiense: uma ecopéia em 3 matos”.

Os desdobramentos de memória pessoal, local e nacional citadas, amalgamariam na biografia de Fred Le Blue um estado de arte único, da qual brotaria a necessidade de parir Ed Beija Flor. E em meio à premência do debate sobre meio ambiente e sustentabilidade, facultado pela globalização, a educação ambiental e a divulgação científica tornariam-se estratégias retóricas de modificar os comportamentos de produção e de consumo desviantes, moldados por décadas de capitalismo industrial altamente poluente.

Manifesto A Estética do Lixo e o Evento Gari Universo

Com o objetivo de promover a “Estética do Lixo” por meio das mais variadas formas de expressão artísticas e tecno-filosóficas em prol da auto-sustentabilidade e equilíbrio ecológico da mente e do ambiente na Terra, foi criado no Bairro das Laranjeiras por Fred Le Blue Assis, o evento multicultural e ecoartístico “Gari Universo: a Estética do Lixo”. Com a proposta estético-conceitual de atentar a sociedade humana para o poder da arte e algumas técnicas enquanto plataforma de conscientização e mobilização assertiva em prol de respeito à diversidade e ecologia planetária, Fred Le Blue, através do seu alter-ego, Ed Beijo-Flor, vestido com roupa de gari, foi pioneiro da difusão da arte-reciclagem no Brasil, através do Manifesto “A Estética do Lixo”, que consistia em 12 tendências de um fazer e devir artístico socioambiental sustentável e holístico.
Através de suas performances, não somente no evento em questão, mas em espaços culturais e públicos do Rio, foi possível vivenciarmos a alteridade da figura do gari e, por meio dessa alegoria, e nos inspirarmos a agir com responsabilidade e ética social e planetária na busca por condições mais justas e saudáveis de vida. Cabe citar que ao longo do tempo, muitos garis da política e da arte, como o ex-vereador Negro Jobs (in memorian) em Goiânia e o sambista Renato Sorriso no Rio de Janeiro, estimularam a população a repensar o estigma negativo de que os garis não eram parte relevantes da vida coletiva e, que, por isso, não mereciam ser vistos e escutados, nem mesmo, sobre a gestão urbana.
Fred Le Blue e Ed Beija-Flor contribuiram, assim, para essa pauta, que se beneficiou também da pesquisa do psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou dez anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo para concluir sua tese de mestrado da ‘invisibilidade pública’. Com essa pesquisa etnográfica, ele comprovou que trabalhadores braçais são seres invisíveis’ e ’sem nome’. A percepção humana é totalmente prejudicada e condicionada à hierarquia da divisão social do trabalho, onde a pessoa é mortificada em nome da função.

Performance O Homem que virou Suco, o Planeta que virou Lixo – No Gari Universo em 2011

Ed/Fred participou de performance artística de intervenção urbana plástica teatral “O Homem que virou Suco, o Planeta que virou Lixo” com uma perigosa bola metálica arramada de proporção humana, a “Bolata”, para denunciar sobre o problema dos resíduos sólidos no planeta. Repleta de latinhas de refrigerantes que representam o caráter poluente e pouco biodegradável do lixo, no que carece de tratamento adequado para não poluir rios e mares.
A performance cênica-interativa do artista Fred Le Blue e seu personagem Ed Beija-Flor (vestido de gari) com a obra de arte-reciclagem “Bolata” do grupo CRISMA, foi composta por metais fundidos na forma de um globo com latinhas no seu interior que se acomodam umas entre as outras gerando sons estridentes e percussivos conforme a direção e a velocidade que o artista e o público rolam a obra no solo. Ao criticar a sociedade de consumo conspícuo para a problemática do excesso de produção de lixo e a sua perenidade, tentou despertar para a problemática da inevitabilidade de se conscientizar a respeito da premência das práticas da reciclagem e a arte-reciclagem. Através do uso também de um personagem-obra vestido com uniforme laranja gari, a instalação-performance permitiu experienciar um olhar dialógico com a arte e público, sociedade e natureza, micro e macro, bairro e planeta.

