DOULAS: DA PRÁTICA ANCESTRAL À PROFISSÃO REGULAMENTADA

DOULAS: DA PRÁTICA ANCESTRAL À PROFISSÃO REGULAMENTADA

DOULAS: DA PRÁTICA ANCESTRAL À PROFISSÃO REGULAMENTADA

Após décadas sem o devido reconhecimento, as doulas tiveram seu ofício regulamentado. As diretrizes para o exercício regular da profissão estão agora amparadas na Lei 15.381, de 2026, publicada no Diário Oficial da União (DOU), no dia 09 de março

Por Maria Letícia

CUIDADO MILENAR E ESSENCIAL À VIDA

A palavra “doula” se popularizou, sobretudo no Ocidente, para nomear a profissional que oferece apoio físico, emocional e informativo às mulheres antes, durante e após o parto. Mas esse cuidado é muito mais antigo do que o termo. Trata-se de uma prática milenar que vem atravessado a História da Humanidade por gerações, entre diferentes culturas e povos, em contextos e épocas distintas, pois a dádiva do nascer sempre esteve presente, é o alicerce natural, não apenas da vida humana, mas de todos os seres vivos. 

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Relevo romano do século II d.C. representando uma parteira auxiliando uma mulher durante o parto. Museu Ostiense, Óstia Antiga, Itália.

Em diversas civilizações, as doulas, assim como as parteiras, sempre existiram e, ao longo do tempo, desempenharam um papel fundamental no acompanhamento da chegada da vida ao mundo. Com saberes ancestrais e empíricos, essas mulheres construíram um sólido repertório de conhecimentos que, muitas vezes, não está registrado nos livros de medicina, mas revela sua eficácia na prática, no cuidado e na experiência acumulada entre gerações de mães, bisavós, tataravós e assim por diante. 

Antes de se falar em doula como profissão regulamentada, muitas mulheres já exerciam e ainda exercem, em seus territórios, o papel de acolher, orientar e acompanhar outras mulheres no gestar, no parir e no nascer. No Brasil, as parteiras tradicionais seguem como exemplo vivo dessa prática ancestral, atuando principalmente no cuidado comunitário e auxiliar do processo de parturição. 

Em comunidades amazônicas, ribeirinhas, indígenas e rurais, elas são reconhecidas como “mães de umbigo”, “mães velhas”, comadres, rezadeiras, benzedeiras e curandeiras, reunindo conhecimentos transmitidos pela oralidade, pela experiência e pela confiança da comunidade. 

capa de lunacao 1 1 808x1024 1Arte de Jaya Cósmica

DONA FLOR DO MOINHO: PARTEIRA E MESTRA QUILOMBOLA

Bom mesmo era se Deus abençoasse e tivesse todo mundo junto. Outra cuida do neném, outra faz o almoço, outra lava as roupa, outra arruma a casa. Ia ser bonito. E cantando e batendo palma, dançar, fazer uma roda de mulher parideira. As mulher arruma um berço de ouro pra receber um filho. Não precisa não. Tem que ser um berço de amor, do pai, da mãe e de todos que estão ali assistindo. Esse amor tem que fluir antes. Família, avô, avó, todo mundo torcendo pra essa criança vir ao mundo (Dona Flor, 2015).

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O livro O Partejar e a Farmacologia de Dona Flor – História e ensinamentos de uma mestra Quilombola, escrito e organizado por Florentina Pereira dos Santos, Dona Flor, e Juliana Floriano Toledo Watson, conta a história de Dona Flor, nascida em 2 de fevereiro de 1938, na fazenda Santa Rita, em Alto Paraíso (GO). Quilombola da Comunidade Moinho, neta de indígena e mulher de muitos saberes, gestou 15 filhos e filhas e adotou outras 27 vidas. Como parteira, recebeu em seus braços mais de 300 bebês.

