MORIN MORREU, VIVA MORIN!

MORIN MORREU, VIVA MORIN!

MORIN MORREU, VIVA MORIN!

Morin foi um homem marcado pela curiosidade do saber, pela ousadia de pensar o novo e de criar um mundo diferente. Atraído por muitas questões, foi um homem de muitas facetas. Foi um predecessor em muitas áreas, desde seu primeiro livro, aos 25 anos, em 1946 – L’An zero de l’Allemagne (O ano zero da Alemanha, Sulina)

Por Alfredo Pena-Veja e Elimar Pinheiro do Nascimento

Com este livro, o sociólogo francês, que chegou a escrever um livro de sociologia, anos depois, em 1984: Sociologie (A sociologia: do microssocial ao macroplanetário, Europa-América, Portugal), inaugura o que veio a se chamar a sociologia do presente. 

Pensamento que, no Brasil, atravessa a obra da geógrafa e socióloga Ana Clara Torres Ribeiro (Por uma sociologia do presente, v. 4, Letra Capital Editora, 2013) e tem celebridades nas ciências sociais como Alain Touraine, Michel Maffesoli, Zygmunt Bauman, Manuel Castells, Richard Sennett, Danilo Martuccelli e Saskia Sassen.

Entender a complexity do humano foi uma de suas paixões, presente em seu segundo livro – L’Homme et la mort (O homem e a morte, Europa-América, Portugal), de 1951, e que continuou dez anos depois no livro Introduction à une politique de l’homme (Introdução a uma política do homem, Sulina). 

Reflexões que só podem ser plenamente compreendidas quando atentamos para o fato de que a sociologia francesa era marcada pelo estruturalismo, no qual o sujeito desaparecia. Conforme a famosa frase de Claude Lévi-Strauss: “as ciências sociais não servem para explicar o homem, mas para dissolvê-lo nas estruturas”. Ideia partilhada, entre outros, por Jacques Lacan, Louis Althusser e Michel Foucault (na primeira fase). 

Era o pensamento dominante na época. Morin travou um grande debate em torno do papel do sujeito nas dinâmicas sociais da modernidade, o que lhe trouxe perseguições e inimizades.

Por outro lado, recuperar o papel do sujeito o conduziu a pensar a comunicação, a cultura de massa, o papel do cinema e da música nos livros de 1956 – Le Cinéma ou l’Homme imaginaire (O cinema e o homem imaginário, Relógio D’Água, Lisboa) e de 1962 – L’Esprit du temps (Cultura de massa no século XX: o espírito do tempo, Forense Universitária). 

Ao mesmo tempo, embora pouco enfatizado, ele demonstra o protagonismo das mulheres, antes do feminismo dos anos 1960. Esta é a marca de seu livro de 1957 – Les Stars (As estrelas: mito e sedução, José Olympio). E essa tese do protagonismo feminino se consolida no seu primeiro estudo realizado como sociólogo do CNRS, em uma comunidade da Bretanha. 

Ao final do estudo, Morin decidiu ficar em campo enquanto os pesquisadores partiam, sob o argumento de que as pessoas falavam nos questionários o que os pesquisadores queriam ouvir, e ele queria escutar o que elas realmente pensavam. 

Suas entrevistas transcorriam em meio a jantares regados a vinho, obedecendo aos costumes locais (método in vivo). Suas observações e reflexões sistematizadas deram lugar ao livro Commune en France: la métamorphose de Plozévet (1967).

No ano seguinte, ocorrem as manifestações que vieram a ser conhecidas como o movimento de maio de 1968. E elas são analisadas em um livro famoso que ele escreveu com seus companheiros da revista Socialisme ou Barbarie, Claude Lefort e Cornelius Castoriadis – Mai 68: La Brèche (1968).

Uma reafirmação da sociologia do presente. Abordagem que retorna no livro do ano seguinte – La Rumeur d’Orléans, que analisa um caso real de histeria coletiva relacionada ao antissemitismo, a partir de notícias falsas tratando do desaparecimento de mulheres em provadores de roupas em lojas pertencentes a comerciantes judeus.

Essas mulheres seriam transportadas e vendidas a redes internacionais de tráfico de mulheres. Não havia qualquer denúncia nas delegacias. Os rumores se alimentavam do antissemitismo medieval; as lojas vendiam roupas modernas para as mulheres (como as minissaias), portanto, para os mais conservadores, era um local de perdição.

Na estrutura das mentiras, eram utilizados clichês de cinema. Os rumores, na realidade, eram manifestações do medo e da angústia de pais em cidades grandes, onde conheciam o isolamento e o sentimento de estarem perdendo o controle de seus filhos.

Contudo, o trabalho intelectual que se constitui na grande marca de Edgar Morin teve início na década de 1970 com o livro – Le Paradigme perdu: la nature humaine (O enigma do homem: por uma nova antropologia, Zahar), publicado em 1973. 

Nele, Morin agudiza suas críticas ao estruturalismo que havia mutilado o ser humano, separando-o de suas origens ecológicas, e denuncia o reducionismo característico da hiperespecialização da trajetória moderna da ciência, lançando as bases de sua obra maior – La Méthode.

Para Morin, o humano é uma trindade (que depois será ampliada). 

O humano é, simultaneamente, um ser biológico (é um animal); um ser social, criado e criador da sociedade, que só existe nela e por meio dela; e tem uma dimensão psíquica única, que nos dá a autoconsciência. O grande desafio é vencer a disjunção que se faz entre as dimensões do humano, isolando-as. 