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Manifesto A Estética do Lixo

(0) A Arte deve ser inclusiva-democrática e permitir interdisciplinaridade sinestésica-sincrética-sinergética-simbiótica mutante e jamais estigmatizar a diferença de nenhum tipo, seja ela maioria ou minoria em determinado contexto espaço-temporal.
1) A Arte que trata do tema do lixo e do gari (o informal catador de lixo) é considerada “estética do lixo” por excelência por contribuir de maneira crucial para o questionamento do nosso papel enquanto cidadãos de uma Nação-Natureza-Cosmo-Corpo que se interagem em equilíbrio dinâmico.
2) A arte que utiliza materiais reciclados, sucatas, retalhos, orgânicos, empanados, digitais, usados e re-significados contribuem para uso inteligente das fontes de matéria-prima e economia de espaço e é, por isso, indispensável para atender as exigências do novo paradigma aquariano de preservação dos ecossistemas.
3) A arte que apresenta como paisagem e lugares desconhecidos, bem como excluídos e personalidades outsiders, se propõe a descentralizar o foco de interesse de regiões e pessoas saturadas de visibilidade social e midiática, que podem vir a sofrer desgastes ambientais-ecológicos e imagéticos-psicológicos, respectivamente, em função de tais excessos.
4) A arte deve estimular a interatividade metalinguística já que o sentido último dela é a re-criação interpretativa do processo do fazer a partir do self service cultural espontâneo do público, que pode, além disso, a partir de algum tipo de expressão e plataforma artística, ter assegurado a ele o direito de feedback criativo.
5) A Arte produzida por não artistas de profissão ou remuneração deverá ser bem-vinda, mesmo que deixe a desejar no sentido de excelência e apuro técnico, por ser de vital importância para a democratização da cultura e do saber, principalmente, se esse profissional for um gari.
6) A Arte que mostre o tabu, o proibido, o profano, o politicamente incorreto, o vulgar, o surreal, o mambembe, o underground, o tosco, o profano, o visceral, o marginal, o silenciado, o risível, o patético, o pornográfico, o violento, o repulsivo, o escatológico, o escalafobético, o apoplético, o insano, o constrangedor, o imoral, o caótico, o exótico, o abissal, não pode ser desconsiderada em função do tema, devendo ser analisada sob os mesmos critérios generosos da arte abstrata e objetual que permite tudo ser arte, mesmo que não diga aparentemente nada (já que toda obra artística ou, mesmo predial, é espectro da passagem co-criativa do ser humano na Terra, arranha céus).
7) A Arte que for considerada inacabada, limitada ou decadente, ou por falta de recursos técnicos, financeiros, físicos-psicológicos ou políticos ou mesmo por opção estética (como o não cenário como cenário, a ruína como opção de restauração, o uso de instrumentos musicais corporais, improvisados ou improvisados) deve ser tomada como obra pronta e disponível, facultando ao público a possibilidade de completá-la no seu íntimo e sugerir desfechos possíveis. Em última instância, porém, considera-se que arte não almeja completude e nunca se finaliza, estando por isso sempre em processo, submersa na variável tempo incomensuravelmente.
8) A Arte poderá ser extraída dos mais surpreendentes momentos, lugares, obras e situações, pessoas, coisas, bastando para isso, alguém se dispor a fazer algum recorte, enviesamento ou bricolagem de qualquer material humano e artístico registrável, mas sendo considerado arte também tudo que é passível de ser lembrado na memória e possa ser reproduzido oralmente (ou em língua de sinais, ou através de dança, do olhar, da não-ação), sendo a “contação de estórias” também uma forma de expressão artística profunda, tanto quanto a sétima arte.
9) A arte oriunda de trabalho social, como os doutores da alegria e os arteterapeutas, além das aplicadas como o Design, Publicidade, Arquitetura e Artesanato, são consideradas de profundo ou até maior valor para a história, visto que tem sido recorrente ao longo do tempo, ao fazer artístico, trabalhar sob encomenda mercadológicas e necessidade de sobrevivência material, o que, em tempos nenhum, nem agora, nem nos de globalização, obstruiu a capacidade de ousar e transpor os limites aparentes sociais impostos por determinadas conjunturas limitantes.
10) A Arte de fantasiar, meditar, mendigar, pichar muros, limpar para-brisas, vender balas no ônibus, contar e interpretar um sonho, andar com cadeiras de rodas nos grandes centros ou com cachorros São Bernardos (que não são do ABC), bem como brincadeiras de criança, piadas de adulto (mesmo as sem-graças ou a daquela tia que esquece o final), arte de sobreviver na rua ou no mundo coorporativo, artes de rua, circo e teatro mambembe, além de esportes das mais diferentes modalidades, sem esquecer das pesquisas acadêmicas autorais e livros de ficção científicas, devem ter o mesmo prestígio de um espetáculo de concerto, visto que há graça em todos os movimento e traços do ser-humano, bem como dos animais, vegetais e demais seres vivos (Bateson, 2000).