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Escrito a partir da gravação em áudio de cursos e entrevistas com a dona Flor, entre 2015 e 2022, a obra reúne diversos conhecimentos da renomada parteira, dentre eles suas reflexões, receitas e os remédios a partir de ervas e raízes, conselhos e ensinamentos sobre a saúde e o corpo da mulher.

Ao longo da vida, foi boia-fria, garimpeira, tropeira, feirante, agente comunitária de saúde e assistente social. Mesmo analfabeta, tornou-se uma grande referência em sua comunidade, reconhecida como mestra quilombola, parteira e raizeira famosa. Dona Flor encantou-se em 9 de agosto de 2023, numa quarta-feira, em Alto Paraíso de Goiás, aos 85 anos.

Ela ajudou muitas centenas de mulheres a parir, adotou filhos além dos seus biológicos. Sua casa sempre foi bastante frequentada e movimentada, com afilhados, netos, mães e aprendizes a visitá-la, e pessoas para se consultar ou buscando conselhos da anciã. Como a grande maioria das parteiras, ela foi uma referência para sua comunidade, uma conselheira, uma sábia que orientou as pessoas a se cuidarem fisicamente, emocionalmente, consultada sobre a educação das/os filhas/os, as relações conjugais, dentre tantas outras questões relevantes para a vida.

DOULAS E PARTEIRAS TRADICIONAIS: DIFERENÇAS, SEMELHANÇAS E ANCESTRALIDADE

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Embora doula e parteira não sejam a mesma coisa, a atuação das parteiras tradicionais antecede o termo “doula” e dialoga com essa prática de cuidado, recentemente regulamentada. 

Importante destacar que a doula atua no processo de parturição — compreendido como o processo fisiológico do parto — oferecendo acompanhamento contínuo à gestante e sua rede de apoio durante o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato. Sua atuação envolve suporte emocional, acolhimento, escuta ativa, medidas de conforto, incentivo à autonomia da mulher, suporte físico, práticas integrativas e compartilhamento de informações baseadas em evidências, contribuindo para uma experiência de parto mais segura, respeitosa e humanizada. A doula observa as necessidades da parturiente ao longo do processo, sem realizar assistência clínica, procedimentos técnicos ou substituir a equipe de saúde responsável pela condução obstétrica.

Atualmente, o Ministério da Saúde define a parteira tradicional como aquela que presta assistência ao parto domiciliar, baseada em saberes e práticas tradicionais e que seja reconhecida pela comunidade como tal. Essa denominação passou a ganhar força no contexto das políticas públicas a partir dos anos 2000, com o Programa Trabalhando com Parteiras Tradicionais.

Em estudo sobre as práticas tradicionais Kaingang durante a gestação, o parto e o pós-parto, Yasmin dos Santos Sagás aponta que mulheres da Terra Indígena Xapecó, em Santa Catarina, preservam saberes relacionados ao uso de remédios do mato, às posições tradicionais de parto, aos cuidados com o recém-nascido e ao resguardo materno. A pesquisa mostra que esses conhecimentos, transmitidos principalmente pela oralidade, revelam a importância das mulheres indígenas na preservação de práticas ancestrais ligadas ao nascimento.

AS COMADRONAS

Na Guatemala, e em regiões onde habitava o povo Maia, no México e na América Central, as comadronas, parteiras tradicionais, ou Iyom (parteiras-avós) são reconhecidas como guardiãs de saberes transmitidos de geração em geração, muitas vezes de mãe para filha ou de avó para neta. 

Na Colômbia, as parteiras tradicionais também são figuras de confiança nas comunidades, responsáveis por oferecer cuidado reprodutivo e materno com base em conhecimentos tradicionais, especialmente onde o acesso aos serviços de saúde é limitado. 

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Comadronas participando de um exercício de dramatização durante treinamento em Santiago, Guatemala. Foto: Samantha Fien-Helfman, Banco Mundial.

