ÁRVORES: O VERDE QUE FAZ CHOVER
Desde muito cedo, ainda crianças, nos primeiros anos de escola, aprendemos que as árvores realizam a fotossíntese e, nesse processo, elas absorvem o gás carbônico (CO₂) da atmosfera e liberam oxigênio puro, elemento essencial para a vida no planeta Terra.
Por Maria Letícia, Zezé Weiss
O que em geral não aprendemos nessa idade, e muitas vezes nem depois, na vida adulta, é que as árvores desempenham uma diversidade de funções no meio ambiente e que a sua escassez, muitas vezes provocada por atividades ilegais de desmatamento, pode acarretar um colapso ecológico que impacta as mudanças
climáticas nas mais diferentes regiões do Brasil e do planeta.
ÁRVORES E A TERRA VIVA
“Amazônia, o pulmão do mundo!” Quem nunca ouviu essa frase? A comparação atravessou gerações e ajudou a traduzir, de forma simples, a importância das grandes florestas para a vida no planeta. Mas, assim como acontece com os pulmões humanos, a função das florestas é mais complexa do que apenas “produzir oxigênio” e manter a respiração. Os pulmões realizam trocas gasosas essenciais ao organismo; as florestas, por sua vez, participam intensamente das trocas de carbono, água e energia entre a superfície terrestre e a atmosfera.
Chamar a Amazônia de “pulmão do mundo” funciona melhor como metáfora de um grande órgão regulador do planeta, pois assim como os pulmões ajudam a manter o equilíbrio interno do corpo humano, as grandes florestas ajudam a sustentar o equilíbrio climático e os ciclos naturais dos quais a vida depende. Em outra comparação funcional, as árvores podem ser vistas como as “artérias” do planeta: por meio delas, água, carbono e nutrientes permanecem em constante circulação entre o solo, vegetação e a atmosfera. Além disso, parte do dióxido de carbono retirado da atmosfera durante a fotossíntese é incorporada nos troncos, nos galhos, nas folhas e nas raízes. Uma parcela também chega ao solo por meio da matéria orgânica. O livro “A Vida Secreta das Árvores: O Que Elas Sentem, Como Elas se Comunicam” foi escrito pelo engenheiro alemão Peter Wohlleben, uma pessoa que, não satisfeita em contemplar, trabalhar e refletir sobre as árvores, estudou e comprovou
cientificamente o poder de comunicação entre elas.
“Todas as árvores aqui, e em todas as florestas que não estão muito danificadas, estão conectadas umas às outras por meio de redes subterrâneas de fungos. As árvores compartilham água e nutrientes por meio dessas redes e também as usam para se comunicar. Elas enviam sinais de alerta sobre seca e doenças, por exemplo, ou ataques de insetos, e outras árvores alteram seu comportamento quando recebem essas mensagens”, relata o engenheiro em entrevista ao Smithsonian. Estudos indicam que a comunicação delas ocorre através dessas redes, pelas quais as árvores enviam sinais químicos, hormonais e elétricos. O cientista Edward Farmer tem realizado uma série de pesquisas sobre esses pulsos elétricos, nas quais conseguiu identificar um sistema de sinalização elétrico
extremamente similar às sinapses do cérebro humano. Essas são apenas algumas pesquisas e comprovações científicas já existentes, e em andamento, sobre a natureza das árvores para além do papel biológico que a maioria dos seres humanos conhecem. Maioria, pois o conhecimento e a ciência de que a Terra é viva, assim como tudo que há nela, já existe há milhares de anos. Povos indígenas, tradicionais, povos antigos, de várias culturas e regiões diferentes detêm esse saber há muito tempo.
Acontece que tal conhecimento, assim como tantos outros, foi prejudicado pelo desenvolvimento predatório da civilização humana, em específico a ocidental e europeia. Hoje, enquanto empresários, madeireiras, grileiros e inimigos do meio ambiente enxergam a floresta apenas como um potencial empreendimento, ainda há pessoas que veem as árvores como um semelhante e reconhecem sua importância para a vida.