O humano é muitos em um só. É um Homo sapiens, dotado de razão; um Homo ludens, aquele que brinca; um Homo economicus, que produz; e um Homo demens, possuído pela loucura, pela irracionalidade e pelo descomedimento. É tudo isso e não pode ser reduzido a uma só dimensão.

O Paradigma Perdido marca o adentramento do filósofo na teoria da complexity.

Esta é entendida como a tecitura de relações e agentes. Em suas palavras, a complexidade revela como as coisas estão interligadas, pois um pensamento complexo é aquele que religa as partes do todo, sabendo que o todo é mais do que a soma de suas partes. Sinaliza uma ideia que lhe será cara: o fenômeno da emergência, do novo, do inesperado.

Para o filósofo da complexidade, um desafio está posto: é preciso revolucionar nosso pensamento e a nossa forma de aprendizado. E o caminho será duplo. O primeiro, desenvolver a teoria da complexidade, trabalho que tomou seis volumes de O Método: 1. La nature de la nature, 1977 (A natureza da natureza, Europa-América, Portugal); 2. La vie de la vie, 1980 (A vida da vida, Sulina); 3. La connaissance de la connaissance, 1986 (O conhecimento do conhecimento, Sulina); 4. Les idées

Leur habitat, leur vie, leurs mœurs, leur organisation, 1991 (As ideias: habitat, vida, costumes e organização, Sulina); 5. L’Humanité de l’humanité: l’identité humaine, 2001 (A humanidade da humanidade: a identidade humana, Sulina); 6. L’Éthique complexe, 2004 (A ética, Sulina).

O primeiro volume foi construído nos Estados Unidos (Salk Institute), onde estudou biologia, física, química e teoria dos sistemas, para melhor entender os processos naturais. Junto com o segundo volume, são seus dois melhores livros. O último foi construído às pressas, sem embasamento similar ao dos anteriores.

Em grande parte, porque Morin temia morrer antes de completar sua obra.

Os temas de sua obra central foram objeto de retorno, considerações complementares e textos de vulgarização. 

O primeiro desses livros foi publicado ainda em 1990 – Introduction à la pensée complexe (Introdução ao pensamento complexo, Sulina), no qual os três princípios fundamentais da complexidade são apresentados de forma didática: o dialógico (o oposto pode ser concorrente ou complementar), a unidade recursiva (os efeitos e os produtos são, ao mesmo tempo, causadores e produtores daquilo que os gerou) e o hologramático (não apenas a parte está no todo, mas o todo está inscrito em cada parte).

O segundo caminho nasceu com o seu livro de 1999 – La tête bien faite (A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento, Bertrand), no qual prega (mais uma vez) a necessidade de romper com o reducionismo, com o pensamento linear, e isso só pode ser feito por meio de uma reforma do pensamento, que implica uma reforma da educação. 

Um convite da UNESCO será a oportunidade de exprimir, de forma mais didática e contundente, suas proposições que estarão no livro de 2000: Les sept savoirs nécessaires à l’éducation du futur (Os sete saberes necessários à educação do futuro, Cortez).

Educar para o futuro exige, antes de tudo: (i) ensinar o que é o ato de conhecer e como desenvolver a lucidez crítica, conhecendo os riscos constantes do erro e da ilusão; (ii) nossas ideias devem estar contextualizadas, interligadas com as partes do todo, e não isoladas; (iii) é necessário recolocar o homem no centro do interesse do conhecimento de forma integral, pois somos, ao mesmo tempo, um ser biológico, cósmico, psíquico, cultural e histórico; (iv) é essencial conhecer a crise planetária que vivemos, pois hoje temos uma consciência melhor de que somos todos passageiros de um mesmo planeta. Essa noção da morada comum será desenvolvida em outro livro, de 1993, com Anne-Brigitte Kern – Terre-Patrie (Terra pátria, Sulina).

Ainda há três saberes necessários à educação do futuro: (v) enfrentar as incertezas, que significa educar para o inesperado, nas suas palavras: (vi) ensinar os jovens a navegarem em um mar de incertezas através de arquipélagos de certezas; ensinar a compreensão das diferenças, com a postura de tolerância em face da alteridade; (vii) desenvolver uma ética complexa – autonomia e responsabilidade individual, aderência à democracia e a solidariedade não apenas com os humanos, mas com todos os seres vivos do planeta.

São os saberes necessários para os indivíduos aprenderem, interiorizarem e transformarem em atitudes para enfrentar um mundo cada vez mais repleto de incertezas, de ameaças e de desesperança. Afinal, em sua última entrevista, Morin dizia: “Duvido da humanidade, mas acredito na humanidade”.

1 professor alfredo pena vega 25989797Alfredo Pena-VegaDoutor em Sociologia pela Universidade de Paris, professor no Centro de Estudos Transdisciplinares da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales (EHESS) e na Universidade de Nantes. Trabalhou com Edgar Morin em diversos projetos de pesquisa europeus. Diretor científico do projeto “Pacto Mundial dos jovens pelo clima” – COP21.

 

images 1 2Elimar Pinheiro do Nascimento – Doutor em Sociologia pela Universidade de Paris, professor associado dos Programas de Pós-Graduação do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB) e do Programa Ambiente e Sustentabilidade na Amazônia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Organizador, junto com Alfredo Pena-Vega e Mauricio Amazonas, de Edgar Morin, homem de muitos séculos: um olhar latino-americano, 2021. 

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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