11) A Arte criada em coletivo interdisciplinar multimídias de liderança rotativa ou fixa, porém democrática nas decisões, é uma postura ética que contribuem para servir de diretriz étnica para a convivência pacífica entre os diversos extratos e guetos das sociedades em suas intersecções políticas e midiáticas.

EcoCasa: Um espaço vazio, cheio de representações simbólicas

O déficit habitacional no Brasil impele aos citadinos a optarem por locais de moradia, como favelas e cortiços, aglomerados urbanos com baixa luminosidade e ventilação, em áreas centrais, que ainda apresentam vantagens locacionais, em função da proximidade dos postos de trabalhos. Ao assumir um local em andar subsolo desativado em Pinheiros (São Paulo), o urbanista Fred Le Blue criou uma arte-metodologia de refundação do espaço com metas de consumo de carbono próximo de zero, utilizando somente objetos e mobílias, a partir de material reciclado e/ou ressignificado encontrada nas redondezas do bairro.

O resultado foi o surgimento do projeto “ECOCASA: a casa cor de verdade”, em que foi reapropriado o ambiente construído através da arte urbana, design de interiores, música e literatura. Essa artetetura de humanização do local permitiu criar uma ambiência afetiva que compensa no plano cultural e metafísico as limitações do affordance. O documentário “ECOCASA DOS CORAÇÕES PARTIDOS” apresenta uma abordagem antropológica sobre o espaço, pensando como lugar social, passível de suscitar comunidades imaginárias heterotópicas. Realizado a partir do extenso material de arquivo sobre essa “residência artística ecológica”, que incluí ainda horas de registro dos comportamentos espaciais da Praça Benedito Calixto, o filme é um laboratório de pesquisa artetetônica de como a estética, estrutura e função da arquitetura podem ser redimensionados pelo olhar de um artista-morador, no que aponta para a possibilidade de reconstrução criativa e recreativa de habitações na dimensão do ambiente vivido e amado.

Essa artetetura de humanização do local permitiu criar uma ambiência afetiva que compensa no plano cultural e metafísico as limitações do affordance arquitetônico. O documentário ECOCASA DOS CORAÇÕES PARTIDOS apresenta uma abordagem antropológica sobre o espaço, pensando como lugar social, passível de suscitar comunidades imaginárias heterotópicas. Realizado a partir do extenso material de arquivo sobre essa “residência artística ecológica”, que incluí ainda horas de registro dos comportamentos espaciais da Praça Benedito Calixto, o filme é um laboratório de pesquisa artetetônica de como a estética, estrutura e função da arquitetura podem ser redimensionados pelo olhar de um artista-morador, no que aponta para a possibilidade de reconstrução criativa e recreativa de habitações na dimensão do ambiente vivido e amado.

Reality Show “Minha Brasília Laranja Rural (MBLR)

De 15 de outubro a 15 de novembro de 2020, em pleno período eleitoral municipal e pandêmico, o movimento Artetetura e Humanismo e a Editora Multimídia Brasílha Teimosa realizou a laternagem de uma Brasília 77/8 de Fred Le Blue, que parecia estar com o pé no ferro velho. Esse reality road movie reciclou um carro que tem o nome da nossa capital política para refletir um pouco sobre a desigualdade social, racial e sexual no âmbito da mobilidade urbana e consumo automotivo. Visando apresentar novas perspectivas democráticas para que o país sem memória não seja sempre o país do futuro sempre protelado, a Websérie foi lançando em pílulas de 10 minutos ao longo de 1 mês, tendo sido uma experiência de obra em progresso do país da ordem e regresso.
Rodado sem roteiro prévio em Belo Horizonte (MG), o projeto foi uma experiência de história oral e história social das coisas para conhecer, em plena crise econômica pré e pós pandêmica, um pouco mais sobre o cotidiano laboral e o saber local de brasileiros trabalhadores de um bairro industrial, também no tocante aos seus preconceitos e limitações de visão de mundo, em função da baixa escolaridade e acesso cultural no país. Após ter realizado um minidoc “Se Brasília Escutasse, o.qur você diria?”, Fred Le Blue tentou aprofundar a proposto de investigar se a hipótese metonímica do conserto da lataria da nossa teimosa e destemida Brasília Laranja Rural poderia nos inspirar em práticas públicas e sociais mais éticas e participativas para acabar com a ferrugem da corrupção estrutural e guerra cultural no Brasil. Uma obra de amor a pátria, ao planeta, à nautreza e aos carros antigos que fazem parte do patrimônio cultural do país.

