O NETO BRASILEIRO DE POLIFEMO
Na edição de janeiro, a Revista Xapuri publicou o verbete do Dicionário do Folclore Brasileiro de Câmara Cascudo sobre o Pé de Garrafa, um homem mitológico brasileiro que vive nas florestas, cabeludo, de uma só perna, com o pé em forma de fundo de garrafa.
Por Antônio Carlos Queiroz
Assim que vi A Odisseia do Christopher Nolan, me lembrei da tese do folclorista paulista José A. Teixeira, segundo quem o Pé de Garrafa brasileiro seria neto do ciclope Polifemo da mitologia grega, uma descendência de 3 mil anos!
Polifemo, como todo mundo sabe, foi aquele ciclope de um olho só, filho do deus dos mares, Posseidon, canibal, pastor de ovelhas e produtor de queijos, que Odisseu (Ulisses) enfrentou numa caverna da Sicília, perto do Monte Etna.
Odisseu e sua tripulação entraram inadvertidamente na espelunca, atraídos pelos queijos que ali estavam sendo curados. Acabaram presos junto com as ovelhas, uma grande pedra fechando a abertura do antro durante a noite.
A cada dia, o ciclope devorava dois homens. Matreiro, Odisseu havia se apresentado a ele com o nome de “Ninguém”! Para escapar, o grego serviu vinho ao monstro e, quando ele caiu pelas tabelas, furou-lhe o olho com um espeto em brasa. Urrando de dor, Polifemo gritou por socorro aos irmãos vizinhos, dizendo que “Ninguém tinha lhe furado o olho.” “Quem furou o seu olho?”, perguntaram os vizinhos. “Ninguém!”, disse o ciclope… “Conversa de bêbado”, pensaram os manos, deixando-o só. Na manhã seguinte, Odisseu e os companheiros restantes escaparam da caverna escondidos debaixo das ovelhas. E tiveram que enfrentar as tempestades que o pai do bicho vingador providenciou para afundar os barcos dos aqueus.
A lenda de Polifemo não morreu na Sicília. Uma de suas manifestações ressurgiu séculos depois no País Basco, Espanha, na pele de Basajaun, monstro silvestre de um olho só, peludo, igualmente canibal e pastor. Foi vencido por um soldado que também lhe furou o olho, e que também escapou de seu estábulo escondido debaixo de uma ovelha.
Um elemento diferente: ao perseguir o soldado, Basajaun lhe deu um anel, que respondia “Estou aqui!” quando o bicho perguntava a sua localização. Para se livrar, o soldado foi obrigado a cortar o dedo em que o anel estava grudado que nem um microchip rastreador.
Segundo o estudo de José A. Teixeira, além do Basajaun basco, Polifemo gerou muitos outros filhos: o Bécut da Gasconha, no sudoeste da França; o Tepegöz do mundo turco; e os gigantes da Armênia e do Cáucaso, entre outros, todos com um olho só, antropófagos, pastores.
Teixeira informa que o folclorista Gustavo Barroso traçou a filogenia da lenda que primeiro apareceu na nona rapsódia da Odisseia de Homero. Polifemo é o pai; Basajaun, o basco (e também andaluz), é o filho; o Pé de Garrafa brasileiro é o neto.
Teixeira passou alguns anos estudando o folclore de Goiás a convite do então governador Pedro Ludovico Teixeira (não são parentes), e publicou o livro Folklore Goiano – Cancioneiro, Lendas, Superstições, em 1941, pela Companhia Editora Nacional. A obra é dedicada a Mário de Andrade.
Teixeira contou ter colhido as informações sobre o Pé de Garrafa em Formosa, mas o seu habitat em Goiás era, naquela época, o Vão do Paranã (atenção, não é Paraná!), um grande vale de 60 léguas, “formado pelas ramificações que correm pelo Norte do Estado pelo espinhaço da Serra Geral (…) Coberto de extensas florestas, verdadeiras muralhas verdes que abrigam o curso dos rios (…) uma região misteriosa, em que o homem se sente assoberbado pela natureza.”
Assim descreveu Teixeira o elemento: “Se o ouvido alerta escuta um grito agudo, estaca anelante, pálido. Repetindo, retrocede apavorado – é o Pé de Garrafa – o gênio mau da mata, corpo de homem, preto, umbigo branco, um pé só em forma de fundo de garrafa.
Vive gritando pelas matas à procura de caminho. Não se deve responder, se não vai aproximando, aproximando… e ninguém sabe, mas deve suceder algo horrível. Habita só as matas fechadas. Lenhadores, caçadores e viajeiros já ouviram seus gritos pavorosos; ou pularam agoniados seus grandes rastros no chão úmido.” O umbigo do monstro é o seu ponto fraco, seu calcanhar de Aquiles, digamos…

A lenda do Pé de Garrafa foi também registrada em Estados do Nordeste e do Leste. No Estado do Piauí, por exemplo, foi primeiro colhida pelo folclorista Alfredo do Vale Cabral.
Como acontece com outros mitos, a aparência do Pé de Garrafa muda de acordo com o lugar onde se manifesta. Já puseram um chifre no coitado, e já lhe atribuíram algumas características do Saci. Há quem o compare com o Mapinguari monóculo da Amazônia.
Pode até ter sido inventado por uma mulher chateada com as bebedeiras homéricas do marido, um pé inchado da pior espécie. Quem conta um conto…
Antônio Carlos Queiroz (ACQ) – Poeta e jornalista.
Capa: Ilustração: Steele Savage/ Reprodução