A DOULA E A HUMANIZAÇÃO DO NASCIMENTO EM CENTROS HOSPITALARES

O termo e a atuação da doula, como conhecemos hoje, surgem da união entre uma tradição ancestral de apoio feminino no parto e uma releitura voltada à humanização do nascimento, consolidando-se especialmente a partir da década de 1970.

No sentido contemporâneo, a doula surge no Ocidente como uma resposta à medicalização e à institucionalização do parto. Se, durante séculos, mulheres foram acompanhadas por outras mulheres no momento de dar à luz, a hospitalização do nascimento deslocou esse cuidado para ambientes cada vez mais técnicos, muitas vezes afastados da dimensão afetiva, emocional e comunitária do parto. 

A palavra “doula”, de origem grega, foi resgatada na década de 1970 pela antropóloga Dana Raphael para se referir à mulher que oferece apoio à mãe no ciclo da gestação, do parto e do pós-parto. Desde então, o termo passou a nomear uma profissional que não realiza procedimentos médicos, mas atua ao lado da gestante oferecendo acolhimento, informação, apoio físico e segurança emocional.

A REGULAMENTAÇÃO DA PROFISSÃO DOULA: AVANÇOS E DESAFIOS

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A Revista Xapuri entrevistou Carolina Coelho, mãe de quatro filhos, doula, artista e, atualmente, agente territorial de cultura pelo MinC e pelo IFG. Também é uma das promotoras de cultura na cidade de Formosa, Goiás, com alguns projetos já contemplados. Iniciou sua trajetória como doula no ano de 2021 e segue atuando desde então. 

Em 2022, se envolveu a fundo nas pautas políticas. Hoje, ela representa a ADOULAGO, Associação de Doulas do estado de Goiás, uma das associações federadas a FENADOULAS – Federação de Doulas do Brasil. Além disso, participou ativamente das agendas acerca do projeto de lei que regulamentou a profissão. 

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“Estamos nessa luta há bastante tempo. Batemos muito de porta em porta na Câmara para que a regulamentação se concretizasse. Esse reconhecimento já muda o olhar das pessoas”, diz.

Ela conta que, apesar de pouco tempo de aprovação, os resultados já são perceptíveis: “Desde a regulamentação, várias coisas já mudaram. Nossa convenção deste ano será em Belém, e recebemos apoio do Ministério da Saúde. O Ministério já vinha articulando conosco antes da regulamentação, mas agora esse diálogo ganhou mais peso. A doula não é mais apenas uma ocupação: é uma profissional da saúde. Esse reconhecimento muda muita coisa”.

ESTUDOS JÁ COMPROVARAM A IMPORTÂNCIA DA DOULA PARA A MÃE E O BEBÊ ANTES, DURANTE E APÓS O PARTO

Carol relata que existem comprovações científicas de que o acompanhamento de uma doula melhora significativamente a experiência da mãe durante o parto. “Já existem dados que mostram que a presença da doula no ambiente de parto pode reduzir a duração do parto. A mulher se sente mais confiante, mais acolhida, e esse trabalho de parto tende a evoluir melhor”, pontua.

Pesquisa publicada na Revista Nursing, em 2021, avaliou a percepção de 322 mulheres assistidas por doulas e apontou que 95% delas reconheceram a importância desse acompanhamento, enquanto 93% afirmaram que o trabalho da doula contribuiu muito durante o parto, especialmente nos aspectos físico e emocional. 

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A doula também explica como ocorre a assistência durante a gestação: “Na gestação, oferecemos suporte por meio da educação perinatal. Trabalhamos temas importantes, como a fisiologia do parto, as fases do trabalho de parto, a amamentação e os cuidados com o recém-nascido. A ideia é ajudar a mulher a entender que o parto não é como nas novelas, em que a bolsa estoura e ela precisa sair correndo para o hospital. Existe todo um processo, e quanto mais ela compreende isso, mais consegue se resguardar”.

VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA 

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Um momento delicado e lindo na vida de uma mãe pode acabar virando um pesadelo. Segundo dados da pesquisa “Mulheres brasileiras e Gênero nos espaços público e privado”, divulgada em 2010 em parceria com o Sesc, os tipos mais comuns de violência durante o parto são gritos, procedimentos dolorosos sem consentimento ou informação, falta de analgesia e negligência.

A presença de uma doula pode reduzir os riscos de violência obstétrica, mas não é capaz de impedir totalmente porque o problema é estrutural e depende das equipes, hospitais, protocolos e políticas públicas eficazes.

Carol pontua que a presença de uma doula na sala de parto pode reduzir riscos de violência porque ela atua como uma presença contínua de apoio, informação e acolhimento, “A doula pode minimizar essas situações, mas acredito que isso acontece mais pela instrução durante a gestação do que pela atuação direta no momento do parto. A mulher precisa estar muito ancorada em si e no conhecimento que recebeu. Ela precisa ter se apropriado da educação perinatal para conseguir dizer: Não, não é isso que eu quero”. 

Ela também explica como é importante a mãe e o acompanhante estarem bem-informados no momento do parto, “A travessia do parto é muito forte. Muitas mulheres entram em um estado que chamamos de ‘partolândia’, e fica difícil decidir alguma coisa naquele momento. Como doula, eu não posso decidir por elas. Por isso, ao longo da gestação, a gente prepara também o acompanhante, para que, munidos de informação, ele ajude a gestante a tomar decisões”.

Além disso, a profissional também orienta acerca dos tipos de agressões que podem acontecer durante o parto, “Algumas violências são muito escancaradas, como a episiotomia, que é o corte vaginal, e que ainda aparece em alguns contextos. Outras são mais veladas, como quando o médico chama a mulher de ‘mãezinha’ e tenta fazer uma intervenção desnecessária. É preciso estar muito atenta para identificar também essas violências mais sutis”, explica. 

No Brasil, a violência obstétrica ainda não é reconhecida como um crime específico no Código Penal. Isso significa que não existe, em âmbito federal, uma tipificação própria chamada “crime de violência obstétrica”, com pena definida.

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CRÉDITO: ARTE: SOFIA P. GULART

FALTA DE INFRAESTRUTURA E INFORMAÇÃO AINDA DESAFIA O ATENDIMENTO

Ao ser questionada sobre as diferenças entre o atendimento em uma cidade do interior e em uma capital, Carol aponta dificuldades enfrentadas em Formosa, no interior de Goiás. Em comparação com Brasília, no Distrito Federal, ela observa que a diferença não é apenas estrutural, mas também conceitual, já que alguns serviços de saúde ainda não contam com protocolos adequados para acolher a presença das doulas ou garantir práticas associadas ao parto humanizado.

“Aqui em Formosa, o desafio é maior por várias questões. Quando pensamos no cuidado com a gestante, por exemplo, o SUS ainda é a grande referência. Temos algumas opções no atendimento particular, e eu já acompanhei mulheres em hospitais particulares daqui, mas, no SUS, ainda não vivemos alguns protocolos que já existem em outros lugares. Em Sobradinho (DF), por exemplo, quando o bebê nasce, ele já é colocado em contato pele a pele com a mulher. Aqui, além da menor aceitabilidade da doula nesse espaço, o nosso centro obstétrico é muito pequeno. Temos três salas de parto, sendo que apenas uma possui chuveiro”, relata

A importância da informação também aparece nas experiências mais marcantes vividas por Carol como doula. Ao final da entrevista, ela relembrou o caso de um bebê que nasceu dentro de um carro, em uma situação inesperada, mas conduzida com segurança justamente porque a gestante estava orientada e preparada.

“Foi a de um bebê que acabou nascendo no carro. A segurança daquela mulher fez com que o cenário se tornasse positivo. Não era minha função aparar o bebê, e tomamos muito cuidado com isso”, conta.