Entrevista com Fred Le Blue

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O ator e autor Fred Le Blue é compositor, artista visual e roteirista, mestre em Memória Social no PPGMS (UNIRIO), doutor em Planejamento Urbano no IPPUR (UFRJ) e pós-doutor em Artes (UFMG) e em Territórios Culturais (UEG). O seu clown-gari de Laranjeiras fez parte da técnica de “Fidelização Cênica”, uma pesquisa de personagem continuada de alteridade assistida entre ator e personagem ao longo de sua vida, no sentido, de apontar características psicológicas e políticas almejadas pelo ator/autor enquanto cidadão, que faz uso do seu personagem como seu alter-ego. Nesta entrevista exclusiva, Fred Le Blue Assis fala sobre o evento Gari Universo, sobre as performances no Rio de Janeiro vestidos de gari com seu alter-ego Ed Beijo-Flor, o Manifesto “Estética do Lixo”, sobre seus projetos sucedâneos e seu papel como arteteto (artista, artevista e arteterapêutico).

* O que te motivou a criar o personagem Ed Beija Flor e o projeto Gari Universo?
Quando estava na pré-escola, tomei a iniciativa proativa de limpar o pátio da escola durante o recreio, o que foi digno de reconhecimento por parte de uma das professoras. Essa memória teria ficado inconsciente se, em 2005, após formar-me em Comunicação na UFG, eu não resolvesse mudar-me para Brasília, em busca de novas experiências, sobretudo, nas áreas de antropologia, arte e espiritualidade. Apesar de ter cursado Antropologia na UnB e música na Escola de Música por quase 2 anos, uma outra referência complementar foi abordagem da psicologia holística transpessoal da Universidade da Paz, na qual fui introduzido a convite do antropólogo Roberto Crema, onde pude fazer parte do grupo Terapeutas do Universo. A noção de multiculturalismo da Antropologia somado a essa noção da valorização da escala planetária pela via holística, foram os paradigmas que permitiram pensar a figura do gari como “modelo” de sustentabilidade. Como eu sou compositor, a forma de autenticar essa descoberta foi compondo uma canção de trabalho, inspirada pela beleza arquetípica da clássica Canção do Sal” de Milton Nascimento. No caso, a ideia era exaltar a profissão dos garis por meio de um reggae que veio a se chamar “Gari Universo” que descrevia, como se fosse um diário, o dia-a-dia de um gari (que viria a se chamar, futuramente, de Ed Beija). A ideia de sincronicidade da limpeza mental e ambiental expressa na letra, que era uma representação do conceito de “Ecologia da Mente” de Gregory Bateson, dialogava também com outra proposta desse autor, que apontava a arte como um instrumento terapêutico de harmonização do caos social e psíquico.

* Como você vê a relação entre arte, sustentabilidade e justiça social?
Desde que passei a atuar como música na década de 90, passei a me dedicar ao tema social e ambiental através da arte multimídia. No Brasil, apesar podemos citar movimentos engajados como o modernismo, a Tropicália, a Clube da Esquina, a Vanguarda Paulista, o Hip-Hop e a arte urbana (grafite), a responsividade do artista é vista, em geral, como uma forma falta de subjetividade e propaganda política, como se fosse uma alienação de si, do psiquismo do sujeito. Nesse sentido, artistas mais formalistas e minimalistas tendem a ser cultuados, mormente, nas artes plásticas. Tendo em vista as dificuldades que são perpetradas, inclusive, em editais públicos que, raramente, contemplam linguagens híbridas e valorizam temas transversais, iniciei em 2019 em São Paulo, o movimento Artetetura e Humanismo, para estimular um pensamento não-linear na arte, que pudesse catalisar uma atuação responsiva do artista no território de vulnerabilidade humana e ecológica, permitindo pensar a arte como política pública de saúde coletiva, de proteção social e desenvolvimento sustentável. Num país tão pobre e poluído como o nosso, ignorar essa demanda educativa para o quefazer artístico por puro preciosismo estético eurocêntrico, é que é uma forma de alienação, no caso, da realidade.

