Morre em Brasília o renomado artista plástico Paulo Andrade

MORRE O ARTISTA PLÁSTICO PAULO ANDRADE

Morre em Brasília o renomado artista plástico Paulo Andrade

Importante nome da cultura brasiliense faleceu na madrugada deste domingo (24/05), na UPA do Paranoá

Por Eduardo Fernandes/Correio Brasiliense

Morreu, na madrugada deste domingo (24/05), o renomado artista plástico Paulo Andrade, aos 72 anos. Ele estava internado na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Paranoá e enfrentava problemas de saúde nos últimos anos. Mesmo debilitado, o compromisso com a arte e com o registro histórico do país não parou.

Há poucas semanas, inclusive, o artista celebrou a inauguração de sua mais recente e expressiva mostra individual, intitulada Do golpe ao golpe, em cartaz no Espaço Cultural Alvorada Brasil, localizado na SCLS 109 Sul. Composta por uma leitura visual incisiva e crítica, a exposição resgata momentos cruciais da política brasileira recente, cobrindo o período de 2016 a 2023.

As obras traçam uma linha do tempo marcante que vai desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff até os ataques democráticos de 8 de janeiro. De acordo com a amiga de longa data Maria Helena de Carvalho, 75 anos, mais conhecida como Marí, Paulo era um artista de muita coragem. Ele que também integrou o movimento Cabeças, popular por ser um dos movimentos culturais mais emblemáticos de Brasília.

“Nossa amizade remonta ao século passado, quando nos conhecemos em Recife. Estivemos mais próximos no último ano, revivendo a vida, lembrando das coisas. Paulo deixa um registro importante na arte e na cultura de Brasília”, destaca. O artista deixa três filhos e um legado que jamais será esquecido.

Capa: Reprodução/Arquivo Pessoal

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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