LOBO-GUARÁ: A NOBREZA SELVAGEM DO CERRADO

LOBO-GUARÁ: A NOBREZA SELVAGEM DO CERRADO

LOBO-GUARÁ: A NOBREZA SELVAGEM DO CERRADO

Imagine um animal de pernas que lembram “botas de cano alto”, pelagem avermelhada flamejante e um ar de nobreza selvagem

Por Thaís Silveira 

Esse é o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), um dos maiores tesouros da fauna brasileira, que ganhou ainda mais fama ao estampar a nota de 200 reais. Seu jeito silencioso de cruzar os campos abertos do Cerrado encanta quem o observa: uma verdadeira obra de arte da natureza.

Maior canídeo da América do Sul, o lobo-guará pode chegar a pesar 36 quilos. Suas pernas longas funcionam como um verdadeiro superpoder: ajudam o animal a enxergar acima da vegetação alta e a percorrer com agilidade vastas áreas abertas. Diferente dos lobos retratados nos filmes, ele é um animal solitário, discreto e independente.

Divulgacao Portal Amazonia
Divulgação/Portal Amazônia

Na alimentação, quase tudo entra no cardápio: pequenos roedores, insetos e, principalmente, os frutos da lobeira (Solanum lycocarpum), considerados seus favoritos. Ao consumir essas frutas, o lobo-guará espalha sementes pelo Cerrado e contribui diretamente para a regeneração da vegetação, tornando-se um importante aliado do equilíbrio ambiental.

Apesar de sua beleza e importância ecológica, o lobo-guará enfrenta diversas ameaças. Queimadas, desmatamento e atropelamentos em rodovias colocam em risco a sobrevivência da espécie. Preservar o Cerrado significa proteger não apenas um símbolo da biodiversidade brasileira, mas também um animal essencial para a manutenção desse ecossistema.

Thaís SilveiraThaís Silveira –  Bióloga (Universidade Estadual de Santa Cruz), pós-graduanda em gestão para sustentabilidade pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Capa: Foto de Adriano Gambarini

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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