* Você poderia explicar em mais detalhes a performance com a “Bolata”?
A obra interativa de arte-reciclagem “Bolata” produzido pelo grupo CRISMA é composta por metais fundidos e aramados, formando um globo vazado com latinhas no seu interior que se acomodam umas entre as outras gerando sons estridentes e percussivos, conforme a direção, força e velocidade com que o artista e o público rolam a obra no solo. A performance do Gari com a “Bolata” é uma espécie de remake lixo-tecnológico da cena do Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida, em que uma bola gigante corre atrás do aventureiro. A diferença aqui é que a bola, que representa o Planeta, ainda não está totalmente desgovernada, sendo possível, mediante a interação de muitas mãos, conter o avanço da poluição que pode tornar metaforicamente mais pesada a Terra, tornando insolúvel o problema dos resíduos sólidos.

* Que tipo de impacto você espera que o Gari Universo tenha na sociedade?
Quando se lança em qualquer tipo de empreitada incomum na arte ou na vida, é comum sermos chamados de loucos pela maioria, e visionários por uma minoria. Acredito que não devemos ter nem apego, nem aversão, a nenhum tipo de adjetivação que pretenda rotular uma abordagem artística e biográfica. A arte é sempre uma crônica do seu tempo, mesmo quando nem o artista tem consciência disso. A questão climática não era tão cognoscível para o brasileiro médio, quando começamos a realizar este trabalho em 2011. Havia a iminência da Rio +20 que viria aprofundar os esforços coletivos de preservação em escala global, iniciados pela Eco 92. Visto do Brasil, essas agendas eram consideradas distantes e teóricas, apesar de que os olhos do mundo estavam cada vez mais próximos do nosso país. De alguma forma, acredito que o Projeto Gari Universo e seus desdobramentos, permitiram realizar uma mediação educomunicacional entre a realidade brasileira, em geral, alheia ao tema da sustentabilidade e o primeiro mundista, mais engajado. A ideia era minorar o lapso entre o ideal verde e a realidade cinza, para além do consumo casual de produtos naturais em franquias, que eram febre no Rio de Janeiro na época.

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* Poderia explicar o porquê “estética do lixo” e como ela se aplica ao seu trabalho?
A Estética do Lixo é uma metodologia low-profile de arte inclusiva em termos de tipos de temas, formatos e tecnologias, que tenho utilizado nas minhas ações de arte artivista e arteterapêutica do Artetetura, porque permite atuar sem recursos financeiros sob demanda política de determinado contexto sóciohistórico, que, por vezes, não podem esperar situações perfeccionistas de trabalho. Invertendo um pouco o paradigma de Mcluhan, para quem o meio é mensagem, a estética do lixo, aponta para a mensagem como meio, como ocorre com o rap e repente, bem como outras formas de expressões populares oriundas de lugares vulnerabilidade social e, que se tornaram tecnologia sociocultural de paz, capazes de gerar empoderamento narrativo e pertencimento local. Além disso, acredito que a arte que trate da sustentabilidade deve ser sustentável. Vemos muitos livros que trata do meio ambiente que não são produzidos com papel reciclado e filmes com produções gigantesas, cuja pegada ambiental é tão grande, que é de se pensar, qual o propósito de lutar pela causa com as mesmas armas do paradigma não sustentável.

* Por que você considera importante que a arte utilize materiais reciclados e retrate temas como a invisibilidade social dos garis?
Em termos de estética, a arte-reciclagem, por sua tridimensionalidade plástica, é algo que sugere uma sinestesia lúdica que poucas artes suscitam, gerando um encantamento quase natural. Os materiais do cotidiano vendidos como míticos na propaganda perdem de forma efêmera a sua simbologia após o ritual de sacrifício do consumo. A reciclagem artística ou fabril tem o condão mágico de dar uma sobrevida para esse ciclo de vida da matéria-prima das embalagens, que, se não recicladas ou arte-recicladas, poderão ser daninhos para a natureza e para as cidades. Dando nova utilidade e significado para o arsenal descartável da sociedade do consumo conspícuo, a eco-arte, em especial, é também uma forma metalinguística de denunciar os limites e riscos desse tipo de economia baseada no desperdício, descarte irracional, bem como, fontes de energias não renováveis. Incluir o tema dos garis na arte é também uma forma de protesto contra o capitalismo excludente no consumo e inclusivo no descarte. Ou seja, os que mais consomem são os que menos terão que lidar com as consequências do lixo e do carbono gerado por sua demanda. Dar visibilidade aos garis é uma forma de trazer essas reflexões inerentes a sua profissão para a ordem do dia da agenda das políticas públicas sobre lixo zero e descarbonização.