O VERDE QUE FAZ CHOVER: A AMAZÔNIA E SEUS “RIOS VOADORES”

Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil
Pode soar metafórico, mas quando se diz que a floresta ajuda a fazer chover não é apenas força de expressão. Sobre a Amazônia circulam os chamados “rios voadores”: correntes de ar que recebem umidade do oceano Atlântico, são alimentadas pela água devolvida pelas árvores à atmosfera por meio da evapotranspiração – processo conjunto pelo qual a água da terra evapora do solo e transpira através das plantas, retornando para a atmosfera – e, ao encontrarem a barreira dos Andes, seguem em direção a outras partes da América do Sul, contribuindo para as chuvas no Centro- Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. A importância dessa reciclagem já havia sido demonstrada através do estudo Recycling of Water in the Amazon Basin: An Isotopic Study, publicado em outubro de 1979 na revista Water Resources Research. O transporte da umidade ao longo dos Andes foi aprofundado por José Antonio Marengo e outros pesquisadores no artigo Climatology of the Low-Level Jet East of the Andes, publicado em junho de 2004 no Journal of Climate. No Brasil, a expressão “rios voadores” foi popularizada e costuma ser atrelada ao Marengo, um pesquisador do CPTEC/Inpe. A metáfora possui relação com o conceito mais amplo de “rios troposféricos”, apresentado em 1992 por Reginald Newell, Nicholas Newell, Yong Zhu e Courtney Scott. A partir de 2007, o Projeto Rios Voadores, idealizado pelo aviador Gérard Moss e pelo pesquisador Antonio Nobre, ajudou a tornar o fenômeno conhecido fora dos círculos científicos. Ao reduzir a evapotranspiração, o desmatamento enfraquece uma das fontes que abastecem essas correntes de umidade e sustentam parte das chuvas do continente.
Uma pesquisa de Mingjie Shi e outros autores, publicada em 13 de maio de 2022 na Nature Communications, estimou que a evapotranspiração pode fornecer entre 30% e 40% da umidade atmosférica durante a estação seca amazônica. O trabalho também aponta que essa umidade ajuda a iniciar a estação chuvosa no sul da Amazônia.
OS IMPACTOS DO DESMATAMENTO E SEU PRINCIPAL “VILÃO”
O desmatamento caiu pelo terceiro ano seguido, mas o Brasil ainda perdeu 112 hectares de vegetação nativa por hora em 2025.

Créditos Fernando Frazão/Agência Brasil
O desmatamento acelera as mudanças climáticas ao liberar o carbono armazenado na vegetação e reduzir a capacidade das florestas de retirar dióxido de carbono da atmosfera. A derrubada também destrói habitats, ameaça espécies, empobrece o solo e altera o ciclo da água, favorecendo secas, enchentes e temperaturas mais elevadas.
Seus efeitos ultrapassam as áreas desmatadas e atingem a produção de alimentos, o abastecimento de água e a vida de populações que dependem diretamente das florestas. No chão, a exposição favorece erosão e carreamento de sedimentos para córregos e represas. O dano de uma derrubada não está restrito ao local afetado, pelo contrário, pode acarretar um desequilíbrio ecológico massivo.
A expansão agropecuária continua no centro dessa pressão como a atividade que mais desmata no Brasil. Segundo a Tabela 31 do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD) 2025, publicada pelo MapBiomas em junho de 2026, o índice agropecuário esteve associado a 974.469 hectares, ou seja, 99% de toda a vegetação nativa desmatada em 2025. No acumulado de 2019 a 2025, a participação foi de 97,8%, o que aponta onde se concentra a maioria do problema do desmatamento no país.
O aquecimento local já pode ser medido. Um estudo publicado em 21 de novembro de 2025, na revista Communications Earth & Environment, comparou áreas amazônicas muito desmatadas com vizinhas que mantinham mais de 80% de cobertura florestal. Na estação seca, as regiões com até 40% de floresta remanescente apresentaram temperatura da superfície, em média, 3 °C mais alta e evapotranspiração 12% menor. A derrubada, portanto, não apenas acompanha o calor: ela ajuda a produzi-lo.

Créditos: Fabio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
A QUEDA APÓS ANOS RECORDES DE DESMATAMENTO
De acordo com o MapBiomas Alerta, o desmatamento cresceu de 1,22 milhão de hectares em 2019 até alcançar 2,115 milhões em 2022. Depois vieram três reduções consecutivas. Entre o pico de 2022 e 2025, a área anual desmatada caiu 53,4%. A curva muda de direção e mostra que política pública e controle fazem diferença. Ainda assim, o acumulado dos sete anos chegou a 10,913 milhões de hectares de vegetação nativa.
A redução também não foi uniforme. Em 2025, o Cerrado perdeu 540.614 hectares e concentrou 54,9% do total nacional; a Amazônia respondeu por 289.478 hectares, ou 29,4%. Juntos, os dois biomas reuniram mais de 84% da área suprimida. O Matopiba, formado por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, sozinho concentrou 40% do desmatamento brasileiro, apesar de uma queda de 24% sobre o ano anterior.