A situação, embora inusitada, reforça um ponto central defendido pela doula: informação, preparo e acolhimento podem fazer diferença concreta na forma como mulheres atravessam o parto, mesmo diante de cenários imprevistos.

ESPERANÇAR: PERSPECTIVAS FUTURAS PARA A PROFISSÃO

Hoje, com a regulamentação da profissão, o ofício de doula ganha reconhecimento no Brasil, fortalecendo o debate sobre parto humanizado, direitos das gestantes, combate à violência obstétrica e valorização de profissionais que atuam ao lado das mulheres antes, durante e depois do nascimento.

“Estamos começando a acreditar que é possível viver da doulagem, embora ainda seja desafiador. Eu não posso dizer que, hoje, a doulagem me sustenta. Se eu não tivesse outros meios de trabalho, não teria meu salário. Hoje, consigo trabalhar pela associação e ser minimamente remunerada, mas fomos voluntárias durante muito tempo. Em Formosa, a doulagem ainda não é algo que me sustenta. Este ano, já tenho algumas gestantes, mas ainda queremos chegar ao ponto de viver da profissão. Para muitas doulas, isso ainda não é possível”.

Fotos: CNS 

DOULAS NO SUS: O PRÓXIMO PASSO PARA UM NASCER MAIS HUMANIZADO

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Carol Coelho afirma que espera ver doulas inseridas no Sistema Único de Saúde e considera esse um dos caminhos mais importantes para ampliar o acesso das mulheres a esse acompanhamento. Segundo ela, a presença da doula no SUS permitiria que esse cuidado chegasse também a gestantes que não têm condições de pagar pelo serviço. A doula relata que já realiza muitos atendimentos sociais e que não deixa de acompanhar uma mulher por falta de recursos financeiros, embora reconheça que, na formação particular, muitas profissionais ainda sejam preparadas para atuar dentro de uma lógica mais voltada ao empreendedorismo.

“Tenho muitas experiências positivas, principalmente no SUS. Posso dizer que tive mais experiências positivas no SUS do que no particular. Embora o particular tenha mais estrutura, no SUS os protocolos tendem a ser mais respeitados. Não que o protocolo do particular seja diferente, mas, na minha experiência, no SUS eles são mais respeitados”.

“A regulamentação mudou o reconhecimento de uma profissão que foi marginalizada durante muito tempo. Estamos caminhando para o próximo passo, que é a inserção das doulas no SUS. Acreditamos que esse passo não deve demorar. Alguns estados já estão fazendo experiências, como Minas Gerais. No sul de Minas, por exemplo, há cerca de um ano algumas doulas atuam no Hospital de São Lourenço.”

Carol também ressalta que a doula não substitui o aparato médico. Pelo contrário: sua atuação complementa a equipe, oferecendo apoio físico, emocional e informativo em um momento tão delicado, contribuindo para a segurança, o acolhimento e o bem-estar da mãe e do bebê, “No cenário do parto, a doula está ali como apoio, não para interferir. Existe uma equipe médica responsável, e é importante respeitar esse lugar”.

Maria Letícia Marques MenezesMaria Letícia – Redatora-Chefe da Revista Xapuri. 

 

 

 

 

Referências

SAGÁS, Yasmin dos Santos. Práticas tradicionais Kaingang: gestação, parto e pós-parto. Revista Santa Catarina em História, Florianópolis, UFSC, v. 10, n. 1, 2016.

RONDON, Maria Clara de Sales; SAMPAIO, Glebia Tenório; TALIZIN, Elisabete Venturini. Mulheres assistidas por doulas: estudo exploratório. Revista Nursing, v. 24, n. 279, p. 6045-6048, 2021.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

P.S. Você que nos lê pode fortalecer nossa Revista fazendo uma assinatura: www.xapuri.info/assine ou doando qualquer valor pelo PIX: contato@xapuri.info. Gratidão!

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