* Como você considera o seu trabalho para a conscientização da população?
Atuar com arte, educação e jornalismo sobre Direitos Humanos e Direitos Ambientais é muito gratificante, porque conecta seu espírito com o de pessoas resilientes do mundo todo, ambos desejosos de frear as ações da bomba relógio que se tornou a questão da mudança climática da Terra. É uma atuação quase missionária, mesmo que você não saia da sua cidade, porque tende a não gerar a simpatia esperada nas pessoas. E quando você vê, que está numa selva urbana lutando por alguns minutos de fama que permita atuar como advogado do planeta. O trabalho do jornalismo ambientalista no Brasil é tão perigoso que existe até um programa de proteção específica desses profissionais: Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas (PPDDH). São muitos os interesses em conflito como grilagem e mineração ilegal em terras indígenas e estatais, que os esforços de indivíduos isolados, mesmo que suportados por organizações internacionais, tornam essa guerra injusta, como a de um pinscher contra um T-Rex. E não falo só de motivações financeiras. Por estar subjacente a essa atuação, mudanças de comportamentos culturais e até de padrões mentais da população, há muitas resistências e adversidades desnecessárias que são colocadas, ainda mais, em Goiás, que é um Estado muito associado ao paradigma político, econômico e cultural do agronegócio, que trava, no mundo todo, uma batalha contra a bioética (questão dos transgênicos) e contra a agricultura sustentável. Mas é um trabalho que precisa ser feito, pois se conseguirmos mostrar que a sustentabilidade também é pop, ficará mais fácil convencer o resto do país.

* Quais são seus planos para o futuro, tanto como artista quanto como ativista?
Até 2030 estarei envolvido com o projeto do Grupo de Trabalho de divulgação científica Goiânia 2030 que tenta consolidar por meio de jornalismo e artivismo, os valores do desenvolvimento sustentável em Goiás, por meio da construção de uma Agenda 2030 para a cidade de Goiânia, sendo considerada a capital da Revolução de 1930, que significou um lampejo de modernidade em todo o país. A estratégia utilizada tem sido a do reposicionamento do imaginário urbano original da cidade para resgatar de forma contemporânea o pioneirismo político, ambiental e urbanístico latente na construção desta capital planejada, que inspirou Brasília, visando mostrar que a capital de Goiás, já nasceu sustentável.

Se me permitem o plágio de Rousseau: a cidade nasceu boa, mas a sociedade com seus planos diretores vendidos ao capital imobiliário que a corrompe. Temos atuado em prol do reencantamento de Goiânia, que se aproxima do ponto de não retorno. A simbologia dos 100 anos da ideia da nossa cidade, que coincide com o prazo máximo dos objetivos e metas de desenvolvimento sustentável da ONU, que é 2030, são sugestivos e, mais do que isso, permite uma janela de oportunidade para que Goiânia torne-se uma referência turística global em urbanidade verde.Tudo vai depender de qual modelo de cidade Goiânia será capaz de apontar pra agregar mais entusiastas e salvaguardadores de sua paisagem cultural e urbanidade ímpar.

● E qual seria o.modelo que você acredita que seja o mais apropriado para Goiânia de 2030?

Espero que seja a Goiânia do gari que é uma espécie de mediaro entre o prefeito e o povo. A privatização ou terceirização do trabalho da COMURG, só afasta a prefeitura do último elo de contato mais proximal com o povo. A prioridade estrutural em Goiânia deveria ser resolver a questão dessa companhia e transformá-la em uma central de intelegência e pesquisa de urbanização. Somente intervir para desmontar a COMURG com contratos terceirizados para coleta de lixo, só consegue desmoralizá-la por completo, porque ela tem condições técnicas, tecnológicas e humanas de realizar esse serviço de limpeza urbana, que lhe é constitutivo. Para além disso, o preferível seria reformular o modelo de gestão da COMURG e a sua interface com as demais secretarias para que essa agência se transformasse no órgão principal do planejamento urbano, sem deixar de fazer o dever de casa da zeladoria. Isso permitira entregar serviços públicos de qualidade com uma visão de desenvolvimento urbano sustnetável longo-prazista.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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