O QUE COLABOROU PARA A REDUÇÃO
Não existe uma medida específica capaz de explicar sozinha os três anos de queda no desmatamento. Preços agrícolas, clima, decisões estaduais, comportamento das empresas e ações judiciais também interferem nos números. Desde 2023, o Governo tem implementado uma série de medidas e operações para combater o
desmatamento nos biomas brasileiros.
O Decreto nº 11.367, de 1º de janeiro de 2023, restabeleceu o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, o PPCDAm, e reorganizou os planos para o Cerrado e os demais biomas. A estrutura reúne quatro frentes: produção sustentável, monitoramento e controle ambiental, ordenamento fundiário e territorial e instrumentos normativos e econômicos. Esse desenho importa porque o desmatamento
envolve fiscalização, grilagem, crédito, cadeias produtivas e uso da terra, problemas que não cabem em um único órgão.
O monitoramento por satélite encurtou a distância entre a derrubada e a resposta do Estado. O Deter, uma ferramenta do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, orienta operações em tempo quase real; o MapBiomas Alerta refina e valida áreas com imagens de alta resolução. Em apresentação divulgada pelo Ministério do Meio Ambiente em 7 de agosto de 2026, o governo informou que, de 2023 até agosto de 2026, o Ibama realizou 68 mil ações de fiscalização, lavrou 23 mil autos de infração e embargou 20.331 km².
A retomada do Fundo Amazônia também devolveu recursos a órgãos públicos, municípios e projetos que estimulam a sociobioeconomia e a restauração. Na mesma apresentação de agosto de 2026, o MMA informou R$ 6 bilhões comprometidos desde 2023 e projetos aprovados alcançando 75% dos municípios da Amazônia Legal.
PERSPECTIVAS FUTURAS: REDUZIR NÃO BASTA
A próxima etapa terá de combinar desmatamento evitado com recuperação dessas áreas degradadas. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, revisto pela Resolução Conaveg nº 4, de 25 de novembro de 2024, mantém a meta de recuperar ao menos 12 milhões de hectares até 31 de dezembro de
2030.
Para chegar perto desse número, será necessário ampliar viveiros e redes de sementes, assistência técnica, restauração em propriedades privadas, unidades de conservação, terras indígenas e outros territórios coletivos. Vale ressaltar que a meta em questão não pode virar uma espécie de licença para destruir de um lado e plantar do outro.
As ações abertas em 2026 evidenciam a forma como o controle pode se espalhar pelos biomas. O Projeto Operar-Biomas, apresentado pelo Ministério da Justiça em 14 de julho, prevê integração entre forças de segurança para enfrentar desmatamento, extração ilegal de madeira, mineração e incêndios.
Já a Operação Mata Atlântica em Pé fiscalizou 1.520 alertas em 17 estados entre 17 e 27 de agosto. O balanço preliminar, divulgado pelo Ministério Público de Minas Gerais em 28 de agosto de 2026, apontou 8.370,28 hectares de desmatamento ilegal e R$ 100 milhões em multas. São medidas posteriores ao resultado de 2025; não explicam aquela queda, mas indicam o tipo de continuidade necessária.
OS TERRITÓRIOS QUE MANTÊM A FLORESTA EM PÉ

Créditos: Gleilson Miranda/Governo do Acre/Wikimedia Commons
Uma floresta preservada não quer dizer que seja uma terra sem gente, mas muito pelo contrário. Em boa parte do país, ela coincide com territórios ocupados, manejados e defendidos por povos indígenas, comunidades quilombolas e tradicionais.
Os dados mostram que as terras indígenas estão entre as áreas mais preservadas do país. Segundo levantamento do
MapBiomas publicado em 19 de abril de 2022, elas perderam 1% de sua vegetação nativa entre 1990 e 2020. Nas propriedades privadas, a perda chegou a 20,6%. Dos 69 milhões de hectares desmatados no Brasil nesse
período, 1,1 milhão estava dentro de terras indígenas, enquanto 47,2 milhões estavam em áreas privadas. Um relatório da FAO e do FILAC, lançado em 25 de março de 2021, encontrou resultados semelhantes em outros países da América Latina: entre 2000 e 2012, o desmatamento foi de 50% a 67% menor nos territórios indígenas com posse oficialmente reconhecida.
