COMO SE FORMAM E COMO DESAPARECEM AS ÁGUAS DO CERRADO

COMO SE FORMAM E COMO DESAPARECEM AS ÁGUAS DO CERRADO

No Sistema Biogeográfico do Cerrado, o lençol freático se forma diferentemente nos diversos subsistemas.

Por Altair Sales Barbosa

Nos subsistemas de Campos, também conhecidos pelas denominações de Chapadões ou Campinas Tabulares, o lençol freático é profundo e constitui-se no grande alimentador de aquíferos.

E, dependendo da natureza do solo, a água das chuvas que é infiltrada se desloca de forma rápida em direção aos aquíferos. Nos chapadões de origem lacustre, a infiltração é mais lenta e depende exclusivamente das formas vegetacionais nativas.

Nos subsistemas de Cerrado “stricto sensu e Cerradão, situados nos interflúvios, a água da chuva, que se infiltra no solo, forma um lençol freático rico e abundante, mas também é profundo. Grande parte das águas pluviais escorre, de acordo com a declividade dos terrenos, para os leitos dos rios.

Onde o estrato de gramíneas e arbustos nativos é denso, não há processos acentuados de ravinamentos; o contrário ocorre quando aparecem manchas que caracterizam áreas desnudadas.

Nos Cerrados e Cerradões, situados em declives mais acentuados, não há formação de lençol freático. As águas pluviais escorrem com velocidade para os leitos dos cursos d´águas.

No subsistema de Matas, o lençol freático é abundante e subsuperficial, em função do caráter ombrófilo, que diminui o impacto da insolação, e da serapilheira que protege o solo. A rede hidrográfica que aí se forma é caracterizada por pequenos córregos e é muito rica. Sua origem e alimentação estão na dependência dos lençóis freáticos aí existentes.

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Foto: Paulo Robson de Souza/ WikiMediaCommons/ Reprodução

Nas Matas Ciliares, o panorama é similar, a diferença é que o lençol freático alimenta diretamente o curso d’água mais próximo, por meio de escoamento rápido.

Nas Veredas, em função do sistema radicular das plantas e do solo húmico, turfoso e, às vezes, argiloso, o lençol é abundante e superficial, formando pequenas lagoas e sendo responsável pelas nascentes dos cursos d’água do Cerrado, cuja morfologia se apresenta como um anfiteatro.

Uma vez retirada a cobertura vegetal nativa, o primeiro lençol a secar é o que se encontra nos subsistemas de Matas, Matas Ciliares e Veredas. O tempo para a finalização deste processo, de acordo com observações diversas, dura de dois a cinco anos.

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Fonte: A Rede Integrada de Monitoramento das Àguas Subterrâneos/Serviço Geológico Brasileiro

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Foto: Tiago Firmino

Nas Veredas, por se tratar de um lençol superficial, o processo de desaparecimento é muito acelerado, talvez não chegue a alcançar o período de dois anos.

Nos Capões ou manchas de matas mais homogêneas, tipo as que definiam em outros tempos o chamado Mato Grosso Goiano, a rede de drenagem, caracterizada por pequenos córregos, também se extingue no prazo de dois a cinco anos, deixando, nos locais, os caminhos secos, que serão, em cada estação chuvosa, avolumados por processos erosivos colossais, dependendo da gênese dos solos.

Nos Cerrados e Cerradões situados nos interflúvios, os lençóis secarão no prazo de cinco a oito anos. Haverá a acentuação dos processos de ravinamento, cujas erosões serão capazes de esculpir no solo sinistras cicatrizes ruiniformes.

A retirada total da cobertura vegetal afetará, também de forma decisiva, a já reduzida recarga dos aquíferos, cujas reservas chegarão a um nível crítico, pois as águas pluviais que conseguirem penetrar o solo serão de imediato por esses absorvida, dado aos seus estados de aridez em função da insolação. A pouca umidade retida se evaporará de forma rápida, pelas mesmas causas.

No início, os problemas oriundos dessa situação tentarão ser contornados com a construção de barramentos, por meio de curvas de níveis e pequenos açudes, para reter as águas das chuvas. Entretanto, os ambientes que surgem desse processo têm caráter bêntico, fato que origina a argilificação e a consequente impermeabilização do fundo dos poços, que, associada à insolação, resultará em uma ação de nula eficácia.

O primeiro aquífero a ter suas reservas diminuídas será o Urucuia, até o quase total desaparecimento, seguido do aquífero Bambuí e do aquífero Guarani. O prazo para a finalização desse processo, de acordo com dados de Geotecnia atuais, deverá compreender um período situado entre 15 e 20 anos.

Com o desaparecimento do lençol freático, seguido da diminuição drástica da reserva dos aquíferos, os rios iniciarão um processo de redução da perenidade, oscilando sempre para menos, entre uma estação chuvosa e outra, e desaparecendo quase que por completo na estação seca.

Esse fato afetará primeiro os pequenos cursos d ‘água, depois os de médio porte e em seguida os grandes rios.

altair salesAltair Sales Barbosa – Pesquisador do CNPq. Sócio Emérito do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Professor convidado da UniEvangélica Membro do Corpo Editorial da Revista Xapuri, em Cerrado – a construção do meio-dia, Instituto Altair Sales, 1ª Edição, 2022.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN dele, a Linda Serra dos Topázios. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo independente e democrático de informação.

Resolvemos fundar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Mais um trabalho de militância, voluntário, por suposto. Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também.

Correr atrás da grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, Jaime fechou questão – “nossas cores vão ser o vermelho e o amarelo, porque revista tem que ter cor de luta, cor vibrante” (eu queria verde-floresta). Na paz, acabei enfiando um branco.

Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, em uma noite. Optamos por centrar na pauta socioambiental. Nossa primeira capa foi sobre os povos indígenas isolados do Acre: ‘Isolados, Bravos, Livres: Um Brasil Indígena por Conhecer”. Depois de tudo pronto, Jaime inventou de fazer uma outra boneca, “porque toda revista tem que ter número zero”.

Dessa vez finquei pé, ficamos com a capa indígena. Voltei pra Brasília com a boneca praticamente pronta e com a missão de dar um jeito de imprimir. Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, “de grátis”. Com a primeira revista impressa, a próxima tarefa foi montar o Conselho Editorial.

Jaime fez questão de visitar, explicar o projeto e convidar pessoalmente cada conselheiro e cada conselheira (até a doença agravar, nos seus últimos meses de vida, nunca abriu mão dessa tarefa). Daqui rumamos pra Goiânia, para convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa, nosso primeiro conselheiro. “O mais sabido de nóis,” segundo o Jaime.

Trilhamos uma linda jornada. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo. Às vezes, ligava pra falar da ótima ideia que teve, às vezes sumia e, no dia certo, lá vinha o texto pronto, impecável.

Na sexta-feira, 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com os rumos da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.

Hoje, cá estamos nós, sem as capas do Jaime, sem as pautas do Jaime, sem o linguajar do Jaime, sem o jaimês da Xapuri, mas na labuta, firmes na resistência. Mês sim, mês sim de novo, como você sonhava, Jaiminho, carcamos porva e, enfim, chegamos à nossa edição número 100. E, depois da Xapuri 100, como era desejo seu, a gente segue esperneando.

Fica tranquilo, camarada, que por aqui tá tudo direitim.

Zezé Weiss

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