QUILOMBOS: RECONHECER E PROTEGER É PRECISO
Um levantamento do MapBiomas, divulgado em 2023 e citado pela Conaq em 5 de setembro de 2025, mostra que os territórios quilombolas perderam 4,7% de sua vegetação nativa entre 1985 e 2022, enquanto a perda em áreas privadas chegou a 25%.
A diferença também aparece dentro dos próprios territórios: aqueles já titulados perderam 3,2% da cobertura nativa, diante de 5,5% nas áreas que ainda aguardavam a conclusão do processo. Os números mostram que a titulação, além de assegurar um direito histórico, funciona como uma medida concreta de proteção
ambiental.
O Relatório Anual do Desmatamento no Brasil 2025, divulgado pelo MapBiomas Alerta em maio de 2026, identificou
1.552 hectares desmatados em áreas quilombolas, aumento de 7% em relação a 2024. Proteger essas comunidades exige acelerar a titulação, combater invasões, grilagem e garimpo, destinar recursos para fiscalização e garantir sua participação nas decisões ambientais. Como afirmou Sebastião Douglas, coordenador nacional da Conaq – Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas –, “a luta pela regularização de seus territórios é, portanto, uma luta pela Amazônia”.
Em nota publicada em 5 de setembro de 2024, a Conaq lembra que a relação com a floresta envolve alimentos, remédios, rios, solos e práticas culturais. Castanha, açaí, bacaba, cipó-titica, palha e breu não aparecem apenas como produtos: fazem parte da vida cotidiana e de conhecimentos transmitidos entre gerações. Proteger o território preserva, ao mesmo tempo, a biodiversidade e a cultura.
DEMARCAR E PRESERVAR: O FUTURO QUE O BRASIL MERECE (E PRECISA)
Os números ajudam a mostrar como a demarcação de terras indígenas forma barreiras contra o avanço desenfreado da grilagem, da mineração, da extração ilegal de madeira e, principalmente, da agropecuária sobre o Brasil. Para os povos indígenas, o território está ligado à alimentação, à cultura, à memória, à espiritualidade e à continuidade de cada povo. Não existe uma única forma indígena específica de viver ou manejar a terra, mas muitos desses conhecimentos permitem cultivar alimentos, coletar frutos, utilizar plantas medicinais e proteger rios e animais sem destruir os ciclos naturais da floresta.
O relatório Governança florestal por povos indígenas e tribais, elaborado pela FAO e pelo Fundo para o Desenvolvimento dos Povos Indígenas da América Latina e do Caribe (FILAC) e lançado em 25 de março de 2021, mostrou que 45% das florestas intactas da Bacia Amazônica estavam dentro de territórios indígenas. Na Amazônia brasileira, entre 2000 e 2012, o desmatamento foi duas vezes e meia menor nos territórios com direitos coletivos
oficialmente reconhecidos do que em outras florestas com condições semelhantes.
Essa relação não aparece apenas na Amazônia. Um estudo liderado pela cientista de dados Rayna Benzeev e publicado em 26 de janeiro de 2023 na revista científica PNAS Nexus analisou 129 terras indígenas da Mata Atlântica entre 1985 e 2019. Antes da homologação, a taxa líquida anual de desmatamento nessas áreas era de 0,73%.
Depois que a posse foi oficialmente reconhecida, ela caiu para 0,05%. O cálculo considera tanto a retirada de vegetação quanto a recuperação natural da floresta. Em comparação com terras indígenas que ainda não haviam concluído a demarcação, os territórios homologados também apresentaram resultados melhores de conservação e recuperação da cobertura florestal. A demarcação oferece segurança para que os povos retomem o controle de seus territórios, impeçam invasões e invistam na recuperação das áreas degradadas. O estudo da Mata Atlântica indica que apenas a homologação – etapa final do processo demarcatório – produziu uma melhora ambiental significativa; já apenas a declaração de terra não apresentou o mesmo efeito. Como afirmou a antropóloga Jurema Machado à Pesquisa FAPESP, em reportagem publicada em 28 de julho de 2023, “os territórios cuidados por eles representam proteção e crescimento da vegetação”. Garantir e formalizar o direito à terra, portanto, além de cumprir o previsto pela Constituição de 1988, também fortalece uma forma de conservação que já apresenta resultados contínuos e concretos.
Maria Letícia – Graduanda em Ciência Política. Redatora da Revista Xapuri.
Zezé Weiss – Jornalista. Editora
da Revista Xapuri.










